A adoção acelerada de veículos elétricos e híbridos no Brasil já
reduziu o consumo de gasolina e etanol em cerca de 700 milhões de litros, o
equivalente a 1% da demanda doméstica.
Impactos no Mercado de Combustíveis
• Redução inicial: O volume deixado de consumir representa uma
mudança estrutural no mercado de energia.
• Projeções de longo prazo: Um estudo do Bradesco BBI aponta que
os veículos eletrificados podem alcançar 31% da frota nacional em 2035,
cortando o consumo de combustíveis em cerca de 20%.
• Alternativas para o etanol: Especialistas indicam que o excesso
de etanol poderá ser redirecionado para outros mercados, como a produção de
combustível sustentável de aviação (SAF).
Panorama da Frota
• Participação nas vendas: Os eletrificados já representam uma
fatia expressiva das vendas de veículos novos no país, superando marcas
históricas em emplacamentos mensais.
A mudança é estrutural e de longo prazo, sustenta o Citi. Com base
numa projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 1,8%
para o biênio 2025-2026, o banco prevê que o consumo de combustíveis do chamado
ciclo Otto - categoria que abrange etanol e gasolina - deve aumentar a uma taxa
próxima de 120% do PIB. Já a partir de 2027, a tendência deve se inverter, com
a demanda encolhendo enquanto o PIB se expande.
Numa linha similar, cenários traçados pela organização não
governamental ICCT Brasil também apontam para uma redução gradual no consumo de
combustíveis até 2050, mesmo num contexto de eletrificação moderada da frota.
“Em todos os estudos que fizemos, a gente cai nesse lugar [de diminuição da
demanda por combustíveis]. Porque, quanto mais tiver penetração de elétrico, o
consumo vai ser reduzido”, afirma Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil.
Ainda modesta em termos agregados, essa erosão na demanda por
etanol e gasolina tende a se acelerar no Brasil, afirma o Citi. No cenário mais
provável traçado pelo banco, o volume de etanol e gasolina “deslocado” - aquele
que deixou de ser consumido em função do uso de carros elétricos e híbridos -
alcança 5 bilhões de litros em 2030, o equivalente a 8% da demanda real. Já em
2040, esse percentual sobe para 14% (9 bilhões de litros).
“Já tem um impacto no consumo de combustível vindo desses carros
eletrificados”, afirma Gabriel Barra, analista do Citi, autor do estudo em
conjunto com Pedro Gama e Pedro Ferreira de Mello. “Quando olhamos para os
cenários mais à frente, um ponto importante é a penetração hoje no Brasil: ela
é alta [em termos] de vendas de carros eletrificados”, acrescenta.
O boom de vendas tem relação direta com a queda nos preços de
automóveis elétricos no país. Se em 2012, ano de lançamento do primeiro carro
eletrificado importado no Brasil, esse tipo de veículo custava cerca de 8,5
vezes mais do que um movido a combustão, a diferença atualmente é de
aproximadamente 1,3 vez, calcula o Citi.
“Aqui [no Brasil], o que importa é preço, né? Assim, o carro da
mesma categoria, um pouquinho mais barato, vende. Então, isso é tudo que o
chinês gosta”, resume o professor e pesquisador Edmar de Almeida, do Instituto
de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Entre os 15 modelos de carros eletrificados mais vendidos em julho
no Brasil, 14 são de montadoras chinesas, conforme dados compilados pela ABVE.
Juntos, esses 14 modelos responderam por quase 62,5% das vendas dessa categoria
no período.
Apesar de a alíquota do Imposto de Importação para veículos
eletrificados montados fora do Brasil ter subido para 35% em julho, o Citi não
enxerga as tarifas como obstáculo capaz de frear significativamente a entrada
dos carros chineses no país. Isso porque foram estabelecidas cotas para
veículos desmontados e semidesmontados. E, além disso, montadoras chinesas
começam a produzir no Brasil.
Um 3º ponto levantado pelos analistas do Citi é a estagnação da
eficiência da frota a combustão. O modelo mais eficiente entre os dez mais
vendidos no país fazia cerca de 16 quilômetros por litro (km/l) por volta de
2016. Atualmente, esse indicador está em aproximadamente 15 km/l.
Levando em consideração a média ponderada dos 10 modelos líderes
de mercado, a eficiência dos carros a combustão melhorou cerca de 16% no
período de 7 anos até 2016 e aproximadamente apenas 2% nos 9 anos seguintes.
Estudo do ICCT sobre descarbonização do transporte rodoviário
projeta redução expressiva no consumo de energia - principalmente gasolina,
etanol e diesel - em cenários de eletrificação “moderada” (-14,5%) e
“ambiciosa” (- 41,5%) para o período 2025 a 2050, apesar do crescimento de 27%
da frota.
Moderada, na visão da ONG, seria uma conjuntura em que as vendas de veículos elétricos à bateria estivessem alinhadas com as de outros países da América Latina, o que reduziria os níveis de emissão de gases do efeito estufa em 28%, na comparação entre 2025 e 2050. A versão ambiciosa, por sua vez, se baseia na premissa de uma transição acelerada para veículos com zero emissões, com foco nos elétricos a bateria.
Essa transição, porém, está longe de representar um risco para a indústria de combustíveis tanto no curto como no médio prazo. “O uso de combustível, seja ele etanol, seja fóssil, ele ainda vai perdurar. Existe uma transição que não é da noite para o dia”, frisa Martin, do ICCT Brasil. Pelos cálculos do Citi, a participação dos eletrificados chegaria em 2030 a 11% da frota circulante brasileira num cenário em que estes veículos respondam por 37% das vendas.
No caso do etanol, Edmar de Almeida, da PUC-Rio, enxerga a
possibilidade de deslocamento do produto para outros mercados que não o
automotivo. “Não acredito que seja um problema a longo prazo porque o etanol
tem outros mercados, principalmente o de SAF [sigla em inglês para combustível
sustentável de aviação]”, explica o acadêmico. “Se tiver etanol sobrando, você
pode converter isso em combustível de aviação”.
Procurados para comentar os efeitos da eletrificação da frota de
veículos leves no consumo de gasolina e álcool no país, Sindicato Nacional das
Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) e a
Ipiranga preferiram não se manifestar sobre o tema.
Já a Vibra informou por e-mail que “acompanha a evolução da mobilidade no Brasil e entende que a eletrificação terá papel crescente nos próximos anos”. Mas frisou que a dinâmica brasileira é distinta da observada em outros mercados e deverá ser marcada pela convivência entre diferentes tecnologias e soluções energéticas.
“Na visão da companhia, a demanda por combustíveis líquidos continuará relevante nos próximos anos, refletindo as características da frota, da infraestrutura e da matriz energética do país”, esclareceu a distribuidora, acrescentando que investe em iniciativas ligadas à eletromobilidade, como a rede privada de eletropostos EZVolt. (biodieselbr)





















