A economia circular é o caminho essencial para garantir que a expansão das energias renováveis não gere uma nova crise de resíduos no futuro.
O Conceito de Circularidade na Energia
Diferente do modelo linear tradicional (extrair, produzir,
descartar), a economia circular busca manter produtos, componentes e materiais
em seu valor máximo pelo maior tempo possível. No setor de energias limpas,
isso significa desenhar sistemas que facilitem a reutilização, a recuperação e
a reciclagem de equipamentos como painéis solares e turbinas eólicas.
Desafios por Setor
• Energia Solar Fotovoltaica: Módulos solares possuem uma vida
útil média de 25 a 30 anos. O descarte em massa de placas antigas exige o
desenvolvimento de tecnologias eficientes para recuperar materiais nobres, como
silício, prata e cobre.
• Energia Eólica: Pás de turbinas eólicas são feitas de compósitos
complexos difíceis de reciclar. Iniciativas globais, como as diretrizes da IEC
(Comissão Eletrotécnica Internacional), buscam criar normas para prolongar a
vida útil desses ativos e certificar operações seguras além do ciclo inicial.
Vantagens e Próximos Passos
• Redução de Impacto: Diminui a extração de matérias-primas
minerais finitas.
• Logística Reversa: Empresas do setor energético investem em
cadeias reversas para reaproveitar componentes e reduzir a pegada de carbono.
• Regulamentação: O estabelecimento de marcos regulatórios e
padrões técnicos é o principal passo atual para transformar a circularidade em
uma prática padrão na indústria.
Mas há um paradoxo ambiental no cerne da nossa necessidade dessas
fontes renováveis: quando os equipamentos utilizados para gerar energia chegam
ao fim de sua vida útil, tornam-se resíduos eletrônicos (e-waste), a menos que
possam ser reutilizados de outras formas ou para outra finalidade, ou que seus
materiais sejam reciclados. Segundo a maioria dos especialistas que atuam nessa
área, as turbinas eólicas têm uma vida útil de 20 a 30 anos. Isso significa que
existe uma geração de turbinas eólicas — muitas delas instaladas no início dos
anos 2000 — prestes a chegar ao fim de sua vida útil. Como explica o
especialista em energia eólica da IEC Alistair Mackinnon em uma entrevista
anterior à e-tech: “A energia eólica se tornou uma indústria madura e
multibilionária, que precisa enfrentar novos desafios. Um deles é o ciclo de
vida das turbinas eólicas”.
Para os painéis solares, a vida útil pode ser maior e chegar a até 40 anos, segundo algumas estimativas. Mas, mesmo que durem mais, como alguns dos primeiros modelos foram fabricados antes dos anos 2000, é preciso lidar com as questões relacionadas ao fim de sua vida útil.
Os problemas da reciclagem de módulos solares
Existem muitos incentivos regulatórios — especialmente a diretiva
WEE na Europa — que buscam impedir que os países descartem resíduos eletrônicos
em aterros sanitários ou os incinerem. Apesar disso, uma empresa britânica que
administra resíduos em todo o país estima que aproximadamente 350 milhões de
toneladas de resíduos eletrônicos estejam atualmente em aterros sanitários em
todo o mundo. E parte desses resíduos eletrônicos provavelmente virá cada vez
mais, pelo menos em parte, de painéis solares triturados e pás eólicas
descartadas. Um dos principais problemas é que alguns dos materiais utilizados
nos dois tipos de sistemas de energia renovável são difíceis de reciclar.
As células dos painéis solares são geralmente fabricadas de
silício. Vidro, polímeros e metais como alumínio e cobre também fazem parte da
composição do painel e dos componentes eletrônicos utilizados para fazê-lo
funcionar. Embora o vidro seja relativamente fácil de recuperar e reciclar, o
silício é mais complexo. Além disso, como as metas de reciclagem são baseadas
em peso, é mais fácil reciclar os componentes de vidro, que são mais pesados, e
deixar de lado os materiais mais leves. Como explica Tony Sample, presidente do
Comitê Técnico da IEC responsável pela elaboração de normas para sistemas
solares fotovoltaicos, o IEC TC 82, neste artigo da e-tech: “É fácil cumprir as
metas reciclando estruturas de alumínio, cabos e vidro. A parte difícil é o
próprio módulo”.
O processo também é caro: os custos incluem o transporte para
instalações especializadas de reciclagem, que são poucas e estão espalhadas por
diferentes locais. A reciclagem mecânica é possível, por exemplo, utilizando
módulos solares desmontados e triturados em pequenos pedaços para preenchimento
de estradas. As atividades de uma empresa incluem esse tipo de recuperação.
Série de artigos encerra ciclo apontando caminhos para a
transformação do setor energético.
O desafio da reciclagem das pás dos rotores eólicos
A maioria dos problemas surge com os materiais utilizados nas pás
dos rotores das turbinas eólicas.
“As pás de turbinas eólicas são geralmente feitas de resina epóxi
e outros materiais que são difíceis de reciclar”, admite Mackinnon. A resina
epóxi é um polímero termo fixo que possui muitas propriedades importantes,
incluindo resistência mecânica, resistência química e estabilidade térmica. No
entanto, essas mesmas propriedades também fazem com que seja praticamente
impossível reciclá-la, pois ela não pode ser derretida.
Novos materiais, especialmente os compósitos termoplásticos, que
podem ser derretidos para extrair a resina reutilizável, começam agora a ser
utilizados no processo de fabricação das pás das turbinas. Algumas novas
formulações de epóxi também são desenvolvidas para serem recicláveis.
Para as pás existentes fabricadas com resina epóxi, as soluções de reciclagem mecânica incluem triturá-las em pequenos pedaços para utilização em cimento, concreto ou placas de fibra destinadas a pisos e paredes. Algumas empresas se especializaram nesse tipo de reciclagem mecânica, assim como aquelas envolvidas no reaproveitamento de módulos solares.
Produção para Melhor futuro meio Ambiente e ecologia
Reparar e usar por mais tempo: uma opção mais barata e mais
sustentável
Esperançoso circular economia e sustentabilidade conceito.
Reciclando ciclo ilustração mostra renovável energia e verde energia.
Os modelos de economia circular incentivam o reparo e o uso
prolongado de dispositivos eletrônicos, em vez de sua reciclagem, considerada
uma última alternativa. A reciclagem não é apenas cara, mas o processo emite
gases de efeito estufa, assim como o transporte até as instalações de
reciclagem. A mesma análise pode ser aplicada aos painéis solares e às turbinas
eólicas.
Uma Especificação Publicamente Disponível (PAS) da IEC, que ainda
não foi publicada, deverá facilitar o reparo e a reutilização de painéis
solares.
Kelly explica: “Nossa equipe de projeto tem analisado diferentes
cenários e as formas mais úteis de lidar com eles. Em um cenário, vale a pena
simplesmente reparar o módulo para prolongar sua vida útil, porque o reparo é
fácil de realizar e não é muito caro. Em outro cenário, o sistema pode precisar
ser substituído, mas o módulo em si está perfeitamente em condições e pode ser
utilizado em uma segunda vida em comunidades remotas e pobres que não podem
pagar pela instalação das tecnologias mais recentes. E um terceiro cenário
envolve a reciclagem dos materiais do sistema”.
O mesmo raciocínio está sendo aplicado no IEC TC 88, o comitê
técnico responsável pela elaboração de normas para sistemas de energia eólica.
Em 2025, o comitê publicou a IEC 61400-28, que estabelece os requisitos mínimos
para prolongar, de maneira segura, a vida útil dos ativos de parques eólicos.
A norma está incluída no IECRE (IEC System for Certification to
Standards Relating to Equipment for Use in Renewable Energy Applications), que
trabalha em um documento operacional sobre o prolongamento da vida útil das
turbinas eólicas. O IECRE é o mais recente dos quatro Sistemas de Avaliação da
Conformidade da IEC e concentra-se no fornecimento de serviços de certificação
e testes por terceiros para todas as usinas que produzem, armazenam ou
convertem energia a partir de fontes eólica, marítima e solar fotovoltaica.
“A ideia é garantir que os ativos de turbinas eólicas utilizados
além de seu ciclo de vida inicial continuem operando de maneira segura e
eficiente. Trabalhando em conjunto, os especialistas do TC 88 e do IECRE podem
promover a ideia de uma economia mais circular no setor eólico”, afirma o
secretário do IECRE, Wolfram Zeitz.
Ao adotar modelos de economia circular, os fabricantes de turbinas eólicas e módulos solares podem ajudar a solucionar o dilema ambiental de serem essenciais para a redução das emissões e, ao mesmo tempo, contribuírem para o aumento dos resíduos eletrônicos.
Autora: Catherine Bischofberger
A International Electrotechnical Commission (IEC) é uma
organização global, sem fins lucrativos e baseada em associação, que reúne 174
países e coordena o trabalho de 30.000 especialistas em todo o mundo. As Normas
Internacionais da IEC e a avaliação da conformidade sustentam o comércio
internacional de produtos elétricos e eletrônicos. Elas facilitam o acesso à
eletricidade e verificam a segurança, o desempenho e a interoperabilidade de
dispositivos e sistemas elétricos e eletrônicos, incluindo, por exemplo,
dispositivos de consumo, como telefones celulares e refrigeradores,
equipamentos de escritório e médicos, tecnologia da informação, geração de
eletricidade e muito mais. (pv-magazine-brasil)





























