quarta-feira, 22 de julho de 2026

Frota elétrica da cidade de São Paulo cresce e soma 1,7 mil ônibus

A frota elétrica de São Paulo chega a 1,7 mil ônibus em operação desde 21/06/26, data em que a prefeitura recebeu mais 500 veículos eletrificados de fabricantes como Elektra e Volkswagen Caminhões e Ônibus. Com isso, a capital paulista consolida a liderança nacional em eletrificação do transporte público e coloca o Brasil atrás apenas de Chile e Colômbia no ranking latino-americano, segundo estudo do Conselho Internacional do Transporte Limpo (ICCT).

Atualmente, a meta da prefeitura é alcançar 2,2 mil ônibus eletrificados até 2028, número revisado em relação ao objetivo original de 2,6 mil veículos traçado em 2024. Até 2025, a frota circulante no país somava 1,7 mil veículos, e São Paulo respondia por mais de 80% desse total, segundo Jefferson Hishiyama da Silva, pesquisador do ICCT e autor do levantamento.

Financiamento bilionário

Para custear a renovação da frota, a prefeitura recorreu a múltiplas fontes de crédito. No ano passado, a administração municipal fechou uma linha de US$ 100 milhões com o Banco da China, além de R$ 1,4 bilhão junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e mais R$ 2,5 bilhões do BNDES. As entregas foi em 21/06/26 fazem parte justamente da linha do BNDES.

Ainda assim, segundo Silva, o avanço de São Paulo se apoia em uma combinação de financiamento garantido e incentivos fiscais, fator que distingue a capital de outras cidades brasileiras que também começam a investir em eletrificação, como Belém, Brasília e Goiânia.

Infraestrutura elétrica foi obstáculo

Por outro lado, a renovação da frota enfrentou um entrave recorrente nos primeiros anos do programa: a falta de capacidade elétrica nas garagens dos operadores. Jorge Carrer, diretor de vendas de ônibus da Volkswagen Caminhões e Ônibus, explica que as instalações não tinham infraestrutura para receber os carregadores necessários.

1ª publicação Depois de uma reformulação no programa, os concessionários do transporte público passaram a precisar comprovar tecnicamente a capacidade de operar uma frota eletrificada antes de receber novos veículos. Segundo Carrer, esse ajuste melhorou o entendimento entre prefeitura, operadores e a Enel, distribuidora responsável pela cidade.

Em nota, a Enel informou que atende toda a demanda planejada pelos operadores. Entre 2024 e maio deste ano, a distribuidora entregou 92,72 MW de energia a 35 garagens, volume suficiente para abastecer ao menos 2 mil ônibus. A companhia destacou ainda que a utilização máxima das garagens não superou 50% nos últimos 12 meses, chegando a apenas 39% em maio.

Projeção do ICCT

Conforme o estudo do ICCT, a participação de ônibus elétricos na frota brasileira pode seguir três trajetórias até 2050. No cenário conservador, a fatia parte de 5% a 10% em 2030 e se estabiliza entre 25% e 41% em 2050. Já no cenário moderado, a eletrificação atinge 21% das vendas em 2030, sobe para 62% em 2040 e chega a 92% em 2050. No cenário mais ambicioso, a adoção é imediata, com 55% das vendas elétricas já em 2030 e o teto de 92% a partir de 2040.

Enquanto a frota de ônibus avança, o segmento de caminhões segue em ritmo mais lento. Em 2025, foram vendidas 366 unidades elétricas leves e médias, equivalente a 1,7% do mercado, com Volkswagen, JAC e Foton entre os líderes. No segmento pesado, apenas 53 caminhões elétricos foram comercializados no mesmo ano, fatia de 0,06% do total, com a XCMG na liderança.

Thiago Pastorelli Rodrigues, coautor do estudo, atribui a diferença ao custo de aquisição, ainda duas vezes superior ao de um veículo a combustão, somado à falta de carregadores rápidos nas rodovias. (biodieselbr)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Infraestrutura de recarga para VEs supera 25.000 pts crescendo 21% em 3m

Infraestrutura de recarga para VEs supera 25 mil pontos e cresce 21% em três meses.
O Brasil atingiu a marca de 25.455 eletropostos públicos e semipúblicos em maio de 2026, consolidando um crescimento de 20,9% frente aos 21.060 registrados em fevereiro. A expansão nacional, divulgada pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) em parceria com a Tupi, é puxada pela infraestrutura de carga rápida e reflete a forte demanda por mobilidade elétrica.

Os detalhes estruturais desse avanço no país incluem:

• Carga Rápida (Corrente Contínua - DC): Saltou 32,8%, passando de 6.479 para 8.606 unidades. Este modelo representa agora 33,8% de toda a rede nacional.

• Carga Lenta/Semirrápida (Corrente Alternada - AC): Cresceu 15,5%, alcançando 16.836 pontos (66,2% do total).

• Cobertura: A malha de recarga já está presente em 1.788 municípios, com destaque para a região Norte, que liderou a expansão em recarga rápida (alta de 51%).

Essa expansão acompanha a marca de 505.806 veículos eletrificados plug-in em circulação no país, resultando em uma proporção média de 19,9 carros por eletroposto. O aumento da infraestrutura nacional acompanha também o avanço de regulamentações, como a recente Lei 18.403/2026 em São Paulo, que impulsionou o segmento de carregadores ao garantir novas regras para edificações.

A capilaridade da infraestrutura é uma das soluções mais críticas para mitigar a chamada "ansiedade de autonomia" dos motoristas.

Expansão foi impulsionada pelos carregadores rápidos, que avançaram 33% em três meses. Rede alcança 1.788 municípios, enquanto a região Norte lidera o crescimento da recarga rápida, com alta de 51%.

General Motors

A infraestrutura pública e semipúblicas de recarga para veículos elétricos no Brasil alcançou 25.429 pontos em maio de 2026, um crescimento de 20,7% em relação a fevereiro deste ano, quando o país registrava 21.060 eletropostos. Os dados foram divulgados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) em parceria com a plataforma de mobilidade elétrica Tupi.

O avanço da rede ocorre em paralelo à expansão da frota nacional de veículos elétricos plug-in, que já soma 505.806 unidades entre modelos totalmente elétricos (BEV) e híbridos plug-in (PHEV). A relação atual é de aproximadamente 19,9 veículos por ponto de recarga.

Do total da frota eletrificada, 266.752 veículos (52,7%) são híbridos plug-in, enquanto 239.054 unidades (47,3%) correspondem a veículos 100% elétricos, que dependem integralmente da infraestrutura de carregamento.

Carregadores rápidos ampliam participação na rede

A expansão continua sendo liderada pela recarga rápida em corrente contínua (DC). O número desses equipamentos passou de 6.479 para 8.601 unidades em apenas três meses, crescimento de 32,8%.

Com isso, os carregadores rápidos passaram a representar 33,8% da infraestrutura nacional, ante 30,8% registrados no levantamento anterior.

Já os carregadores em corrente alternada (AC), utilizados principalmente em recargas de longa permanência, também apresentaram aceleração relevante. O número de pontos aumentou de 14.582 para 16.828, avanço de 15,4% no período.

Segundo a ABVE e a Tupi, o desempenho dos equipamentos AC marca uma mudança de tendência. No levantamento anterior, esse segmento havia crescido apenas 17,6% ao longo de doze meses.

A retomada coincide com a entrada em vigor da Lei 18.403/2026, em São Paulo, que assegura o direito à instalação de carregadores em vagas privativas de condomínios, reduzindo uma das principais barreiras à recarga residencial.

Para Davi Bertoncello, diretor executivo da Tupi e diretor de Comunicação da ABVE, dois movimentos explicam os resultados do trimestre.

“Os carregadores lentos, que vinham em baixa, reagiram. A regulamentação de São Paulo garantindo o direito à instalação de carregadores em condomínios tem papel direto nesse movimento. Ao mesmo tempo, o crescimento dos carregadores rápidos começa a ser impulsionado por uma nova geração de equipamentos ultrarrápidos, com potências que chegam a 480 kW e múltiplas posições de recarga”, afirmou.

Segundo o executivo, o mercado brasileiro entrou em uma nova etapa de desenvolvimento.

“O Brasil saiu da fase de teste e entrou na fase de escala. Estamos construindo a infraestrutura energética que vai sustentar a eletrificação do país”.

Norte lidera crescimento da infraestrutura rápida

A expansão da infraestrutura ocorreu em todas as regiões brasileiras, mas com ritmos distintos.

A região Norte registrou o maior crescimento proporcional do país, com aumento de 30,7% no número total de pontos de recarga e avanço de 51% nos carregadores rápidos DC. O resultado indica uma expansão fortemente associada a corredores rodoviários e logísticos, onde a recarga de alta potência é considerada estratégica.

O Centro-Oeste apresentou crescimento de 23,7% na rede total e de 36,3% nos carregadores rápidos. Já o Sul avançou 23,4% no total de eletropostos e 35,8% em infraestrutura DC.

No Nordeste, a rede cresceu 20,5%, enquanto os carregadores rápidos aumentaram 33,7%. O Sudeste, que concentra a maior base instalada do país, registrou crescimento de 18,1% no total de pontos e de 25,7% nos equipamentos de recarga rápida.

Os dados mostram que a infraestrutura nacional está migrando gradualmente para um perfil mais voltado à recarga de alta potência, acompanhando a evolução tecnológica dos veículos e a necessidade de viagens de longa distância.

Cobertura chega a 1.788 municípios

Além da expansão em volume de carregadores, a cobertura territorial também avançou.

Em maio, 1.788 municípios brasileiros já contavam com infraestrutura pública ou semipúblicas de recarga, frente aos 1.649 registrados em fevereiro, crescimento de 8,4%.

O Nordeste liderou a expansão territorial, com aumento de 9,7% no número de cidades atendidas, seguido pelo Centro-Oeste, com alta de 9,2%.

Segundo as entidades, o avanço demonstra que a eletromobilidade está deixando de se concentrar nas capitais e nos grandes centros urbanos para alcançar cidades médias, destinos turísticos e corredores de transporte.
Infraestrutura acompanha amadurecimento do mercado

O crescimento simultâneo da frota e da infraestrutura reforça o amadurecimento do mercado brasileiro de mobilidade elétrica. Além da ampliação dos investimentos privados em redes de carregamento, a combinação entre novas tecnologias de recarga ultrarrápida e avanços regulatórios tende a acelerar a capilarização da infraestrutura nos próximos anos.

Com mais de 25 mil pontos instalados e presença em quase 1.800 municípios, o país amplia as condições para sustentar o avanço das vendas de veículos eletrificados e reduzir uma das principais barreiras à adoção da tecnologia: a disponibilidade de recarga. (pv-magazine-brasil)

sábado, 18 de julho de 2026

Axia inaugura usina heliotérmica, armazenamento e solar flutuante no Nordeste

Projetos localizados em Pernambuco e Bahia reúnem geração solar de concentração, baterias, energia híbrida e infraestrutura digital em um polo de inovação com mais de R$ 159 milhões em investimentos previstos até 2026.
Usina heliotérmica da AXIA Energia em Petrolina (PE).

AAxia Energia colocou em operação um conjunto de projetos voltados ao desenvolvimento de tecnologias para a transição energética no Nordeste brasileiro. Instalado entre os municípios de Petrolina (PE), Casa Nova e Sobradinho (BA), o polo de inovação reúne uma usina heliotérmica, sistemas de armazenamento por baterias (BESS), uma planta híbrida com geração eólica e solar e um projeto de geração solar flutuante integrado a um data center.

O principal empreendimento do complexo é a usina heliotérmica de concentração solar em torre central (HCPV), localizada no Centro de Referência de Energia Renovável de Petrolina (CRESP). A planta combina espelhos heliostatos, módulos fotovoltaicos de alta eficiência e armazenamento térmico para produzir simultaneamente eletricidade e calor a partir da radiação solar. O sistema possui capacidade de geração elétrica de 1 MW e captura adicional de 2,2 MW de energia térmica, permitindo pesquisas sobre armazenamento de longa duração e aplicações industriais.

Segundo a empresa, o projeto funcionará como uma plataforma para testar soluções que integrem geração renovável, armazenamento de energia e infraestrutura digital, incluindo aplicações voltadas à operação de data centers e sistemas de refrigeração industrial. A iniciativa recebeu mais de R$ 74 milhões em investimentos até 2026, dos quais R$ 67,9 milhões são provenientes do programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

AXIA investe mais de R$ 200 milhões em polo de inovação energética no Nordeste

Em Casa Nova, no norte da Bahia, a companhia também colocou em operação a Planta Híbrida Inteligente de Casa Nova, uma infraestrutura de pesquisa que integra geração eólica, geração solar fotovoltaica, armazenamento em baterias de lítio e um data center. O empreendimento reúne uma planta solar de 1 MW, um aerogerador de 1,5 MW, um sistema BESS de 1 MW de potência e 1,4 MWh de capacidade de armazenamento e um data center de 1 MW. O investimento previsto para o projeto é de R$ 85 milhões até 2026, também no âmbito do programa de P&D da Aneel.

De acordo com o diretor de Tecnologia e Inovação da Axia, Juliano Dantas, a unidade permitirá estudos sobre integração de fontes renováveis, armazenamento de energia, qualidade do fornecimento elétrico e novos modelos operacionais para o setor. Segundo ele, o conjunto faz da planta uma das maiores estruturas de pesquisa em energia renovável a céu aberto do mundo.

Outro projeto do polo está localizado no reservatório da hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia. A planta-piloto de geração solar flutuante possui potência instalada de 0,8 MWp e geração média estimada em 1,3 GWh por ano. O sistema incorpora sensores IoT para monitoramento contínuo do desempenho operacional e está conectado à rede de distribuição em média tensão, permitindo avaliar a integração de tecnologias emergentes em condições reais de operação.

Axia Energia testa soluções contra cortes de renováveis

Para a companhia, os empreendimentos servirão como base para o desenvolvimento e a validação de tecnologias voltadas ao aumento da flexibilidade do sistema elétrico, à ampliação do armazenamento de energia e à integração entre geração renovável e infraestrutura digital, temas considerados estratégicos para a evolução da matriz energética brasileira. (pv-magazine-brasil)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sol supera carvão como fonte de energia nos EUA

EUA consome mais energia renovável do que carvão pela primeira vez.

Fontes limpas de eletricidade bateram recorde de geração pelo quarto ano seguido. Energia eólica foi a mais consumida, ultrapassando a hidrelétrica.
Pela primeira vez na história, a energia solar superou o carvão na matriz de eletricidade dos Estados Unidos. Em maio, a fonte solar representou 12,8% de toda a eletricidade gerada no país, ultrapassando o carvão, que ficou com 12,2%.

Esse marco no setor foi impulsionado pelo rápido avanço dos investimentos em energias renováveis e pelos menores custos da tecnologia. Embora os combustíveis fósseis ainda dominem, o declínio histórico do carvão mostra uma mudança estrutural importante na economia americana.

O crescimento acelerado da demanda energética, puxado pela expansão da inteligência artificial e de data centers, tem exigido fontes de implantação rápida e menor custo, cenário em que a energia solar tem se destacado.

Apesar de Donald Trump incentivar o uso do carvão para geração de energia, no mês de maio passado, pela primeira vez, a energia solar superou a produzida a partir do carvão nos Estados Unidos: 12,8% contra 12,2%.

“Há anos a energia solar vem crescendo na matriz elétrica dos EUA”, afirmou Nicolas Fulghum, analista da Ember, uma organização com sede no Reino Unido que estuda a transição energética; no mês passado, a energia solar tornou-se a terceira maior fonte de eletricidade do país, atrás apenas do gás natural e da energia nuclear. A geração a partir do carvão atingiu seu menor nível histórico em abril e recuperou-se modestamente em maio.

Após duas décadas de consumo praticamente estável, a demanda por energia elétrica nos EUA tem crescido para alimentar a inteligência artificial, expandir a manufatura doméstica e eletrificar transporte e aquecimento.

Esses números parecem demonstrar que a energia solar “veio para ficar”, mesmo em um cenário de menor apoio do governo Trump às renováveis.

Globalmente, a geração elétrica renovável cresce rapidamente. Segundo a Agência Internacional de Energia, até 2030 as renováveis representarão quase 45% da eletricidade mundial; no Brasil esse número está ao redor de 22%, superado pela energia hidrelétrica.

Há alguns dias, Trump anunciou um plano de quase US$ 700 milhões para apoiar usinas que queimam carvão, tendo dito que “o carvão é um grande negócio. Martin Pochtaruk, CEO da fabricante canadense de painéis solares Heliene, rebateu: “Trump pode dizer que o carvão está voltando, mas investidores aplicam onde há retorno. E na geração de energia, isso significa solar, hoje o combustível que mais cresce”.
A energia solar faz história e consegue superar o carvão nos Estados Unidos.

A Casa Branca defendeu as políticas energéticas de Trump como medidas para fortalecer a segurança nacional. “O presidente reverteu políticas devastadoras da esquerda, salvou a indústria do carvão, evitou o sucateamento de estruturas de produção de mais de 17 gigawatts de energia e salvou vidas em períodos de alta demanda”, disse a porta-voz Taylor Rogers.

Espera-se que no governo americano o bom senso volte a prevalecer e a produção de energia limpa volte a ser prioritária. (ecodebate)

terça-feira, 14 de julho de 2026

“Pobreza de resfriamento” revela sobre justiça climática

O que a “pobreza de resfriamento” revela sobre justiça climática.
A pobreza de resfriamento expõe a crise climática como uma profunda crise de justiça social e racial. Ela revela que a falta de acesso a recursos básicos (como energia, água e infraestrutura adequada) condena mais de 2 bilhões de pessoas a viverem sem condições mínimas de se protegerem do calor extremo.

O debate sobre essa realidade traz à tona facetas importantes:

Desigualdade Habitacional e Térmica: As populações periféricas e moradores de favelas sofrem desproporcionalmente. Pesquisas, como a realizada em comunidades do Rio de Janeiro (Chapéu Mangueira e Babilônia), indicam que o calor interno dessas residências pode ser muito maior do que as medições oficiais da cidade. Materiais de construção precários e a falta de ventilação agravam as ondas de calor.

Impactos Desiguais: Pessoas em situação de pobreza frequentemente enfrentam múltiplos riscos ambientais simultâneos. Enquanto quem possui recursos consegue adaptar seus ambientes, quem vive em vulnerabilidade sofre diretamente com riscos à saúde, exaustão e perdas materiais.

Um Desdobramento da Justiça Ambiental: O conceito discute como as populações que historicamente menos contribuíram para a emissão de gases de efeito estufa são as que mais pagam o preço pela elevação global das temperaturas.

É possível aprofundar a discussão lendo artigos e análises detalhadas sobre o tema publicadas em plataformas como o EcoDebate ou o Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Quando o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas de desigualdade.

Mais de 2 bilhões de pessoas vivem sem condições mínimas de se proteger do calor extremo. Estudo publicado na Nature Sustainability revela que a crise climática é, antes de tudo, uma crise de justiça social e que o Brasil também está no centro dessa equação.

Hoje, quando o termômetro sobe, nossa primeira reação costuma ser ligar o ventilador ou o ar-condicionado. É quase um reflexo. Mas você já parou para pensar que, para um terço da população mundial, o resfriamento não é uma escolha, mas é um luxo inacessível?

Essa pergunta não é retórica. Ela está no centro de um estudo recente publicado na Nature Sustainability, intitulado “A multidimensional assessment of systemic cooling poverty in the global south”, que revelou uma realidade chocante, em que mais de 2 bilhões de pessoas vivem no que os pesquisadores chamam de “pobreza de resfriamento sistêmica”, uma condição que vai muito além de não ter um aparelho de ar-condicionado em casa.

Mais do que calor, é uma crise de dignidade

A primeira vez que me deparei com o termo “pobreza de resfriamento” achei que era apenas um jeito acadêmico de dizer que muita gente não tem ar-condicionado. Mas não é isso, nem de perto.

Segundo Giacomo Falchetta, principal autor do estudo, o risco do calor extremo se multiplica quando as pessoas carecem de uma combinação cruel de ausências: moradia adequada, acesso a serviços de saúde e até informação básica sobre como se proteger.

O problema, portanto, não é um aparelho. É um sistema inteiro que falhou.

É sobre viver em uma casa que vira forno. É sobre trabalhar sob o sol sem ter direito a uma pausa. É sobre não ter água potável para se hidratar quando o corpo grita por socorro. É sobre dignidade que deveria ser universal, mas que o aquecimento global está tornando cada vez mais rara para quem já tem menos.

O que é, de fato, a “pobreza de resfriamento sistêmica”

O estudo mede a pobreza de resfriamento a partir de cinco dimensões simultâneas: exposição climática, infraestrutura e ativos, desigualdades sociais e térmicas, saúde, e condições de trabalho e educação. Esse olhar multidimensional é o que o diferencia de tudo o que veio antes.

A conclusão é que quase 600 milhões de pessoas estão em risco imediato de danos relacionados ao calor e que os padrões de privação variam enormemente dentro de um mesmo país, às vezes de bairro para bairro. Mas quando se ampliam os critérios para incluir vulnerabilidades estruturais, esse número salta para mais de 2 bilhões.

Isso é mais do que a população inteira da América Latina e da África combinadas. São pessoas reais, com nomes, histórias, famílias e um calor que não para de aumentar.

Onde o termômetro vira sentença de morte

As regiões mais vulneráveis são o Sul da Ásia e a África Subsaariana. Em países como Índia, Paquistão e Bangladesh, a combinação letal de calor e umidade atinge o que os climatologistas chamam de “temperatura de bulbo úmido”, um ponto em que o corpo humano simplesmente não consegue mais se resfriar pelo suor, independentemente de qualquer esforço. Isso não é desconforto. É risco de morte.

Na Etiópia e na República Democrática do Congo, o cenário é outro, mas igualmente devastador: a ausência quase total de infraestrutura de proteção, como parques, áreas verdes, unidades de saúde preparadas para tratar doenças causadas pelo calor, transforma qualquer onda de calor em um evento catastrófico. O perigo não vem só do sol. Vem da interação cruel entre temperatura e pobreza.

A armadilha invisível da moradia precária

Imagine acordar dentro de uma casa cujo telhado é feito de zinco ou amianto. No verão, esse material não apenas não protege do calor como ele amplifica. O interior pode ser até 5 graus mais quente do que a temperatura do lado de fora. Para milhões de trabalhadores nessas regiões, isso não é uma metáfora. É a realidade diária

Essa armadilha é invisível nos debates sobre clima porque não aparece nos dados de renda nem nos índices de desenvolvimento humano convencionais. Uma família pode não ser classificada como “extremamente pobre” e ainda assim viver em uma moradia que, nos meses de calor, coloca a vida em risco todos os dias.

Porque mais ar-condicionado não resolve o problema

Aqui vem uma virada que parece contra intuitiva, mas que os especialistas são categóricos em defender: não podemos sair dessa crise simplesmente instalando mais aparelhos de ar-condicionado.

Os motivos são vários. Primeiro, o consumo de energia necessário para refrigerar bilhões de lares sobrecarregaria as redes elétricas de países que já operam no limite. Segundo e mais grave, o uso massivo de ar-condicionado alimenta um ciclo vicioso: mais refrigeração, mais emissões, mais aquecimento global, mais necessidade de refrigeração.

O relatório Global Cooling Watch 2025, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente na COP30, em Belém, estima que a demanda global por resfriamento pode triplicar até 2050 caso nenhuma mudança estrutural seja feita e que isso quase dobraria as emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao setor de refrigeração.

É uma bomba climática alimentada pela própria tentativa de sobreviver ao clima.

Soluções que custam pouco e mudam muito

A boa notícia é que as alternativas mais eficazes são, em muitos casos, surpreendentemente acessíveis. Os pesquisadores e especialistas apontam para um conjunto de políticas de baixo custo e alto impacto:

Design inteligente para moradias vulneráveis: pintar telhados com tinta branca reflexiva pode reduzir a temperatura interna em até 5 graus. É uma solução que cabe no orçamento de prefeituras e que pode ser implementada em mutirões comunitários.

Natureza como infraestrutura urbana: expandir a cobertura de árvores, criar parques e preservar corpos d’água em áreas urbanas densas cria o que os urbanistas chamam de “ilhas de frescor”. Não são soluções estéticas — são questão de saúde pública.

Direitos trabalhistas como proteção climática: estabelecer por lei pausas obrigatórias, acesso a água gratuita e áreas de sombra para trabalhadores que atuam ao ar livre é uma das medidas mais diretas para salvar vidas durante ondas de calor.

Centros de resfriamento comunitários: espaços públicos climatizados, como bibliotecas, centros culturais e postos de saúde, funcionam como âncoras de sobrevivência em bairros vulneráveis durante picos de calor extremo.

O limite do corpo humano

Chandni Singh, pesquisadora do Instituto Indiano para Assentamentos Humanos, articulou com precisão algo que os números às vezes não conseguem: existe um limite para o quanto o ser humano consegue se adaptar ao calor extremo.

Roupas mais leves, mudança de horário de trabalho, ventiladores — tudo isso tem um teto fisiológico. Quando a temperatura e a umidade combinadas ultrapassam certos limiares, não há comportamento individual que compense. A única saída é estrutural: infraestrutura, política pública, investimento coletivo.

A “pobreza de resfriamento” nos lembra, de forma irrefutável, que a luta contra as mudanças climáticas é, no fundo, uma luta por justiça social. O clima não aquece de forma igualitária. Ele aquece os que já têm menos proteção, já vivem nas margens, já carregam o peso de um sistema que historicamente ignorou suas necessidades.

O Brasil também está nessa história

Não podemos ler esses dados como se fossem uma realidade distante, confinada ao Sul da Ásia ou à África. O Brasil está profundamente inserido nessa equação.

Um levantamento recente realizado em parceria com a presidência brasileira da COP30 e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostrou que 66% das cidades brasileiras ainda não iniciaram ou estão apenas começando a elaborar planos de ação contra o calor extremo, mesmo que 93% dos gestores municipais classifiquem o tema como relevante.

Conhecer o problema e agir são coisas muito diferentes.

Com a possibilidade de formação de um Super El Niño na segunda metade de 2026, o Brasil enfrenta uma janela crítica. As previsões estimam um aumento da temperatura média de +2,8°C a +4,3°C, o que seria desastroso.

As comunidades mais vulneráveis estão na linha de frente de um calor que não discrimina, mas que mata de forma muito seletiva.

Olhar para esses números, 2 bilhões de pessoas, é entender que o resfriamento não deveria ser um privilégio de quem pode pagar a conta de luz no fim do mês. Deveria ser um direito básico de sobrevivência em um planeta que não para de esquentar.

E se essa leitura te gerou algum desconforto, ótimo. A ideia era essa. Desconforto é o começo de toda mudança.

Precisamos exigir infraestruturas mais humanas, políticas mais corajosas e um futuro onde a dignidade térmica não dependa do CEP de ninguém. (ecodebate)