Os Custos da Inação vs.
Investimentos
• Setor Agroalimentar: Os
custos sistêmicos anuais do modelo atual ficam entre US$ 410 bilhões e US$ 526
bilhões, enquanto a transformação estrutural até 2050 exigiria de US$ 268
bilhões a US$ 511 bilhões. Ou seja, pouco mais de um ano de manutenção do
modelo atual equivale a todo o investimento da transição.
• Setor Energético: Os gastos
atuais somam de US$ 300 bilhões a US$ 428 bilhões por ano, ao passo que a
transição energética demandaria entre US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões até
2050 (cerca de 1,5 a 3 anos dos custos atuais).
• Prejuízos Gerais: Projeções
de mercado indicam que o custo total da inação climática no país pode alcançar
perdas expressivas comparáveis a uma fração enorme ou à totalidade do PIB
nacional nas próximas décadas.
Oportunidade e Caminhos
• Vantagem Competitiva: O
Brasil possui uma matriz elétrica majoritariamente limpa e potencial para
liderar em energias renováveis e biocombustíveis.
Levantamento inédito do
Cebrap e do Instituto ClimaInfo estima que os custos anuais de manter o modelo
atual de energia e agropecuária no Brasil chegam a US$ 954 bilhões, valor que
supera, em poucos anos, o investimento total necessário para uma transição
ecológica justa até 2050.
Custo da inação climática
pode superar investimentos necessários para transição ecológica no Brasil,
aponta estudo
Pesquisa lançada pelo Cebrap
e pelo ClimaInfo analisa de forma integrada as transições energética e
agroalimentar e alerta para risco de país reproduzir modelo de “neoextrativismo
verde”.
O Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento (Cebrap) e o ClimaInfo lançaram o
estudo “Cenários e custos da transição ecológica no Brasil – As
interdependências entre a transição energética e a transição agroalimentar e os
riscos de um neoextrativismo verde”. A pesquisa analisa diferentes caminhos para
a transição ecológica brasileira e mostra que as transformações nos sistemas
energético e agroalimentar precisam ser pensadas de forma integrada.
O estudo parte do
entendimento de que energia, produção de alimentos, uso da terra,
biodiversidade e exploração de minerais críticos fazem parte de um mesmo
sistema. Decisões que são tomadas nessas áreas têm impactos sobre as demais e
exigem maior coordenação de políticas públicas, investimentos e planejamento
territorial.
Entre as conclusões da
pesquisa está a de que adiar uma transição ecológica implica em mais custos
ecológicos, biofísicos, econômicos, sociais e fiscais. “O levantamento mostra
que os custos da inação, isto é, de continuar fazendo as coisas como fazemos
hoje, já são muito maiores do que os custos de uma transição melhor”, destacou
Arilson Favareto, pesquisador do Cebrap e um dos autores do estudo.
“Apresentamos alguns caminhos para passar do cenário inercial que estamos
agora, para um cenário mais desejado”.
No sistema agroalimentar, os
custos sistêmicos do modelo atual são estimados entre US$ 410 bilhões e US$ 526
bilhões por ano, enquanto os investimentos acumulados necessários para sua
transição são calculados entre US$ 268 bilhões e US$ 511 bilhões até 2050. Isso
significa que entre meio ano e pouco mais de um ano dos custos associados ao
funcionamento do modelo atual equivalem, em ordem de grandeza, ao investimento
estimado para sua transformação estrutural.
No setor energético, essa
equivalência ocorre em um horizonte de aproximadamente 1,5 a 3 anos. Os custos
sistêmicos atuais são estimados entre US$ 300 bilhões e US$ 428 bilhões por
ano. Já os investimentos necessários para a transição até 2050 ficariam entre
US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões — o equivalente a aproximadamente 1,5 a 3 anos dos custos sistêmicos do modelo atual.
Os autores da pesquisa destacam que essa comparação não significa que os investimentos na transição seriam recuperados financeiramente nesse período. Ela mostra, porém, a dimensão dos custos econômicos, ambientais e sociais de manter as trajetórias atuais e reforça a viabilidade econômica de uma transformação de longo prazo.
Transição energética e agroalimentar precisam caminhar juntas
Transição ecológica custa
caro, mas falta de ação será pior para o Brasil.
Estudo defende transição
integrada, capaz de reduzir emissões sem ampliar pressões sobre biodiversidade,
recursos naturais e territórios.
No Brasil, o peso do sistema
agroalimentar e do uso da terra na agenda climática é grande. Ao mesmo tempo, a
transformação desse setor apresenta oportunidades importantes, como a
recuperação de pastagens degradadas, a intensificação sustentável da pecuária,
a restauração de ecossistemas, o avanço da bioeconomia e o uso de bioinsumos.
Na energia, a transição exige
investimentos mais intensivos em capital e infraestrutura, envolvendo expansão
de fontes solar e eólica, eletrificação dos transportes, modernização de redes
e armazenamento, eficiência energética, hidrogênio verde e combustíveis
sustentáveis.
O relatório também alerta que
ampliar a participação de fontes renováveis ou de atividades consideradas
verdes não garante, por si só, uma transição sustentável. Algumas soluções
criadas para reduzir as emissões podem aprofundar outros aspectos da crise
ambiental, como a perda de biodiversidade e a pressão sobre recursos essenciais
à produção de alimentos e à conservação dos ecossistemas.
“Os biocombustíveis, por exemplo, ajudam a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas podem ser produzidos em grandes plantações que avançam sobre áreas de floresta, intensificando a perda de biodiversidade. Assim, resolvemos uma parte do problema, mas agravamos outra”, explica Favareto.
Três cenários para o futuro
Para analisar os possíveis
caminhos do Brasil, os pesquisadores trabalham com três cenários. No cenário de
Business as Usual — de continuidade do modelo atual — as tecnologias verdes
avançam, mas sem uma transformação estrutural. As renováveis crescem, porém sem
substituição profunda dos fósseis, enquanto a economia mantém forte
especialização primária e persistem desigualdades e pressões ambientais.
O segundo cenário considera
uma transição orientada pelas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada),
com o cumprimento dos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil, redução
significativa das emissões, eliminação do desmatamento ilegal até 2030 e
expansão das energias renováveis. Ainda haveria uma coordenação incompleta
entre os diferentes setores.
Já o cenário de Transição
Justa e Sustentável prevê uma coordenação sistêmica entre políticas
energéticas, agroalimentares, industriais e ambientais. Nesse caminho, a
descarbonização é associada à regeneração dos ecossistemas, redução das
desigualdades, diversificação produtiva e recuperação de áreas degradadas,
eliminando a necessidade de expansão da fronteira agrícola.
“A transição é viável do ponto de vista econômico e também tecnológico. O que a gente precisa é ter vontade política para conseguir colocar de pé essa transição e, de fato, fazer com que ela seja justa e traga benefícios para a sociedade como um todo”, afirma Carolina Marçal, coordenadora de projetos do ClimaInfo.
Risco do neoextrativismo verde
Proposta do Brasil pode
recolocar o país à frente do combate à mudança climática
Governo brasileiro propõe a
criação de metas globais alinhadas aos limites de temperatura definidos pelo
Acordo de Paris.
Um dos principais alertas do
estudo é que a transição ecológica não será necessariamente justa e sustentável
apenas porque envolve atividades de baixo carbono.
Sem coordenação, o Brasil
corre o risco de manter uma economia concentrada na exportação de produtos
primários, agora incorporando novas atividades associadas à economia verde. O
relatório identifica a possibilidade de formação de um padrão de especialização
baseado em agro, energia e minerais, caracterizado como “neoextrativismo
verde”.
Nesse cenário, a expansão de
atividades necessárias à descarbonização pode reproduzir problemas históricos,
como pressão sobre territórios e recursos naturais, concentração dos benefícios
econômicos e baixa agregação de valor.
Por outro lado, o estudo aponta que uma transição conduzida de forma integrada pode representar uma oportunidade para o Brasil combinar descarbonização, regeneração ecológica, inclusão social e diversificação produtiva, transformando a agenda climática em uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
“Não estamos refém desse cenário do extrativismo verde. É possível pensar uma transição que não se baseie unicamente na exportação de bens primários, ainda que de menor pegada de carbono”, reforça Jordano Roma, pesquisador do Cebrap e um dos autores do estudo. (ecodebate)




















