segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Roteiro do Mapa do Caminho para a eliminação dos fósseis

Qual roteiro do Mapa do Caminho para a eliminação dos fósseis?
Mais de 80 países apoiam iniciativa de Lula para phase-out dos fósseis. Conferência internacional sobre o tema será realizada na Colômbia em abril/2026, enquanto Brasil desenvolve estratégia paralela à ONU.

Principais responsáveis pelas mudanças climáticas, os combustíveis fósseis não apareceram no texto final da 30ª Conferência das Partes, em Belém do Pará. Ainda assim, dominaram os debates. Na Cúpula de Líderes, Lula propôs um “mapa do caminho” para eliminá-los, e nas duas semanas seguintes mais de 80 países abraçaram a ideia. O Grupo Árabe e o bloco de países em desenvolvimento liderado pela Índia resistiram. Não houve consenso, mas depois de três décadas de conferências climáticas, os fósseis estão, de vez, no centro da mesa e não sairão tão cedo.

Na plenária final, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, anunciou que o Mapa do Caminho para a eliminação dos fósseis, bem como o para acabar com o desmatamento, terão seu desenho liderado pelo Brasil ao longo de 2026. Colômbia e Países baixos anunciaram a primeira conferência internacional dedicada exclusivamente a dialogar sobre o fim dos combustíveis fósseis, marcada para abril de 2026 em Santa Marta.

Ambas iniciativas ocorrerão de forma paralela ao sistema da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) durante um ano que promete ser decisivo. Perde-se a legitimidade do consenso multilateral, ganha-se agilidade e a possibilidade de sentar à mesa tanto produtores quanto consumidores de petróleo.

A grande questão que o Mapa do Caminho terá de enfrentar é: quem abandona os fósseis em primeiro lugar e em que ordem? Na teoria, há critérios possíveis, cada um carregando filosofias distintas de justiça climática: tamanho das reservas, custo de extração, emissões associadas, dependência econômica e fiscal, nível de desenvolvimento, capacidade institucional. Juntar tudo num único indicador será tarefa hercúlea.

Outras dúvidas são igualmente desafiadoras. Carvão, petróleo e gás terão uma rota única de saída, ou caminhos apartados? Quem será mais atacada: a demanda, ou a oferta? Quem terá coragem de aplicar moratórias sobre todo projeto de exploração e produção? E quais são os outros instrumentos concretos para implementar um futuro Mapa do Caminho?

O carvão é caso à parte: consumido onde é extraído, sobretudo na Ásia. Seu fim depende menos de comércio global e mais de financiamento renovável, integração à rede e transição justa para mineiros.

O petróleo e, em menor grau, o gás viajam o mundo em navios e dutos, o que permite que produção e consumo estejam desconectados. Reduzir a demanda dos fósseis investindo em energias renováveis, biocombustíveis e eficiência energética é o que quase todo mundo faz. Inclusive o Brasil, que diz que será carbono-neutro em 2050, mas antes disso se tornará um dos cinco maiores produtores de petróleo do planeta.

Não há dúvida: substituir combustíveis fósseis por renováveis é o caminho mais eficaz para cortar emissões. Mas reduzir apenas a demanda pode não bastar. Interesses fósseis são resilientes: já financiaram décadas de negacionismo. Sem planejamento da oferta, o risco é criar ativos encalhados e crises fiscais em Estados produtores.
Preço real e controle de oferta

Há precedentes em restringir a oferta: Reino Unido, Colômbia e outros produtores menores, como Dinamarca, França e Costa Rica, decretaram fim a novas licenças. O governo trabalhista britânico manteve a decisão mesmo diante de resistências. O phase-out britânico foi precedido da taxação de lucros extraordinários das empresas petrolíferas, mas poucos dos recursos obtidos até agora foram direcionados para a criação de novos empregos para os trabalhadores da indústria, requisito para uma transição justa.

A Colômbia, de Gustavo Petro, anunciou o fim das concessões em 2023. Na falta de planejamento adequado, enquanto sua produção de gás já vinha em queda, tornou-se importadora de gás americano. Como efeito rebote, os principais candidatos às Eleições presidenciais de 2026 vem defendendo a perfuração, inclusive com técnicas ambientalmente destrutivas. A lição colombiana é clara: sem diversificação energética e econômica paralela, políticas de oferta fracassam politicamente.

Restrições financeiras seguem raras. Desde o Acordo de Paris, os maiores bancos emprestaram US$ 7,9 trilhões ao setor fóssil. A Net Zero Banking Alliance perdeu fôlego com a guerra na Ucrânia e morreu de vez com a eleição de Trump. O lucro venceu o propósito.

Exemplos mostram o tamanho do obstáculo. Prognósticos mostram que Canadá e EUA responderão por dois terços da expansão global de óleo e gás até 2035. Os países pobres se sentem injustamente cobrados a abrir mão de receitas enquanto os países ricos não o fazem.

O governo do Brasil repete: se não explorarmos a Margem Equatorial, outros tomarão nossa fatia de mercado. Na prática, os produtores de petróleo não se substituem um ao outro com essa facilidade, e uma redução na oferta pode sim ajudar a baixar a demanda. Mas é claro que os países ricos devem liderar pelo exemplo.

Num mundo em que interesses econômicos continuam a se sobrepor ao clima, o Mapa do Caminho não pode ser apenas um exercício de voluntarismo. Precisa criar incentivos reais e reconhecer a busca legítima dos países por segurança energética e autonomia em suas relações externas.

Um atalho é remover obstáculos que impedem até governos bem-intencionados de agir. Tribunais internacionais de arbitragem já condenaram Estados a indenizações de centenas de milhões de dólares por cancelar licenças fósseis, mesmo existindo formas de implementar políticas de descontinuação sem incorrer em riscos arbitrais. O regime de proteção a investimentos estrangeiros virou barreira climática e terá de sair da rota.
O Brasil na largada

Outro ponto cego são os subsídios à produção que barateiam artificialmente a extração e alimentam um rali de incentivos entre países produtores. Entre eles estão financiamentos públicos e isenções fiscais, como o Repetro, o regime aduaneiro especial para bens usados na indústria de petróleo e gás natural, que contribui com R$ 13,6 bilhões dos R$ 40,7 bilhões em subsídios concedidos no Brasil em 2024.

Globalmente, os subsídios à produção de combustíveis fósseis representam 15% do total, mas são ainda mais perversos que os subsídios ao consumo: sugam dinheiro público sem beneficiar o cidadão e acirram a competição predatória pela atração de investimentos. Reformá-los exige metodologias alinhadas internacionalmente, a criação de inventários nacionais e a troca de experiências.

Sociedade civil brasileira possui metodologias próprias de mensuração dos subsídios à produção, que podem servir de base para iniciativas governamentais. Sucesso na frente do consumo, alcançado nos últimos 3 anos, coloca o Brasil em condições de liderar a largada.

Temos vantagens raras – matriz elétrica 90% renovável, frota 85% flex, Petrobras com tecnologia de ponta, que podem ser alavancadas para exportar produtos industriais verdes, combustíveis sustentáveis e produtos da bioeconomia. Mas é preciso ir além do discurso e cortar de vez os incentivos que ainda puxam para trás.

Para países mais dependentes – sobretudo os petroestados do Oriente Médio e da África – o desafio é existencial. Programas bilaterais ou regionais que garantam acesso a mercados enquanto se reduz metano e se constrói alternativas, como o Roteiro de Parceria para o Abatimento de Metano, lançado na COP29, podem ser o embrião de uma cooperação maior: importadores e exportadores alinhando redução de demanda e de oferta. Multiplicados, esses acordos abrem caminho para propostas ambiciosas, quem sabe até um Tratado de Não Proliferação dos Combustíveis Fósseis.

Segundo a Agência Internacional de Energia, se os governos cumprirem as políticas que já anunciaram, a demanda por carvão e petróleo pode atingir seu pico ainda nesta década, enquanto o consumo global de gás pode começar a recuar em meados dos anos 2030.

Manter o pé no acelerador da meta de triplicar as matrizes renováveis e da eficiência energética prometidas em Dubai é essencial, mas insuficiente sem medidas equivalentes no lado da oferta.
Explorando os benefícios dos biocombustíveis: por que escolher biocombustíveis como alternativa aos combustíveis fósseis.

Ainda que o Mapa do Caminho seja cartografado à margem da COP, ele é ferramenta indispensável rumo ao fim da era fóssil.

Desde a Rio-92, o Brasil mostrou capacidade de liderar com soluções criativas e, 33 anos depois, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre é um caso exemplar. Agora tem chance de repetir o feito, desde que fuja do discurso fácil que joga todo o peso no consumo e incorpore, com a mesma ousadia, instrumentos de restrição da oferta. Só assim o mapa não será apenas um apoio, mas o roteiro real de um mundo pós-fóssil. (ecodebate)

Transição energética da China e a reconfiguração do comércio internacional

A integração da China na economia global é irreversível, pois está profundamente enraizada nas cadeias de suprimentos, nos fluxos de capital e nas redes de inovação.

A China está buscando vencer as guerras tarifária e climática e redefinindo sua inserção e sua contribuição na economia internacional. Com o fim do longo ciclo de produção de mercadorias baratas, da expansão da construção civil e das altas emissões de CO2, a China viu nas transições energética e tecnológica grande oportunidade de uma nova inserção global, junto à descarbonização da economia.

Enquanto o presidente Donald Trump adota políticas protecionistas e negacionistas (retirou os EUA do Acordo de Paris e apoia a ilimitada extração de petróleo – “Drill, baby, drill”), a China investe na transição energética tanto em nível doméstico como tem exportado seu modelo de transição, criando uma cadeia integrada que tem reconfigurado a dinâmica comercial e produtiva.

Nas últimas duas décadas, as políticas industriais e o dinamismo empresarial da China transformaram o país de um fabricante de baixo custo em um polo de inovação profundamente integrado às cadeias de suprimentos globais, gerando crescimento para as economias em desenvolvimento e benefícios deflacionários para as avançadas. A integração da China agora é irreversível e os países que investem em adaptação, competitividade e resiliência social podem encarar a ascensão chinesa como uma oportunidade, e não necessariamente como uma ameaça.

A transição energética deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um pilar central da economia global do século XXI. Com um valor de mercado de cerca de US$ 1,5 trilhão, atualmente, deve saltar para mais de US$ 3 trilhões até 2030 e mais de US$ 5 trilhões até 2035. Somente o mercado de energia solar deve quadruplicar em 10 anos passando de US$ 0,4 trilhão em 2024 para US$ 1,6 trilhão em 2034.

O crescimento será particularmente forte nas áreas de energias solar e eólica, baterias, hidrogênio verde, robôs, drones, veículos elétricos e Inteligência Artificial. Estes setores são cruciais para combater as alterações climáticas, mas também representam uma das maiores oportunidades de investimento e crescimento industrial das próximas décadas.

A ascensão econômica da China na última década (desde o plano Made in China 2025) tem sido tanto um motor de prosperidade global quanto uma fonte de disrupção. Outrora a “fábrica do mundo” de bens de consumo baratos, a China se transformou em um polo de inovação, impulsionando o crescimento das commodities na América Latina e na África e ancorando a estabilidade de preços nas economias avançadas.

Turbinas eólicas e painéis solares simbolizam a transição energética da China rumo ao eletroestado, com foco em renováveis.

A transformação da China não aconteceu por acaso. Foi impulsionada por ambiciosas políticas industriais lideradas pelo Estado que investiu recursos em setores como robótica, aeroespacial, tecnologia verde e biotecnologia. Aquisições estratégicas no exterior e transferências de tecnologia ajudaram a construir uma estrutura de produção de espectro completo, conferindo à China uma vantagem comparativa em indústrias intensivas em mão de obra, capital e conhecimento. Em grande parte, isto reflete o espírito milenar e empreendedor povo chinês.

No entanto, as percepções sobre a ascensão da China foram moldadas não apenas pela economia, mas também pela geopolítica. A crescente sensação de ameaça no Ocidente reflete tanto pressões competitivas quanto tensões ideológicas e estratégicas mais profundas. Entre as críticas mais contundentes à ascensão da China está o chamado “choque chinês” — a onda de concorrência das importações que dizimou muitas indústrias manufatureiras e devastou comunidades industriais nos Estados Unidos. No início dos anos 2000, as regiões mais expostas às importações chinesas

A integração da China na economia global é irreversível, pois está profundamente enraizada nas cadeias de suprimentos, nos fluxos de capital e nas redes de inovação, sendo quase impossível contê-la. A verdadeira questão para os formuladores de políticas não é se devem se engajar com a China, mas como se adaptar ao seu impacto econômico.

A China continuará sendo uma força central na definição da prosperidade do século XXI. O desafio para o resto do mundo é lidar com os desafios e as oportunidades da integração e adaptação e não simplesmente como um choque a ser temido e combatido. Um ponto de atrito que tem gerado muito receio no resto do mundo, são os crescentes superávits comerciais da China.

Como mostrei no artigo “Saldo comercial da China ultrapassa US$ 1 trilhão em 2025”, publicado aqui no Portal Ecodebate (Alves, 10/11/2025) a China tinha déficit comercial com o resto do mundo na segunda metade da década de 1980. Na virada do milênio o superávit comercial chinês ficou em torno de US$ 20 bilhões. Com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, o superávit comercial atingiu US$ 100 bilhões em 2005, subiu para US$ 500 bilhões em 2015 e quase atingiu a cifra de US$ 1 trilhão em 2024.

O gráfico abaixo mostra o superávit comercial da China nos primeiros 11 meses de 2024 e 2025. De janeiro a novembro/2024 o superávit comercial chinês foi de quase US$ 900 bilhões (média mensal de US$ 82 bilhões). Nos primeiros 11 meses de 2025 o superávit comercial da China foi de US$ 1,08 trilhão (média mensal de US$ 98 bilhões). Em apenas 11 meses de 2025 o superávit já é maior do que em todo 2024. Para efeito de comparação, o superávit comercial chinês é mais de 20 vezes maior do que o brasileiro.

Sem dúvida, a China investiu na produtividade interna, na competitividade internacional e nos crescentes superávits comerciais, que não possuem limitações no horizonte. Como mostrou Jeffrey Wu, a exportação mais importante da China hoje não é apenas um produto, mas um processo. E isto redefinirá a natureza da competição global e a geopolítica internacional.

Como mostrei no artigo “A China continua imbatível nas exportações” (Alves, 23/07/2025), o gigante asiático não está apenas movimentando mais mercadorias, está exportando um novo modelo de produção impulsionado pela automação, IA, 6G, transição energética e otimização industrial orientada pelo Estado. A China também investe em carros autônomos, robôs humanoides e novos medicamentos. Toda essa mudança é disruptiva, deflacionária e ainda amplamente mal compreendida. O projeto da China é ambicioso: avançar na criação de uma cadeia produtiva global, reconstruir o sistema energético global e se tornar o primeiro “eletroestado” do mundo, deixando para trás os fósseis petroestados.

Como a China tem altas taxas de poupança e investimento, ela recicla os grandes superávits comerciais financiando os déficits em transações correntes do Ocidente e dos países em desenvolvimento. Empresas estatais chinesas forneceram US$ 2,2 trilhões em empréstimos e doações ao redor do mundo desde 2000. Como os mais prolíficos credores do mundo, a China já desembolsou mais de US$ 1 trilhão em empréstimos para países em desenvolvimento, financiando estradas, portos, ferrovias e infraestrutura energética na Ásia Central, na África e na América Latina. Nos EUA, além da compra de títulos americanos, houve investimentos na Tesla, Amazon, Disney, Boeing, etc.

China se torna o primeiro eletroestado, liderando em renováveis e eletrificação, enquanto pressiona petroestados e redefine a geopolítica global.

Sem dúvida, a transição energética e tecnológica da China abre uma janela de oportunidade para o Sul Global, ao garantir o fornecimento de equipamentos com baixos custos, possibilitando enfrentar a “pobreza energética”. Para tanto, cabe aos países em desenvolvimento definir uma visão industrial e de energia de longo prazo que combine metas de eletrificação renovável, hidrogênio verde e veículos elétricos com metas de conteúdo local (percentual de componentes produzidos localmente). Fazer acordos de co-investimento com fornecedores chineses, condicionados à transferência tecnológica, centros de treinamento e joint ventures locais.

Evidentemente, existem riscos. Cabe evitar a dependência tecnológica e mercantil ao comprar tudo pronto sem desenvolver indústria local pode prender um país a importações e vulnerabilidade a choques de preços. Dívida e contratos pouco favoráveis podem criar encargos fiscais impagáveis, assim como déficits excessivos em transações correntes. Projetos mal integrados (sem planejamento de rede) podem gerar subutilização e problemas de qualidade.

Sem dúvida, a transição energética e tecnológica traz benefícios sociais e ambientais, mas a sua difusão e implementação no Sul Global precisa ser bem administrada. Assim, os enormes superávits comerciais da China são um ponto de atrito com os demais países. Se as nações em desenvolvimento mantiverem déficits comerciais e forem apenas receptores passivos dos investimentos chineses podem aprofundar a dependência econômica e política da China. Um mundo mais fraturado trará mais prejuízos do que ganhos.

Enquanto a China avança nas transições demográfica, energética e tecnológica, cresce a preocupação com os enormes déficits comerciais. O artigo “China is making trade impossible” de Robin Harding, no jornal britânico Financial Times, em novembro de 2025, levanta a dificuldade dos países europeus em exportar para a China. De fato, um maior equilíbrio no comércio internacional é uma condição para que o mundo avance na busca de uma economia mais inclusiva e ambientalmente sustentável.
Planta solar térmica em Jiuquan destaca liderança da China em energia renovável eólica e solar no eletroestado.

O eixo escolhido foi a eletrificação em larga escala, com expansão coordenada de eólica, solar, baterias e veículos elétricos, apoiada por metas industriais e crédito público.

A prioridade foi segurança energética e tecnológica, não metas morais de carbono.

O que os dados mostram: geração limpa e emissões

Os números recentes ajudam a dimensionar a virada.

Em abril/2025, a participação combinada de eólica e solar chegou a 26% da eletricidade gerada no país, um recorde mensal. (ecodebate)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Energia solar contribui para a pauta climática além da transição energética

Como a energia solar contribui para a pauta climática além da transição energética.
Energia solar e mudanças climáticas: como essa solução pode fazer a diferença

Com o crescente alerta global sobre os efeitos das mudanças climáticas, a busca por soluções sustentáveis tornou-se mais urgente do que nunca.

A energia solar surge como uma poderosa aliada na luta pela redução dos impactos ambientais e pela construção de um futuro mais sustentável.

Uma das maiores contribuições da energia solar é a significativa redução nas emissões de gases de efeito estufa. Ao contrário das fontes de energia tradicionais, como o carvão e o petróleo, os sistemas solares não liberam dióxido de carbono ou outros poluentes durante a geração de eletricidade.

A capacidade da energia solar de se aliar a outras tecnologias, como o armazenamento, e sua versatilidade parar atender diversas demandas energéticas, a posiciona como ferramenta que contribui com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, segundo relatório da ONU lançado durante a COP30. Em entrevista à pv magazine, o chair do Global Solar Council e presidente executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia, comenta a contribuição da fonte para a pauta climática.

A Conferência do Clima da ONU em Belém confirmou e ampliou importantes metas de transição energética e de financiamento para soluções climáticas. Para além das pautas mais abrangentes, a COP30 também foi palco de marcos para o setor fotovoltaico, com o lançamento de uma campanha do Global Solar Council pela ampliação dos telhados solares no mundo, de 70 milhões atualmente, para 300 milhões até 2030. 

“Ou seja, seria quadruplicar o volume atual, um objetivo mais ambicioso do que a meta de triplicar as renováveis até 2030”, disse à pv magazine o chair do GSC e presidente executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia. “A campanha busca aproximar a tecnologia da sociedade: pessoas, pequenos negócios, produtores rurais e prédios públicos. Claro, sem abrir mão das grandes usinas, que continuarão sendo necessárias para atender novos usos industriais”.

A versatilidade da fonte fotovoltaica para atender diversos perfis de demanda mencionada por Sauaia foi destacada no relatório “PV+ and Opportunities for South-South Cooperation: Solar Energy Use for Sustainable Development”, também lançado durante a COP30 pelo Departamento das Nações Unidas para Assuntos Econômicos e Sociais, em parceria com a Associação Chinesa de Indústrias Renováveis e o GSC.

O relatório caracteriza sistemas “PV Plus” pela implantação descentralizada e consumo localizado, similar aos sistemas fotovoltaicos distribuídos convencionais, mas priorizando a integração da geração de energia FV estreitamente com os perfis de carga específicos do usuário. Por meio da adaptação tecnológica e aplicações personalizadas, os sistemas PV Plus facilitam sinergias em todo o setor energético e em domínios intersetoriais, como agricultura, aquicultura, manufatura, construção civil, transporte e comunidades. “Esta abordagem permite a otimização dos benefícios econômicos, ambientais e sociais, ao mesmo tempo que promove transições energéticas inclusivas”, diz o relatório, que também destaca a oportunidade aberta pela queda de custos da tecnologia de armazenamento.

Mitigação de impactos ambientais

A transição para a energia solar também ajuda a mitigar outros impactos ambientais adversos. A mineração e o transporte de combustíveis fósseis provocam desmatamento, contaminação do solo e da água, além de ameaçar a biodiversidade em regiões sensíveis.

Sistemas de energia solar, por serem modulares e escaláveis, têm um menor impacto nas áreas onde são instalados e geralmente requerem pouca preparação de terreno.

O documento avalia que a fonte solar pode contribuir para diversos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável — especialmente o ODS 7 “Energia Acessível e Limpa” e do ODS 13 “Ação Climática”, mas também:

- Cria oportunidades de emprego distribuídas, com 7 milhões de pessoas já empregadas em todo o mundo (quase todas na instalação; muito poucas na fabricação) e ajuda a impulsionar os setores industrial e agrícola (ODS 8 “Trabalho decente e crescimento econômico” e ODS 9 “Indústria, Inovação e Infraestrutura”);

- Possibilita atividades geradoras de renda por meio do acesso descentralizado à energia (ODS 1 “Redução da pobreza”);

- Empodera mulheres com empregos locais em energia limpa e elimina a necessidade de coleta de lenha ou o uso de fogões poluentes, atividades geralmente realizadas por mulheres (ODS 5 “Empoderamento feminino”);

- Aprimora a equidade energética por meio do fornecimento de eletricidade para populações carentes através de sistemas fora da rede, impulsionando transições energéticas justas (ODS 10 “Redução da desigualdade”);

- E fornece energia para escolas, clínicas e sistemas de purificação de água, melhorando assim o saneamento e a iluminação, e aumentando o número de horas em que a tecnologia está disponível para o aprendizado (ODS 6 “Agua potável” e ODS 4 “Educação”).

- Em aplicações como agrovoltaica e solar flutuante, a energia solar também contribui para reduzir a necessidade de irrigação e aumentar a produção agrícola, além de reduzir a vaporização da água em reservatórios e indiretamente contribuir para melhorar a qualidade do abastecimento (ODS 2 “Fome Zero” e ODS 6 “Água limpa e Saneamento”);

- Quando usada para substituir geradores a diesel, a fonte contribui para a melhora da qualidade do ar de populações locais (ODS 3 “Saúde e Bem-Estar”).
Confirmação e ampliação de ambições

Presente em diversas discussões durante a COP30, tanto representando o Global Solar Council quanto apresentando o caso de sucesso da expansão fotovoltaica no Brasil na última década pela Absolar, Sauaia fez um balanço positivo do evento. 

Ele destacou a reafirmação da meta de triplicar as renováveis e duplicar a eficiência energética até 2030, o reforço do pledge de redes e armazenamento para a construção ou reforma de 25 mil km de linhas de transmissão e a adição de 1.500 GW de capacidade de armazenamento até 2030. O Brasil é signatário de ambos os pledges.

“Os dois pledges precisam caminhar juntos. O crescimento das renováveis está gerando novos desafios — como a saturação de redes em vários países e cortes de geração, não apenas no Brasil. Para expandir renováveis, é essencial fortalecer redes e ampliar o armazenamento. A necessidade exata varia país a país, de acordo com a matriz e as características locais. Este ano, na COP 30, tivemos mais adesões de países e uma renovação desse compromisso”.

Outro ponto importante foi o aumento do compromisso de financiamento climático de US$ 300 bilhões por ano até 2030 para US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

“Na COP 30, graças a um esforço grande do governo brasileiro, conseguimos triplicar esse valor. É um avanço, mas ainda insuficiente. Para chegar lá [objetivo de limitar o aquecimento global do Acordo de Paris] seria necessário multiplicar por 4,65, não apenas por 3”, disse Sauaia. 

O executivo alerta sobre a importância da implementação das metas. “De nada adianta ter um compromisso bonito no papel se isso não virar ação concreta — políticas públicas, medidas governamentais, atuação de financiadores multilaterais, bancos de desenvolvimento e instituições privadas. Agora é criar e aprimorar os mecanismos, fundos e caminhos do dinheiro”.
ANEEL aponta que a energia solar foi responsável pela expansão da matriz elétrica brasileira em novembro/25, reforçando o aumento da capacidade renovável e o avanço contínuo da transição energética nacional.

O “elefante preto na sala”

Apesar de reconhecer os avanços, Sauaia destacou como ponto negativo falta de uma menção nos acordos finais da COP30 de uma rota para que o mundo deixe de ser dependente de combustíveis fósseis. 

“Precisamos falar sobre o ‘elefante preto na sala’: óleo, gás e carvão. Segundo o IPCC, cerca de 70% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis. Não dá para evitar os piores impactos do aquecimento global sem enfrentar essa questão. Temos um orçamento de carbono limitado, em gigatoneladas de CO2 equivalente, e estamos emitindo muito mais do que a atmosfera consegue absorver”.

Para não ultrapassar esse orçamento, avalia, só há duas opções: parar de emitir — como quem para de sacar dinheiro da conta — ou capturar carbono, como quem faz novos depósitos, por meio de reflorestamento e outras medidas.

“Se não reduzirmos a queima de fósseis, todas as outras ações serão em vão. Mesmo com mais renováveis, ultrapassaremos o orçamento climático e a temperatura subirá 1,5°C, 2°C, 2,5°C, trazendo impactos graves para vidas, economias e sociedades”. 

Sauaia avalia que o Brasil fez bem em trazer o tema para a conferência de Belém, como resposta a uma expectativa popular global. “Aproximadamente 80 países aderiram à proposta brasileira de construir um roadmap — estabelecer prazos, responsabilidades e compromissos. Mas é um tema difícil, com muitos interesses econômicos e geopolíticos envolvidos. Isso gerou frustração, porque a sociedade esperava um compromisso mais concreto”.

O fato é que existem alternativas competitivas para atender a demanda que deixaria de ser atendida pela saída dos combustíveis fósseis, avalia Sauaia.

“Um compromisso de phase-out levaria à substituição dessa geração por opções não emissoras. As renováveis, especialmente a solar, estão muito bem posicionadas: são competitivas, confiáveis e locais. Elas poderiam atender grande parte dessa demanda. Outras fontes entram conforme a realidade de cada país e tipo de consumo: eletrificação, hidrogênio verde, biocombustíveis e até nuclear. E mais: muitas tecnologias já são mais competitivas do que os fósseis — como solar + bateria substituindo geradores a diesel, ou grandes usinas renováveis mais baratas do que termelétricas existentes”.
Transição energética justa e inclusão

O termo “transição energética justa” entrou de vez no vocabulário das discussões climáticas, incluindo a COP30. Entretanto, Sauaia alerta que o termo não deve servir para postergar a saída dos fósseis. Uma transição justa, para ele, implica capacitar trabalhadores e permitir que setores inteiros migrem para atividades sustentáveis. “Muitas funções são transferíveis entre diferentes segmentos da indústria energética, e o restante depende de formação técnica e atualização curricular”.

Ele destacou que energia solar também possui papel central no combate à exclusão energética. Tecnologias solares associadas a telecomunicação via satélite podem levar eletricidade e internet a regiões hoje isoladas, ampliando acesso à educação e serviços básicos. Micro e mini redes, além de sistemas que substituem geradores a diesel, que são caminhos para a descarbonização da Amazônia, cuja matriz ainda é majoritariamente fóssil.

Sobre o futuro da matriz elétrica, Sauaia lembra que a própria Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já estudou cenários de 100% renováveis até 2050. Vários países — entre eles Alemanha, Estados Unidos, Chile e Reino Unido — formalizaram metas de matrizes totalmente limpas. Embora o Brasil já tenha chegado a cerca de 92% de eletricidade renovável no ano passado, esse percentual está estagnado há mais de uma década. Para ele, metas oficiais dariam mais clareza aos investidores e ajudariam a manter a competitividade do país.

Transição energética já está em curso no Brasil e no mundo, pode impactar diretamente a vida de todos os consumidores.

A transição energética é um movimento crucial na luta contra os efeitos das mudanças climáticas e na promoção da sustentabilidade. Além de oferecer benefícios significativos ao meio ambiente, os impactos da transição energética podem ser percebidos diretamente pelos consumidores. (pv-magazine-brasil)

Primeira usina híbrida solar e eólica da Equinor no Brasil entra em operação

O complexo híbrido Serra da Babilônia Solar na Bahia combina 140 MW de energia solar com 223 MW de energia eólica, totalizando 363 MW de capacidade instalada. O projeto aproveita a complementaridade entre sol e vento, reduzindo a intermitência e aumentando a eficiência da planta.
A Equinor, por meio de sua subsidiária brasileira Rio Energy, anunciou o início da produção comercial do seu primeiro complexo híbrido de energia no Brasil — o Serra da Babilônia Solar, localizado na Bahia. O empreendimento integra geração solar e eólica, combinando 140 MW de potência solar com 223 MW já existentes de eólica — totalizando 363 MW de capacidade instalada.

De acordo com a empresa, a geração anual estimada do complexo alcançará 236 A energia será comercializada por meio da trading da própria Equinor no Brasil, a Danske Commodities.

Segundo representantes da Equinor, a combinação de fontes solar e eólica aproveita a complementaridade entre os recursos: quando não há vento, pode haver sol; quando o céu está nublado, o vento pode soprar — o que reduz a intermitência típica das renováveis e promove maior estabilidade na oferta de energia. Além disso, a infraestrutura solar usa a estrutura já existente do parque eólico, o que gera economia de escala, redução de custos de operação e manutenção e maior eficiência em comparação a projetos isolados.

Rio Energy, da Equinor, inicia operação comercial de sua 1ª usina híbrida eólica-solar no Brasil

Com o Serra da Babilônia Solar, a Equinor consolida sua transição para uma matriz energética mais diversificada no Brasil. O portfólio nacional da empresa já ultrapassa 600 MW de capacidade — somando os parques eólicos e solares operados pela Rio Energy, além de participação em outros ativos em estados como Ceará e Rio Grande do Norte. A decisão reforça a aposta da companhia no país, visto como peça-chave para seu crescimento de longo prazo no setor de energia renovável.

“Projetos híbridos que integram de forma eficiente as tecnologias solar e eólica contribuem para um fornecimento de energia estável e confiável, ao mesmo tempo em que aumentam a criação de valor, em linha com a estratégia da Equinor. Esses projetos, assim como a integração de tecnologias, serão fundamentais para o desenvolvimento de um negócio de energia competitivo”, afirmou o vice-presidente executivo da área de Power da Equinor, Helge Haugane.

Equinor e Rio Energy iniciam operação de seu primeiro complexo híbrido solar-eólico: Serra da Babilônia entrega 363 MW e reforça energia renovável no Nordeste.

A Equinor e a Rio Energy ampliam a geração de energia renovável no Nordeste com a operação do Serra da Babilônia, seu primeiro complexo híbrido solar-eólico no Brasil, que adiciona 363 MW ao sistema elétrico nacional. (pv-magazine-brasil)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Fontes renováveis representaram 50% da matriz energética brasileira em 2024

Fontes renováveis representaram 50% da matriz energética brasileira em 2024, um marco histórico alcançado pela primeira vez, de acordo com dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Ministério de Minas e Energia (MME). Esse aumento foi impulsionado pela expansão das energias eólica e solar, além do uso contínuo de biomassa, consolidando a matriz energética nacional como uma das mais renováveis do mundo.

Marco histórico: A participação de 50% de fontes renováveis na oferta interna de energia (OIE) foi alcançada em 2024, atingindo 322 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep).

Fontes de maior crescimento: A expansão da energia solar e eólica foi fundamental para este resultado.

Desempenho em relação a outros países: A participação renovável brasileira em 2024 foi quase quatro vezes maior que a média global (14,2%) e superior à média dos países da OCDE (13%).

Matriz elétrica: Para a geração de eletricidade, a participação renovável foi ainda maior, chegando a 88,2% em 2024, com destaque para a energia hidráulica (56,8%), eólica (14,1%) e solar (9,3%).

A Oferta Interna de Energia (OIE) chegou a 322 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep) em 2024, com crescimento de 2,4% em relação a 2023. O consumo de eletricidade aumentou 5,5%. A fonte solar, com crescimento mais acelerado, passou a representar 2,2% da matriz energética brasileira ao final de 2024, com 7,2 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep).
Fontes renováveis de energia, solar e eólica

As fontes renováveis atingiram 50% da matriz energética brasileira em 2024, um avanço de 0,9% em relação ao ano anterior, de acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME). A matriz energética abrange, além da geração e consumo de eletricidade, outros usos da energia em processos como a combustão em setores como indústria e transportes. Com a marca, o Brasil tem uma participação de renováveis quase 4 vezes superior à média global de 14,2% e ao verificado nos países da OCDE (13%).

Esse crescimento da participação de renováveis foi impulsionado, principalmente, pela expansão da energia solar, que registrou aumento de 33,2%, seguida pela eólica (12,4%) e pelos óleos vegetais (28,35%). Ao mesmo tempo, o consumo final de derivados de petróleo e de gás natural caiu 0,7% e 3,4%, respectivamente.

Os dados fazem parte da edição de 2025 da Resenha Energética Brasileira, publicada pelo MME em 01/12/25.

A Oferta Interna de Energia (OIE) alcançou seu maior nível histórico em 2024, chegando a 322 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep), com crescimento de 2,4% em relação a 2023. O consumo de eletricidade aumentou 5,5%, de 53 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2023 para 55,9 milhões em 2024.

A fonte solar passou a representar 2,2% da matriz energética brasileira ao final de 2024, com 7,2 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep) — na matriz elétrica, atualmente, a participação da fonte solar é de 23%, com 60 GW de 256 GW em operação no país, incluindo os micros e miniusinas de geração distribuída.

No setor de transportes, o consumo final de energia cresceu 2,7%, com destaque no uso de biocombustíveis: o etanol registrou alta de 15,6% e o biodiesel, 19,2%. Esse movimento foi reforçado pela sanção da Lei do Combustível do Futuro (14.993/24), que estabelece mandatos para biocombustíveis, biometano e diesel verde.
No campo da eficiência energética, o Brasil mostrou evolução consistente. O Índice ODEX, que mede os ganhos de eficiência do país, indica que em 2023 estávamos 11,8% mais eficientes do que em 2005. Resultado do fortalecimento de políticas e programas do governo, como o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) que, desde 1986, já economizou cerca de 263 bilhões de quilowatt-hora (kWh). (pv-magazine-brasil)