Há uma mudança na paisagem urbana de São Paulo: ônibus elétricos
movidos a bateria são cada vez mais comuns nas avenidas da cidade. Verdes e
silenciosos, há 820 deles em circulação, 172% a mais do que no final do ano
passado.
Preferidos por motoristas e passageiros, eles reduzem a
poluição do ar e sonora e são parte de uma tendência no transporte municipal de
passageiros. Mas se em São Paulo a transformação é clara, em outras capitais a
transição está lenta: no 2º lugar do ranking figura Belém, com 42 ônibus
elétricos a bateria, seguido por Goiânia, com 17, e Aracaju, com 15.
O preço desses veículos é cerca de 3 vezes maior do que um
similar a diesel, o que à 1ª vista pode desestimular a compra, e requer a
instalação de carregadores potentes nas garagens. Por outro lado, sua operação
é mais barata: o gasto com eletricidade é cerca de 1/4 do valor do diesel usado
em um veículo a combustão, e eles têm vida útil de 15 anos, cinco a mais do que
os tradicionais.
Um levantamento da ABVE (Associação Brasileira do Veículo
Elétrico), fonte dos dados acima, indica que São Paulo tem hoje 78% dos ônibus
elétricos a bateria do país. Outras cidades importantes, como Rio de
Janeiro e Belo Horizonte, não têm nenhum em operação.
Como foi em São Paulo
A expansão dos ônibus elétricos paulistanos é baseada em uma
combinação de normas sobre redução de emissões, decisão política e apoio de
bancos de fomento, em especial do BNDES.
A 1ª norma que estabeleceu a descarbonização da frota
municipal foi a Lei de Mudanças Climáticas, aprovada em 2009, que estipulou que
até 2018, nenhum ônibus da capital paulista seria movido a combustível fóssil.
Um objetivo ambicioso, que não saiu do papel –em 2018 a lei foi atualizada e a
nova meta passou a ser 2038.
Em 2019, na gestão João Doria (PSDB), a prefeitura realizou
uma nova licitação do transporte público municipal e incluiu o requisito de
descarbonização nos contratos. E em 2022, no governo Ricardo Nunes (MDB), uma
normativa proibiu os operadores do sistema de comprarem novos ônibus a
combustão.
A questão financeira começou a ser resolvida em 2023, quando
a prefeitura lançou políticas para subsidiar a
compra de ônibus elétricos pelos operadores. Em vez de cada empresa buscar
financiamento próprio para adquirir os veículos a bateria, o próprio governo
municipal obteve recursos a juros baixos de bancos de fomento e os usou para
bancar a diferença de preço existente entre o modelo a diesel e o elétrico.
Para viabilizar isso, a prefeitura obteve R$ 6
bilhões em linhas de financiamento, oriundos de BNDES, Banco do Brasil, Caixa,
BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Banco Mundial e Banco da China.
Como, no final das contas, é a prefeitura que
banca os custos do sistema de ônibus não cobertos pela arrecadação com
passagens, o financiamento a juros mais baixos reverte em economia para o
próprio sistema no longo prazo –assim como a redução de custos com a
substituição do diesel pela eletricidade.
A capital paulista foi a 1ª cidade a receber apoio do BNDES nesse sentido, com financiamento aprovado em outubro de 2023. Em novembro de 2024, em evento no Palácio do Planalto sobre investimentos do banco federal em mobilidade em São Paulo, Nunes posou para foto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Problemas com a rede elétrica
Mas houve percalços no processo. “Foram muitas
resistências, o que é natural quando você rompe uma trajetória já em curso”,
afirma à DW Flávia Consoni, professora da Unicamp e especialista em políticas
públicas de mobilidade elétrica. Ela cita que operadores alegavam que não havia
produção nacional de ônibus elétricos suficiente, ao passo que as montadoras
respondiam que o que faltava era demanda.
Ela relata também atrasos e problemas na
instalação dos carregadores de baterias nas garagens, que dependem de conexões
de alta potência à rede elétrica, sob responsabilidade da concessionária Enel.
Como resultado, ônibus às vezes ficam parados nas garagens por falta de energia
suficiente para recarregá-los, um problema que vem sendo resolvido aos poucos.
Para ajudar a contornar isso, a prefeitura pretende instalar baterias de grande
porte nas garagens para aumentar a previsibilidade do carregamento dos
veículos.
Apesar de São Paulo ter acelerado a transição
neste ano, a gestão Nunes não cumpriu sua própria meta de adotar ônibus
elétricos em 20% da frota até o final de 2024, ou cerca de 2,4 mil veículos.
Incluindo os trólebus, alimentados por cabos elétricos aéreos, a cidade superou
a marca dos 1.000 ônibus no início de novembro. Agora, a meta é chegar a
2.200 veículos elétricos até 2028.
Cidades em processo de aprendizagem
Iêda de Oliveira, coordenadora do Grupo de
Veículos Pesados da ABVE e diretora da Eletra, uma fabricante brasileira de
ônibus elétricos, avalia que a experiência paulistana faz parte de um
“movimento de aprendizado” de gestores públicos e empresas de ônibus
municipais.
As oportunidades de financiamento estão se
expandindo. O BNDES segue lançando editais para apoiar municípios e regiões
metropolitanas, e se tornou o maior financiador de ônibus elétricos da América
Latina. Na COP30, realizada em novembro em Belém, o governo federal anunciou um
novo fundo, composto por recursos públicos e privados, para apoiar a compra de
1.700 ônibus elétricos.
Muitas cidades brasileiras têm manifestado
interesse em receber financiamento para comprar os veículos, mas Consoni, da
Unicamp, alerta que esse processo requer preparo para evitar os problemas
enfrentados no caso paulistano.
“Não é só trocar uma tecnologia por outra, tem que mobilizar uma série de serviços, qualificar a mão de obra de manutenção, conversar com o setor de energia”, diz. Entre outras iniciativas, ela cita um projeto da GIZ (Agência Alemã de Cooperação Internacional) que apoia 5 capitais e regiões metropolitanas brasileiras com consultorias para elaborar licitações e promover as adaptações necessárias para adotar os veículos elétricos.
Modelos podem variar
E não há uma receita única para todas as
cidades. Consoni cita o caso São José dos Campos, que quer substituir toda sua
frota de 400 ônibus por modelos elétricos até setembro de 2026 e recebeu os
primeiros 5 veículos em outubro, sob uma modelagem diferente: a cidade do Vale
do Paraíba optou por contratar uma empresa que alugará os ônibus, e uma outra
que fará a operação do sistema. A licitação só teve sucesso na 6ª tentativa,
por causa da falta de empresas qualificadas interessadas.
Já Porto Alegre recebeu em novembro autorização
da Câmara Municipal para receber um empréstimo de R$ 448 milhões do BNDES para
a compra de 100 ônibus elétricos e a instalação de estações de recarga, por
meio de subsídios às operadoras interessadas.
Oliveira, da ABVE, relata que até há pouco
tempo os empresários que operam ônibus municipais eram resistentes à transição,
pois desconheciam os custos e procedimentos envolvidos. Agora, em especial após
a experiência de São Paulo, ela diz que eles perceberam que os veículos
elétricos conseguem ficar mais tempo em serviço do que os a diesel e permitem
uma manutenção mais programada. “Hoje temos a comprovação na prática dos
benefícios dessa tecnologia”, afirma.
Ela vê também potencial de desenvolvimento industrial com essa transição, já que o Brasil tem uma matriz energética limpa, uma das maiores fábricas globais de motores elétrico, a WEG, tradição com os trólebus e uma das maiores frotas de ônibus municipais do mundo. “Temos condições para sermos líderes nessa transição energética”, afirma. A empresa onde ela trabalha, a Eletra, detém hoje 64% do mercado nacional de ônibus elétricos, e estima que o Brasil terá até o final de 2026 a maior frota do tipo na América Latina.
Planos de Capitais
A DW perguntou às 10 capitais mais populosas
quantos ônibus elétricos a bateria elas têm hoje em operação e quais são os
planos para os próximos anos. Além de São Paulo, 3 responderam.
Em Salvador, há 8 ônibus elétricos e a cidade
prepara uma operação de crédito junto ao Banco Mundial para comprar mais 100
veículos. O governo local espera até 2028 ter ao menos 50% da frota do BRT
Salvador com ônibus zero emissões, e até 2023 a ter 40% de sua frota movida a
veículos de baixa emissão.
No Distrito Federal, há 6 ônibus elétricos em
operação e a meta é ter 90 até o final de 2026, já comprados. Os novos veículos
estão sendo fabricados pela chinesa CRRC. O 1º ônibus desse lote deve entrar em
operação em janeiro, e os demais começam a chegar a partir de março.
No Recife, não há ônibus elétrico a bateria em
operação. O governo local afirma que iniciou estudos voltados à descarbonização
da frota, mas até o momento não há previsão de adoção de ônibus elétricos
movidos a bateria. (poder360)





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