terça-feira, 10 de março de 2026

Recarga rápida cresce 167% em 12 meses e já representa 31% dos 21.061 eletropostos no Brasil

Com 21.061 pontos públicos e semipúblicos de recarga e 411.869 veículos plug-in em circulação, o Brasil registra relação de 19,6 veículos por carregador. Em um ano, os equipamentos rápidos e ultrarrápidos (DC) saltaram de 2.430 para 6.479 unidades, enquanto a rede chegou a 1.649 municípios.
Eletroposto Carioca, na Barra da Tijuca/RJ, funciona 24 horas e conta com sete vagas para veículos elétricos e híbridos.

O Brasil alcançou 21.061 pontos públicos e semipúblicos de recarga de veículos elétricos até fevereiro, segundo levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) em parceria com a Tupi Mobilidade. O volume representa crescimento de 42% em relação a fevereiro/2025 (14.827) e de 25% frente a agosto do ano passado (16.880).

Com 411.869 veículos elétricos plug-in em circulação no período, a relação entre frota e infraestrutura chegou a 19,6 veículos por ponto de recarga — proporção considerada adequada para o estágio atual do mercado, mas ainda distante da meta ideal, que demandaria praticamente dobrar a base instalada.

Avanço da recarga rápida

O principal destaque da atualização é o avanço dos carregadores rápidos e ultrarrápidos (DC), que cresceram 167% em 12 meses. O número saltou de 2.430 unidades em fevereiro/2025 para 6.479 em fevereiro/2026. Com isso, os equipamentos DC passaram a representar 31% da rede nacional, ante 16% no mesmo período do ano anterior.

Já os carregadores lentos (AC) somaram 14.582 unidades, alta de 17,6% sobre as 12.397 registradas em fevereiro/2025. Apesar de ainda responderem por 69% da infraestrutura, o ritmo de expansão é significativamente inferior ao da recarga rápida.

Lei permitirá avanço da recarga elétrica com segurança e esclarece ainda mais sobre requisitos e competências.

Recarga pública rápida sobe 167% em um ano e atinge 31% dos 21 mil eletropostos.

A mudança no perfil da rede acompanha a demanda por maior agilidade nas recargas, impulsionada pela redução de custos dos equipamentos, avanços tecnológicos, ganho de escala dos operadores e crescimento das viagens de média e longa distância com veículos elétricos. A eletrificação de frotas corporativas e logísticas também contribui para a maior procura por estações de maior potência.

Interiorização da infraestrutura

A rede de recarga está presente em 1.649 municípios brasileiros, alta de 21% em comparação com fevereiro/2025 (1.363) e de 10% frente a agosto (1.499).

A expansão, no entanto, ocorre de forma heterogênea entre as regiões. O Norte apresentou o maior crescimento proporcional, com alta de 74,5% no número de municípios atendidos (de 47 para 82). No Nordeste, o avanço foi de 26,4% (de 326 para 412), enquanto o Centro-Oeste cresceu 25,6% (de 121 para 152).

Nas regiões com maior base instalada, o ritmo foi mais moderado. O Sul passou de 363 para 423 municípios (+16,5%) e o Sudeste, de 506 para 580 (+14,6%).

Eletroposto da Volvo com recarga rápida, no interior de São Paulo

Brasil atinge 21 mil eletropostos; carregadores rápidos crescem 166%.

O avanço da infraestrutura fora das capitais e dos grandes centros indica maior interiorização da mobilidade elétrica, com presença crescente em cidades médias, polos turísticos e corredores logísticos. A ampliação da rede contribui para reduzir a chamada “ansiedade de autonomia” e ampliar o uso prático dos veículos elétricos no país. (pv-magazine-brasil)

Estudo aponta que 96% dos donos de carros elétricos não querem voltar para a gasolina

Estudo mostra que donos de elétricos estão mais satisfeitos do que nunca e já definiram como será o seu próximo veículo na garagem.
A pesquisa ouviu 5.741 donos de EVs e híbridos plug-in nos EUA avaliando o primeiro ano de uso de EVs.

A transição para os carros elétricos parece ser um caminho sem volta para quem já deu o primeiro passo. Um novo levantamento realizado nos Estados Unidos revelou que a fidelidade aos veículos elétricos atingiu níveis recordes, contrariando o ceticismo de parte do mercado. De acordo com o estudo da consultoria J.D. Power, a quase totalidade dos atuais proprietários planeja adquirir outro modelo a bateria como seu próximo carro.

O dado mais contundente da pesquisa aponta que, mesmo entre os consumidores que se beneficiaram do antigo crédito fiscal federal de US$ 7.500 — incentivo financeiro que não está mais em vigor no país —, 96% afirmam que pretendem permanecer no segmento elétrico. Esse índice de lealdade e retenção é considerado raríssimo na indústria automotiva tradicional.

O avanço da infraestrutura e as notas de satisfação

Melhoria na rede de carregadores foi um dos principais fatores da alta satisfação

Um dos principais motores para essa alta aprovação é a melhora expressiva na infraestrutura de recarga pública, histórica vilã dos elétricos. Na métrica da J.D. Power, que avalia o cenário em uma escala de até 1.000 pontos, a percepção sobre a recarga pública saltou expressivamente: os donos de elétricos premium deram nota 652 (alta de 101 pontos em um ano), enquanto no mercado de massa o índice subiu para 511 (avanço de 115 pontos).

https://www.youtube.com/shorts/zmipeLbnmAc - O que explica o aumento na venda de carros elétricos usados?

No quesito de satisfação geral com o veículo, os elétricos abrem ampla vantagem sobre os híbridos plug-in (PHEVs), com os modelos premium 100% a bateria registrando 786 pontos.

Os queridinhos do mercado

Entre os veículos mais bem avaliados em seu primeiro ano de uso, o Tesla Model 3 lidera o ranking geral e o segmento de luxo com 804 pontos, ditando o padrão do mercado. Ele é seguido de perto pelo “irmão” Model Y (797) e pelo alemão BMW i4 (795). Já no concorrido mercado de massa, o Ford Mustang Mach-E assumiu a dianteira com 760 pontos, superando o sul-coreano Hyundai Ioniq 6 (748) e o SUV Kia EV9 (745).

Feito em parceria com a plataforma PlugShare, o levantamento ouviu 5.741 proprietários de modelos 2025 e 2026. A conclusão é clara: apesar das turbulências políticas, a experiência prática do dia a dia (que envolve menor custo de manutenção, facilidade de recarga doméstica e desempenho dinâmico) está consolidando a tecnologia de forma quase irreversível entre seus usuários. 

Bolt, Leaf e Zoe são três modelos elétricos já presentes no Brasil

Carros elétricos serão mais baratos que os movidos a gasolina até 2027

Europa verá essa mudança em 6 anos, mas no Brasil são os híbridos que estão fazendo a transição para os carros eletrificados.

Até 2027 os carros elétricos serão mais baratos quando comparados àqueles que utilizam combustíveis fósseis. Pelo menos é isso que aponta um levantamento feito pela BloombergNEF (New Energy Finance) para o Transport & Environment (T&E). (msn)

domingo, 8 de março de 2026

Eletricidade solar durante a noite

Como a energia solar funciona à noite: alternativas para garantir fornecimento contínuo

Painéis solares não geram energia à noite, pois dependem da luz solar direta. No entanto, é possível usar energia solar de noite através de sistemas on-grid (compensação de créditos na rede elétrica) ou sistemas off-grid/híbridos com baterias, armazenando o excedente gerado durante o dia para uso noturno.

Principais Formas de Usar Energia Solar à Noite:

Sistema On-Grid (Rede Elétrica): É o método mais comum no Brasil. Durante o dia, o excedente de energia gerado pelos painéis é injetado na rede da concessionária, gerando créditos. À noite, o consumidor utiliza a energia da rede, compensando com os créditos acumulados.

Sistemas com Baterias (Off-grid/Híbridos): O excesso de energia gerado durante o dia é armazenado em baterias físicas (como as de lítio-íon) para ser consumido quando o sol se põe, garantindo autonomia mesmo sem rede elétrica.

Compensação de Energia: Em muitas regiões, a energia solar de assinatura permite que a energia gerada em um local remoto seja creditada na sua conta, garantindo o uso de energia renovável a qualquer hora.

Novas Tecnologias:

Pesquisas estão em andamento para desenvolver diodos termo radiativos que convertem a radiação infravermelha (calor emitido pela Terra) em eletricidade à noite, embora a tecnologia atual produza pouquíssima energia comparada aos painéis fotovoltaicos comuns.

Resumo de funcionamento:

Dia: Produção > Consumo = Excedente enviado à rede ou bateria.

Noite: Produção = 0 = Consumo da rede ou bateria.

Embora não haja "produção" direta à noite, o uso de energia limpa é viabilizado por esses sistemas, tornando a energia solar uma solução 24 horas.

Em sistemas fotovoltaicos, o período noturno representa, em média, 16 horas por dia, o que exige armazenamento significativo ou fontes alternativas de geração para atender à demanda. A energia hidrelétrica reversível (bombeamento) e as baterias são soluções centrais, sendo o bombeamento hidrelétrico especialmente indicado para armazenamento de longa duração e baixo custo em períodos nublados ou com pouco vento. Estratégias complementares incluem a geração eólica, o deslocamento de carga e a geração despachável, enquanto altas participações de solar e eólica podem contribuir para a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.
O período noturno, do ponto de vista dos sistemas solares fotovoltaicos (PV), é efetivamente de 16 horas em média, sendo mais longo no inverno e mais curto no verão. Como podemos cobrir a demanda de eletricidade durante a noite em um sistema de energia renovável?

De longe, as tecnologias de armazenamento mais importantes são o armazenamento hidrelétrico por bombeamento e as baterias, tanto em termos de capacidade (GW) quanto de energia (GWh).

Além disso, o vento é ótimo porque muitas vezes sopra à noite. Em alguns lugares, eólica e solar são correlacionadas de forma contra-acentuada. Transferir cargas da noite para a diurna também é útil. Geração hidroelétrica, geotérmica, bioenergia e nuclear despachável ajudam, embora sejam pequenas ou inexistentes na maioria dos países.

O crescimento e ascensão das instalações solares nos telhados, fazendas solares e eólicas força grandes mudanças na operação das redes elétricas. Normalmente, a geração de carvão e gás é pressionada por preços baixos ou negativos durante o dia e aprende a operar de forma flexível. A redução do sol e do vento é frequente.

As figuras 1 e 2 mostram a geração da meia-noite à meia-noite com média de 28 dias em fevereiro (final do verão) no Mercado Nacional de Eletricidade (NEM) da Austrália e no estado da Austrália do Sul.

No NEM, a geração média de carvão variou de 16 GW durante o pico noturno até 10 GW por volta do meio-dia. A maior parte do carvão será aposentada à medida que o NEM caminha para 82% de renováveis em 2030.

Na Austrália do Sul (Figura 2), o carvão já foi aposentado. Solar e eólica estão encaminhando para atingir 100% da demanda em média em 2027. O equilíbrio é fornecido por gás, baterias, comércio de eletricidade com estados do leste e superconstrução de energia solar e eólica, juntamente com a frequente redução de energia.

Na maioria dos sistemas de eletricidade renovável, é necessária uma grande quantidade de armazenamento para rodar durante a noite, e em dias e semanas úmidos e sem vento.

As baterias estão ganhando importância rapidamente devido à implantação de muitas grandes baterias utilitárias (tipicamente de 2 a 4 horas) e a um grande programa de suporte de baterias domésticas. Bateria e capacidade energética suficientes para cobrir a maioria dos horários de pico da noite e da manhã estarão disponíveis em breve, o que moderará muito os preços. O foco no equilíbrio então muda para noites caras, e clima úmido e sem vento.

De forma geral, é necessário um armazenamento de 16 horas em média para cobrir a noite entre dois dias ensolarados. A cobertura para um dia nublado exige 40 horas de armazenamento, enquanto uma semana nublada exige 160 horas de armazenamento. O armazenamento dessa duração está muito além do alcance das baterias atuais, mas está bem dentro do alcance do armazenamento por bombeamento.

A Figura 3 mostra estimativas recentes de custo de capital feitas pela GenCost para armazenamento em função da duração.  Essas estimativas são amplamente utilizadas na Austrália. Comparando baterias utilitárias no ano de 2055 com hidrelétricas por bombeamento, o ponto de interseção tem cerca de 30 horas de duração.

No entanto, a vida útil técnica da energia hidrelétrica bombeada é de 150 anos em comparação com as baterias de 20 anos, o que desloca o ponto de cruzamento para uma duração muito menor, dependendo principalmente da taxa de desconto assumida. O armazenamento hidrelétrico por bombeamento deve permanecer altamente competitivo para armazenamento durante a noite e por mais tempo.

Também é exibida a energia hidrelétrica Snowy 2.0 bombeada, que armazena 350 GWh de energia (13 kWh por australiano) com duração de 160 horas, e será concluída em 2028 a um custo de cerca de $10 bilhões ($29/kWh). Snowy 2.0 pode gerar a 2,2 GW por 10 horas na maioria das noites e pode ser recarregado quando está ensolarado e ventando. Em um ano, isso rende 8000 GWh. Importante destacar que o Snowy 2.0 pode gerar em ritmo acelerado por 160 horas durante uma semana ocasional de chuva e sem vento de alto custo. Ao longo de seus 150 anos de existência, o custo de capital do Snowy 2.0 é inferior a um centavo por australiano por dia.

A maioria dos países e regiões possui muitos locais que igualam a qualidade do Snowy 2.0 e podem oferecer armazenamento de baixo custo e longa vida útil.
Autores: Prof. Ricardo Rüther (UFSC), Prof. Andrew Blakers /ANU

Andrew.blakers@anu.edu.au ; rruther@gmail.com

ISES, International Solar Energy Society, é uma ONG credenciada pela ONU, fundada em 1954, que trabalha em prol de um mundo com 100% de energia renovável para todos, utilizada de forma eficiente e responsável. (pv-magazine-brasil)

Edenred Mobilidade estreia solução de recarga e gestão para veículos elétricos

Empresa de serviços de gestão de frotas anunciou funcionalidade que conecta, atualmente, mais de 800 carregadores públicos e semipúblicos espalhados por todo o país. Um estudo recente da marca com 300 clientes mostrou que quatro em cada 10 já iniciaram a eletrificação de suas frotas, incentivados por metas de descarbonização e visando a redução de custos operacionais e eficiência.
A Edenred, representada no Brasil pelas marcas Ticket Log, Repom, PagBem e Taggy, lançou uma nova funcionalidade de recarga e gestão de veículos elétricos. Em fase piloto com clientes, a solução concentra em um único ambiente a localização e processo de carregamento em eletropostos públicos e semipúblicos, eliminando a necessidade de múltiplos aplicativos para as empresas que possuem frotas elétricas ou híbridas em sua operação.

A nova solução funciona a partir de uma rede interoperável que se conecta a mais de 800 carregadores públicos e semipúblicos espalhados por todo o país. Essa interoperabilidade acontece por meio da integração com o ecossistema da Voltbras, uma plataforma CPMS que gerencia diversos CPOs. Por meio dessa conexão, a Edenred acessa toda a rede desses operadores e oferece uma jornada de recarga unificada diretamente pelo seu app.

Do ponto de vista do motorista, toda a nova experiência estará concentrada no aplicativo Minha Mobilidade, que já é usado para o abastecimento. Com o app, ele pode consultar e desbloquear pontos de recarga, iniciar e finalizar sessões de carregamento, bem como acompanhar dados importantes de todo o processo de recarga.

Eletrificação e mobilidade urbana: como preparar sua empresa para o futuro das cidades

A integração entre eletrificação e mobilidade urbana visa transformar as cidades através de uma matriz energética limpa. Para as empresas, essa mudança impacta diretamente a logística, exigindo a adoção de veículos elétricos para circular em Zonas de Baixa Emissão (ZBEs), reduzir a poluição sonora em entregas noturnas e garantir uma Last Mile sustentável.

A gestão dos dados das recargas elétricas será integrada ao SouLog+, plataforma de controle do gestor de frotas que também abrange veículos convencionais. O sistema registra a energia fornecida para o veículo, o tempo de recarga e de ociosidade, custos da transação (incluindo as taxas do eletroposto), localização da recarga e custo por quilômetro rodado. A integração permite uma convergência, no mesmo ambiente, entre combustão e elétricos, mantendo transparência e as camadas de controle para os gestores.

Um estudo recente da marca com 300 clientes mostrou que quatro em cada 10 já iniciaram a eletrificação de suas frotas, incentivados por metas de descarbonização e visando a redução de custos operacionais e eficiência. O Brasil já ultrapassa a marca de 400 mil veículos eletrificados (elétricos ou híbridos plug-in) até dezembro de 2025, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

A evolução da nova funcionalidade se dará pela ampliação da rede de recarga integrada, com novos parceiros e pontos de recarga no decorrer dos próximos meses. Além disso, a jornada pós-recarga também deve ser aprofundada, com a Edenred desenvolvendo novas ferramentas que facilitarão a compreensão do consumo energético, dos melhores horários para carregamento, das possibilidades de redução de custos e da autonomia dos veículos elétricos e híbridos por parte dos gestores.

“O próximo passo será oferecer ao cliente relatórios de sustentabilidade capazes de traduzir em números todo o impacto da eletrificação na operação. Esses recursos trarão mais precisão e permitirão um uso dos elétricos baseado em dados”, diz o diretor de Estratégia e Mobilidade Elétrica da Edenred Brasil, Bruno Barbosa. (pv-magazine-brasil)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Energias renováveis são mais baratas e seguras que a nuclear

As energias renováveis, especialmente solar e eólica, são atualmente mais baratas e consideradas mais seguras que a energia nuclear, devido aos menores custos de capital, rápido avanço tecnológico, ausência de risco de desastres radioativos e eliminação de resíduos perigosos. Embora a nuclear tenha baixa emissão de carbono, projetos sofrem com altos custos, longos atrasos e riscos de acidentes, tornando as renováveis mais competitivas e sustentáveis.

Principais Comparativos (Renováveis vs. Nuclear):

Custo (Mais Baratas): A energia solar e eólica são as fontes mais econômicas do mundo, com custos em queda constante, enquanto a nuclear é cara, frequentemente acima do orçamento e com altos gastos de manutenção. Estudos indicam que a eletricidade nuclear pode ser de 4 a 6 vezes mais cara que a gerada pelo sol e ventos.

Segurança e Ambiente: Renováveis não geram resíduos radioativos de longo prazo nem riscos de desastres, como Chernobyl ou Fukushima. Além disso, a infraestrutura renovável pode ser instalada de forma descentralizada, ao contrário de grandes usinas nucleares.

Confiabilidade: Embora a nuclear forneça energia de base constante, a intermitência das renováveis é cada vez mais resolvida com tecnologias de armazenamento, tornando a energia nuclear desnecessária em muitos cenários.

No entanto, defensores da energia nuclear argumentam que ela é uma fonte limpa e segura, que produz energia sem depender das condições climáticas. Contudo, o alto custo inicial e os longos prazos de construção pesam contra sua expansão frente às renováveis.

A intermitência das fontes renováveis não justifica a energia nuclear

A intermitência de fontes renováveis pode ser resolvida com tecnologias disponíveis, tornando usinas nucleares desnecessárias para matriz elétrica brasileira

Educar é formar para a liberdade, não para a obediência - Noam Chomsky (linguista, filósofo, sociólogo, ativista político norte-americano)

Os defensores da energia nuclear para a produção de energia elétrica sempre tiveram um discurso moldado às circunstâncias, e às suas conveniências. Antes do acidente nuclear de Fukushima, em um dos países mais desenvolvidos nas ciências e tecnologia, os argumentos utilizados eram de uma soberba e arrogância sobre a infalibilidade da tecnologia nuclear. Chegavam a afirmar que era impossível ocorrer um acidente nestas usinas (risco zero!!!), tal o desenvolvimento tecnológico alcançado. Bastou o fatídico 11 de março de 2011 para desmoronar a pregação messiânica pró deus-tecnologia nuclear.

Com a crise climática e o crescimento das fontes renováveis de energia na matriz elétrica mundial, o discurso voltou-se ao alto custo da energia solar e eólica, e o papel de “salvação” do nuclear na mitigação do aquecimento global, como uma fonte de energia de baixa emissão de carbono. Afirmam descaradamente que não existe emissão de gases de efeito estufa no ciclo do combustível nuclear, portanto é uma fonte “limpa”, e assim a nucleoeletricidade seria uma componente crucial no enfrentamento das mudanças climáticas.

Nem a eletricidade nuclear é “limpa”, se caso fosse não geraria “lixo”, nem mais barata que a gerada pelo Sol e ventos, ao contrário, chegando a ser 4 a 6 vezes mais cara. Mais uma vez o poderoso lobby nuclear perdeu o discurso. Mas a insistência é permanente, pois os negócios neste setor envolvem bilhões, com cada usina de 1.000 MW, custando em torno de US$ 5 bilhões. Ao mesmo tempo é reconhecido que obras de grande complexidade como usinas nucleares, raramente respeitam cronograma e previsões orçamentárias, e que o custo final costuma ser, em média, 3 vezes maior do que previsto inicialmente.
Atualmente o discurso da hora do setor nuclear é apontar a “fragilidade” da geração de fontes renováveis (solar, eólica), pela sua irregularidade devido à ausência de Sol e ventos, o que não garantiria a estabilidade do sistema elétrico. A intermitência energética justificaria a necessidade da fonte nuclear?

Quem defende usinas nucleares afirma que o principal papel desta tecnologia é a estabilidade que aporta para o sistema elétrico, tratando de uma fonte firme, não intermitente. Pelo fato de uma usina nuclear poder operar quase o tempo todo, constituiria uma fonte de “carga de base” (baseload) necessária para a estabilidade da rede elétrica, pois complementaria a geração solar e eólica, que variam conforme as condições climáticas.

Todavia para lidar com a intermitência de fontes renováveis, várias alternativas existem sem que haja a necessidade da nucleoeletricidade que é cara, perigosa e suja. Dentre as tecnologias existentes inclui sistemas híbridos, combinando diferentes fontes e armazenamento para compensar a falta de energia, à noite ou em dias sem vento; o armazenamento do excesso de energia gerada com baterias, hidrogênio e armazenamento térmico; fontes despacháveis podendo ser ativadas sob demanda, com térmicas a biomassa, hidrelétricas; redes inteligentes no gerenciamento da oferta e demanda de energia de forma mais eficiente, melhoria na infraestrutura das redes de transmissão para que a energia gerada em um local possa ser transportada para onde é necessária, aumentando a flexibilidade do sistema; e soluções com inteligência artificial para previsão de geração e demanda, otimização do despacho de energia e gestão de mercados, garantindo um fornecimento contínuo e estável.

Do ponto de vista tecnológico não faltam alternativas para atender às características intrínsecas das fontes renováveis, como a intermitência.  O que falta são escolhas corajosas, que levem em conta a participação social e a transparência, contra as ações de lobbies poderosos que defendem interesses de grupos econômicos contrários aos da população, e que influenciam nas decisões de políticas públicas do setor energético.
O que tem favorecido o discurso da intermitência, e assim da necessidade da geração nuclear, é que mesmo tendo disponibilidade de energia, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), uma entidade privada, tem limitado, e até cortado parte da energia produzida por fontes renováveis, principalmente porque a expansão da rede de transmissão e a demanda não acompanharam o ritmo de instalação de novos parques de geração, que crescem a taxas mais aceleradas, incentivados pelo grande potencial destas fontes, do baixo custo da energia gerada, e das condições favoráveis de financiamento e benefícios fiscais. Ou seja, temos energia, mas não temos linhas de transmissão para seu aproveitamento pelo sistema elétrico nacional.

A redução ou corte intencional de energia, denominado de “curtailment” tem acontecido com frequência no Nordeste, maior produtor de energia elétrica a partir do Sol e dos ventos, por razões elétricas, como a capacidade limitada de transmissão, ou razões energéticas, com excesso de oferta em relação à demanda. Por exemplo, em junho de 2025 no Nordeste, os cortes na geração de projetos de grande porte – solar e eólico – não injetados na rede, determinados pela ONS, atingiram o valor de 27,3% do total produzido, sendo 19,6% por razões energéticas. No ano de 2025 estimativas apontam que o “curtailment” atingiu cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada no país.

Este desperdício ocorre pela falta de planejamento estratégico. É privilegiado a oferta descolada da demanda, além de atrasos na conexão de projetos à rede. A desnecessária demora em adotar o armazenamento por baterias, a integração de fato de múltiplas fontes renováveis (solar, eólica, biomassa, etc.) reduzindo a dependência de uma única fonte e aumentando a resiliência, e o uso de outras possibilidades tecnológicas, seriam as condições para evitar o desperdício. Também a definição de diretrizes claras nos marcos legais, sem a presença e interferência perniciosa dos lobbies, que ao defender interesses corporativos, acabam prejudicando interesses da população.

Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. Os exemplos da China que detém cerca de 34% da capacidade global de energia renovável, da União Europeia que atualmente produz mais eletricidade com renováveis que com outras formas de energia, e do Brasil com mais de 80% da matriz elétrica com a participação do Sol, dos ventos e da água, constituindo a espinha dorsal da matriz elétrica; mostram claramente que as fontes renováveis em um contexto de colapso ambiental, podem garantir a segurança e sustentabilidade energética, desde que a diversificação e complementaridade andem juntas.
Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças” (ecodebate)