“O Brasil tem a oportunidade de
ser um hub de produtos e serviços de baixo carbono, incluindo data centers,
além da descarbonização da indústria e do transporte”, disse a diretora da PSR,
Angela Gomes, durante o evento Agenda Setorial, realizado na quinta-feira
(20/03), no Rio de Janeiro.
Em um estudo realizado em
parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento
Sustentável, a PSR estimou que, para manter essa vantagem competitiva de uma
matriz 90% renovável até 2050, será necessário acrescentar 345 GW de nova
capacidade, com investimentos adicionais de US$ 450 bilhões.
O impacto dos subsídios e a
sobreoferta de geração renovável
Por outro lado, o impacto dos
subsídios no custo da energia é um ponto de atenção que afeta essa
competitividade, alertou a diretora da PSR. Em 2025, a Conta de Desenvolvimento
Energético chegou a R$ 58 bilhões e os custos do Proinfa e da Conta de Energia
de Reserva chegaram a R$ 70 bilhões, uma alta de 25% em comparação com 2024.
Nos últimos anos, o Brasil passou
por duas “corridas do ouro” para garantir subsídios que foram descontinuados.
Na MMGD, a corrida se deu para solicitar conexão antes de 07/01/23 e evitar o
início da cobrança pelo uso do “fio” das distribuidoras. Na geração
centralizada, ocorreu antes do fim dos descontos de 50% nas tarifas de uso dos
sistemas de distribuição e de transmissão (Tusd/Tust), válidos para projetos
com outorga de acesso até março/2022.
“Isso levou a uma sobreoferta de
projetos de geração centralizada enquanto, ao mesmo tempo, a MMGD era
incentivada e o seu crescimento reduzia ainda mais a demanda [por projetos
centralizados], agravando o problema”, observou o vice-presidente de Regulação
e Relações Institucionais do Grupo Energisa, Fernando Maia.
Com o rápido avanço da geração
renovável nos últimos anos, especialmente da energia solar distribuída, houve
um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia, principalmente durante
o dia.
“Chegamos a um ponto em que, em
determinados momentos do dia, a carga é tão baixa que não temos mais onde
reduzir a geração. Em países onde a penetração de renováveis é alta, os
operadores instalaram baterias para atuar como carga no horário de vale da
demanda”, disse o diretor de Operações do ONS, Christiano Oliveira.
“Armazenamento é fundamental e precisamos aumentar, não apenas para estabilizar
o preço, mas também a operação”.
Se o operador tivesse controle
sobre a geração distribuída, 46% dos cortes de geração em 2025 poderiam ser
aplicados à GD, disse Oliveira. Atualmente, o ONS corta toda a geração
hidrelétrica possível, com impactos no fator de ajuste da garantia física
(GSF), e em seguida corta a geração eólica e solar.
Maia, da Energisa, reforçou que
atualmente é inviável que as distribuidoras cortem a MMGD, mas que elas já
podem recusar novas solicitações de acesso de minigeração com base em um
parecer do ONS.
A diretora da PSR mencionou a
expectativa de que a autorização de cortes de geração em usinas do Tipo III
contribua para aliviar a operação do sistema, uma discussão que deve ser
continuada a partir dos resultados da consulta pública 45 da Aneel.
Mas o diretor do ONS alertou que
é necessário evitar o agravamento dessa situação. “Quando estamos no buraco, precisamos
parar de cavar o buraco. Não é só uma questão de classificação e alocação dos
custos dos cortes de geração, mas de necessidade de uma entrada coordenada de
nova geração, com sinal de preço adequado. A gente está resolvendo os cortes
relacionados a rede, mas os relacionados à demanda vão continuar”.
A frustração de receita de usinas centralizadas tem impacto no
desenvolvimento de novos projetos, destacou o presidente da Thymos, João Carlos
de Mello. As empresas “colocaram o pé no freio da expansão”. Ele também
mencionou como países com altos níveis de curtailment conseguiram reduzir os
cortes com investimentos em baterias.
Resposta da demanda limitada
Soluções pelo lado da demanda,
com incentivo tarifário para deslocar o consumo para horários com maior oferta
de energia podem não ter o efeito esperado, avaliou o diretor da Energisa, que
mencionou os resultados de um sandbox tarifário conduzido pelo grupo em suas
distribuidoras.
“Infelizmente, não podemos dizer,
baseado nos resultados desse sandbox, que a tarifa branca vai solucionar [esse
problema do descasamento entre demanda e oferta]. O consumidor de baixa tensão
não muda seu hábito de consumo, pelo que pudemos observar”. Ele disse que a
tarifa testada chegava a ser 10 vezes mais cara no horário de ponta e, ainda
assim, os consumidores participantes não alteraram significativamente seu
perfil de consumo.
Maia também mencionou a
necessidade de ampliar a participação de baterias na solução para o problema,
não só com contratação no LRCAP, mas também no nível da distribuição.
O presidente da Associação
Brasileira de Consumidores de Energia (Abrace), Paulo Pedrosa, avaliou que
grandes consumidores poderiam, com uma remuneração adequada, contribuir com o
deslocamento ou redução de consumo. “Se as indústrias pudessem participar do
leilão, ao preço que foi negociado, investiriam em soluções de redução e
eficiência”, disse.

LRCAP de térmicas contratou a
maior parte da demanda por potência
Os leilões de reserva de capacidade
que o governo programou para 2026 também são parte da solução para o
desequilíbrio entre demanda e oferta de energia e a crescente rampa de geração
necessária para atender a demanda no início da noite, quando a solar deixa de
entregar energia ao sistema.
A diretora da PSR avalia que a
maior parte da demanda por energia para cobrir a rampa de carga quando a
geração distribuída deixa de atender o consumo foi contratada no Leilão de
Reserva de Capacidade realizado em 18/03/26 que negociou 19 GW de potência de
térmicas e hidrelétricas. Os contratos custarão R$ 515 bilhões em receitas
fixas para os projetos, válidos por 10 a 15 anos.
Outro leilão aconteceu em 20/03/26,
voltado para térmicas a óleo combustível. “Não vemos ainda uma demanda
remanescente [para o período contratado no leilão] a não ser que tenhamos as
novas cargas e uma eletrificação significativa”, disse Angela, da PSR.
O presidente da Thymos, João
Mello, disse que a consultoria ainda vê 3 GW de demanda remanescente para os
leilões de reserva de capacidade, que poderia ser ainda maior para acomodar a
demanda de novos grandes consumidores. “Víamos inicialmente uma demanda de 23
GW que poderia chegar a 30 GW se entrarem as grandes cargas associadas a data
centers, hidrogênio verde e eletrificação”, disse.
Diante da grande contratação de
térmicas, o LRCAP para baterias cujas regras são aguardadas para abril, pode
ficar esvaziado. As baterias foram mencionadas diversas vezes pelos
especialistas como solução adequada para o descasamento entre oferta e demanda
de energia e ferramenta de operação para o ONS e as distribuidoras. Entretanto,
ainda não está claro se os projetos participantes no leilão poderão prestar
serviços além da disponibilidade de potência.
Outros pontos citados como fundamentais para a adaptação do sistema
elétrico à maior oferta de geração renovável variável e distribuída foram a
medição inteligente — que pode viabilizar o armazenamento distribuído de forma
mais eficiente, bem como a integração de outros recursos distribuídos, como a
injeção de energia dos veículos elétricos na rede e a própria resposta da
demanda — e o aperfeiçoamento do modelo de precificação da energia.
Perspectivas Integradas e
Desafios da Matriz Energética Brasileira no Horizonte 2026. (pv-magazine-brasil)