Por que o Brasil é
protagonista?
Matriz Energética Limpa: A
matriz elétrica brasileira é uma das mais renováveis do mundo, com forte base
hidrelétrica e crescimento em eólica e solar.
Liderança em Biocombustíveis:
O país é referência mundial em etanol e tem potencial para expandir o uso de
biocombustíveis, crucial para a descarbonização do transporte.
Recursos Naturais: Abundância
de água, sol, vento e biomassa, além de vastas áreas para agricultura
sustentável, confere uma vantagem competitiva.
Políticas e Investimentos:
Lançamento de programas como o "Combustível do Futuro" e a revisão da
política energética, consolidando o compromisso com a sustentabilidade.
Potencial para o Futuro: O
país está entre os com maior capacidade para liderar a economia verde até 2050,
com foco em hidrogênio de baixo carbono e integração lavoura-pecuária-floresta
(ILPF).
Desafios e Oportunidades:
Ampliar Ambição: Há um
chamado para que o Brasil estabeleça metas mais ambiciosas, como uma matriz
100% limpa, para sinalizar ao mercado e atrair mais investimentos.
Planejamento: É crucial
planejar a expansão de forma cuidadosa para conciliar o aumento da produção de
energia limpa com a proteção ambiental e a segurança alimentar.
Infraestrutura: Investimentos
em financiamento e infraestrutura são necessários para suportar a escala da
transição.
A experiência brasileira com
o etanol evidencia a relevância dos biocombustíveis no processo de
descarbonização da economia. Durante sua participação no VEJA Fórum Agro, em 24
de novembro, Marcio Santos, presidente da alemã Bayer no Brasil, destacou que
25 países manifestaram a intenção de quadruplicar a produção de etanol nos
próximos anos — reflexo das discussões feitas na COP30, a Conferência das
Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, em Belém do Pará. O painel contou
também com a presença de Luciane Bachion, sócia e pesquisadora sênior da
consultoria Agroicone.
Expansão com responsabilidade
Para aproveitar ao máximo
este momento, porém, será preciso planejamento cuidadoso. O relatório
“Biocombustíveis no Brasil”, produzido pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente
(Iema) em parceria com o Observatório do Clima, mostra que a expansão da
produção pode ocorrer sem necessidade de desmatamento de novas áreas,
contribuindo ao mesmo tempo para os compromissos de descarbonização assumidos
no Acordo de Paris, em 2015. Para atender à demanda energética nacional até
2050, a oferta de biocombustíveis precisará dobrar — o que exigirá planejamento
e políticas públicas adequadas.
Como a produção de
biocombustíveis depende do uso intensivo da terra, é legítima a preocupação com
seus impactos sobre florestas e ecossistemas naturais. “A quantidade de terra
necessária não é desprezível”, alerta Felipe Barcellos e Silva, pesquisador do
Iema e principal autor do relatório sobre o tema. Para ele, a política de
incentivo à indústria de biocombustíveis deve ser acompanhada de um mapeamento
criterioso das áreas aptas ao uso, além de ações de recuperação de pastagens
degradadas e reflorestamento.
O estudo apresenta, no
entanto, uma perspectiva otimista: o Brasil dispõe de 55,8 milhões de hectares
com potencial para a expansão agrícola — incluindo produção de alimentos,
florestas plantadas e áreas de integração lavoura-pecuária-floresta. Esse
número é 40% superior aos 40 milhões de hectares de terras degradadas previstos
para restauração no Programa Caminho Verde, do governo federal. Desse total,
64% estão concentrados nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Mato
Grosso do Sul e Goiás.
Entre os maiores desafios do
setor, segundo o relatório, estão o aumento da produtividade e a diversificação
da origem da matéria-prima. Atualmente, a fabricação de biodiesel, diesel verde
e combustível sustentável de aviação (SAF) está excessivamente concentrada na
soja — um modelo que precisa ser revisto. Durante o evento da VEJA, Marcio
Santos reconheceu que a ampliação do uso de etanol — defendida pela Bayer —
ainda enfrenta resistência entre negociadores internacionais. Para ele, os
protestos contra os combustíveis fósseis registrados na COP30 representam uma
oportunidade para o setor. “Vi ali um campo fértil para o etanol”, declarou.
“Pode parecer ingenuidade, mas quem protesta contra os combustíveis fósseis, na
prática, está apoiando os renováveis”.
Potencial inexplorado
Para vencer resistências e
consolidar sua liderança, o Brasil tem uma carta na manga valiosa: a capacidade
de produzir energia limpa no campo sem comprometer a segurança alimentar. Essa
é a conclusão do estudo “Dinâmicas de demanda e oferta de energia pelo
agronegócio”, conduzido por pesquisadores da FGV Agro e da FGV Bioeconomia.
“Sempre reconhecemos o agronegócio como fornecedor de alimentos”, afirma
Luciano Rodrigues, pesquisador do Observatório de Bioeconomia da FGV. “No
Brasil — e possivelmente em outros países tropicais — ele também tem grande
potencial para fornecer energia”.
Rodrigues explica que, sem a
contribuição do agronegócio, a participação das fontes renováveis na matriz
energética nacional cairia de 49% para cerca de 20% — o que colocaria o Brasil
no mesmo patamar da média global, de 15%. Além disso, setores como alimentos e
bebidas, cerâmica, papel e celulose e metalurgia consomem mais bioenergia do
que o próprio transporte, desmistificando a ideia de que etanol e biodiesel
servem apenas como substitutos do diesel e da gasolina.
O relatório “Biodiesel no
Brasil 2025”, da Embrapa, revela que a produção brasileira desse combustível —
feito a partir de óleos vegetais e gorduras animais — foi de cerca de 9,7
milhões m3 em 2024. Isso apesar de a capacidade instalada
ultrapassar os 14,6 milhões m3 por ano. A ociosidade do setor aponta
um grande potencial de crescimento, mas também acende o alerta: sem novos
investimentos, há risco de paralisação de operações e perda de empregos.
Outro ponto crítico é a
diversificação da matriz. Segundo a Associação Brasileira do Biogás, os
resíduos gerados diariamente pelo setor sucroenergético e pela agropecuária —
como dejetos de animais e restos vegetais — poderiam gerar até 204 milhões de
metros cúbicos de biogás por dia. O potencial estimado de produção de biometano
é de 115 milhões de metros cúbicos por dia, o que representa 62% da demanda de
diesel no país.
Dados do centro de estudos
CIBiogás indicam que, até o fim de 2026, a oferta nacional de biometano poderá
triplicar, considerando os pedidos de autorização registrados na Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis até o fim de 2024. No
entanto, 60% da capacidade atual de produção de biogás provém da conversão de
resíduos sólidos urbanos e esgoto e é destinada à geração elétrica. A
agropecuária responde por apenas 19% dessa capacidade, com usinas de pequeno
porte — embora o segmento tenha crescido 70% de 2022 a 2024.
O desafio brasileiro reflete uma urgência global. A Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) alerta que, para que a capacidade mundial de energia renovável — solar, eólica, hídrica e outras — triplique até 2030, como prevê o Acordo de Paris, será necessário dobrar o fornecimento global de bioenergia. Isso exigirá adições anuais de potência de 26 gigawatts a partir de 2025, 5 vezes o que foi registrado em 2024 — e um salto no investimento anual, dos atuais US$ 19 bilhões para algo em torno de US$ 115 bilhões.
Na corrida global por energia limpa, os desafios enfrentados pelo agronegócio brasileiro são imensos — mas proporcionais às oportunidades que se abrem. (biodieselbr)





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