quarta-feira, 10 de junho de 2009

A segunda revolução do etanol

Empresas disputam uma corrida tecnológica para produzir combustível a partir de bagaço da cana, capim e até lixo.
Quem considera o etanol produzido de fontes primárias (como cana-de-açúcar e milho) uma revolução da agroenergia nem imagina o que vem pela frente. Dentro de alguns anos, os biocombustíveis também serão feitos a partir do bagaço da cana-de-açúcar, sabugo de milho, capim, casca de árvore, pneus e até lixo urbano. Para isso, os principais centros de inovação do mundo, financiados por governos e grandes empresas, como a petrolíferas BP e Shell, estão travando uma verdadeira corrida tecnológica.
Será o vencedor aquele que encontrar a rota mais viável para transformar os diferentes tipos de biomassa em etanol. Os primeiros litros do biocombustível já foram produzidos em escala experimental. Falta encontrar a fórmula perfeita para a produção em larga escala com custo competitivo aos combustíveis atuais.
No mercado, essa tecnologia tem sido chamada de segunda geração (o etanol feito de fontes primárias é de primeira geração) ou etanol de celulose. O processo consiste em usar enzimas, micro-organismos ou ácidos para separar os açúcares existentes na biomassa e a partir daí produzir o combustível. O potencial é elevado, mas ainda há dúvidas em relação ao tempo para transformar os testes em produção comercial.
Todos os avanços e desafios da nova tecnologia serão expostos a partir de amanhã na segunda edição do Etanol Summit, que contará com cerca de 130 palestrantes de várias partes do mundo, incluindo o ex-presidente americano Bill Clinton, um entusiasta dos biocombustíveis. Eles darão um panorama de quando essa tecnologia poderá sair do papel.
Nos Estados Unidos, as pesquisas do etanol de segunda geração começaram há algum tempo e foram reforçadas pela nova política energética que estabelece limite para o uso do etanol feito a partir do milho com tecnologia convencional. A produção, que hoje está em 40 bilhões de litros, poderá chegar a 57 bilhões. Para complementar a oferta, que atingiria 136 bilhões de litros em 2022, seria usado o etanol de segunda geração e outros biocombustíveis.
Embora o consumo de combustível do país tenha caído por causa da crise econômica, grandes empresas mantiveram suas pesquisas. Até porque a meta do governo americano é produzir no ano que vem cerca de 400 milhões de litros de combustíveis de segunda geração. Ásia e Europa também desenvolvem tecnologias, que estão sob segredo industrial. Além do discurso sobre o aquecimento global, o objetivo da busca por um novo biocombustível é diminuir a dependência do petróleo.
No Brasil, por causa do enorme potencial de crescimento do etanol de primeira geração, a corrida tecnológica ainda está um pouco mais lenta e com orçamentos mais modestos comparados aos do mercado externo, que tem irrigado as pesquisas científicas com bilhões de dólares. Apesar disso, alguns empreendedores acreditam que possam sair na frente para manter a liderança brasileira no mundo dos biocombustíveis.
O etanol de segunda geração, a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar, teria capacidade para dobrar o volume de etanol produzido no País com a mesma área plantada, destaca-se que este ano o setor alcançará 27 bilhões de litros. Foi de olho nesse potencial que o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) firmou uma parceria com a dinamarquesa Novozymes Latin America, especialista em enzimas industriais.
Juntos, inaugurou em janeiro uma usina piloto, com capacidade para produzir 200 litros de etanol de segunda geração. A rota tecnológica usada chama-se hidrólise enzimática, em que as moléculas de celulose são transformadas em açúcares por meio de enzimas.
Hoje o grande desafio é evitar que essas enzimas encareçam demais o produto final. A tecnologia já existe, mas, além do custo, ela exige aperfeiçoamentos e ajustes. Em meados de 2010, espera-se apresentar um modelo financeiro para vender essa tecnologia.
Um dos ajustes que ela terá de fazer até lá se refere ao tempo que a enzima leva para transformar a celulose em açúcar. O ideal seria ter um ciclo de 24 horas, como ocorre no etanol tradicional. A expectativa dele é que em três ou quatro anos a tecnologia esteja dominada, para produção em escala industrial.
O executivo acredita que, superada a fase de aperfeiçoamento tecnológico, o Brasil terá enorme competitividade no etanol de celulose, já que a matéria-prima não exige logística. Ela está ali, na própria usina. Nos Estados Unidos, a palha e o sabugo do milho ficam no campo.
Na Dedini, líder na fabricação de equipamentos para o setor sucroalcooleiro, a rota tecnológica adotada é a hidrólise ácida. Com estudos iniciados há cerca de 20 anos, a produção do etanol de celulose já passou pelos estágios de laboratório e piloto. Hoje a empresa espera firmar alguma parceria para iniciar uma fase semi-industrial. A fabricação do etanol já existe. O problema é o custo. O combustível custa, pelo menos, o dobro do etanol comum.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também entrou na corrida pela nova tecnologia do etanol de celulose e desenvolveu um tipo de enzima para o processo. Os testes já devem entrar em escala de demonstração (antes da escala industrial). Tínhamos duas alternativas: comprar a tecnologia ou entrarmos numa agenda de desenvolvimento. Ficamos com a segunda opção. A Embrapa fechou acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) para criar uma Empresa de Propósito Específico (EPE) para desenvolver negócios nessa área.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Setor vê cenário mais positivo a partir de agosto de 2009

Setor acredita que etanol terá preços melhores no segundo semestre.
O setor sucroalcooleiro já começa a vislumbrar um cenário mais positivo para o etanol no segundo semestre deste ano. Depois de sofrerem um grande baque por causa da escassez de crédito, provocada pela crise mundial, as empresas acreditam que os preços do combustível possam atingir patamares mais vantajosos a partir de agosto, o que ajudaria a recompor o caixa e melhorar a situação financeira. Uma das principais explicações para o otimismo está na produção de açúcar, cujo preço no mercado internacional está bastante atrativo por causa da quebra da safra da Índia, que passará de exportadora a importadora.
"Boa parte das empresas tem flexibilidade para produzir mais açúcar, que tem demanda e preço. Isso vai influenciar o mercado de etanol", disse ontem em São Paulo o diretor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antônio de Pádua Rodrigues, durante a segunda edição do Etanol Summit. A expectativa para este ano é que 45% da safra seja destinada à produção de açúcar e o restante para o etanol. No ano passado, a participação era de 40% e 60%, respectivamente.
Pádua explica que a produção menor de etanol, aliada ao aumento do consumo, incentivado pelo preço baixo do produto e pela expansão da frota bicombustível, vai recuperar as receitas das empresas. "O fundo do poço já passou." Ele ressaltou, entretanto, que não se espera para este ano uma retomada aos níveis pré-crise.
O volume de investimentos continuará baixo este ano. O que deverá entrar em operação refere-se a projetos já iniciados no passado. O vice-presidente de Tecnologia e Desenvolvimento da Dedini, fabricante de equipamentos para usinas, confirma a informação. "Hoje, trabalhamos com 70% da capacidade instalada ocupada. Mas o problema não é agora, pois tínhamos encomendas feitas antes da crise. Nossa preocupação é a partir do último trimestre do ano."
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que hoje há 84 projetos do setor aguardando avaliação da instituição para financiamento. Desses, 46 empreendimentos já estão em análise, afirmou o executivo. Todos eles, no entanto, são de antes da crise financeira.
Sobre a dificuldade que as empresas têm enfrentado para conseguir acessar a linha de crédito para capital de giro do banco, Coutinho afirmou que gostaria de ser informado dos problemas. "Se o sistema não está disponibilizando o dinheiro, queremos saber o porquê para encontrarmos uma alternativa."
O empresário Rubens Ometto, presidente do Grupo Cosan, maior conglomerado sucroalcooleiro do mundo, afirmou que o setor ainda se ressente da falta de crédito para capital de giro. "O setor é muito intensivo em capital e, por isso, demora mais para se recuperar. É um setor que produz em sete meses, vende em doze e você, sem sombra de dúvida, precisa de capital de giro para isso", disse Ometto.
Indagado se sua empresa enfrentava problemas na obtenção de recursos para a estocagem de álcool na safra, Ometto disse que não podia fazer uma avaliação, mas que outros representantes do setor tinham reclamado do atraso na liberação de créditos pelo BNDES, um total de R$ 2,5 bilhões.

sábado, 6 de junho de 2009

Brasil precisa provar que etanol é sustentável

Ex-presidente americano, afirma que País tem de mostrar que produção de cana não afeta o meio ambiente.
Convidado de honra do Ethanol Summit 2009, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton falou o que ninguém queria ouvir em um evento feito para promover o combustível no mercado internacional. Na avaliação dele, o Brasil ainda precisa provar para o mundo que é capaz de produzir combustível renovável de forma sustentável.
"Se o mundo resolver ajudar o Brasil e importar mais etanol para resolver seu problema, poderemos aumentar a devastação da Amazônia", disse o ex-presidente, deixando a platéia meio desconcertada. Horas antes, representantes do setor davam como superada a polêmica sobre o impacto da cana-de-açúcar na Amazônia.
A palestra de Clinton foi a mais esperada do evento, que mais cedo contou com as presenças da ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff; do governador de São Paulo, José Serra; do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab; e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, entre outros convidados.
Cerca de uma hora antes da apresentação do ex-presidente americano, os representantes do setor, que se inscreveram para participar da palestra, já faziam fila à porta do auditório. Antes que todos se acomodassem em seus assentos, no entanto, policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) vasculharam o local para assegurar tranquilidade ao palestrante.
Clinton foi recebido pelo presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, que em seu discurso falou sobre as vantagens do etanol e da necessidade de o mundo derrubar as barreiras protecionistas contra o produto. "A energia limpa deveria circular pelo mundo sem barreiras, como ocorre com o petróleo, que é finito e caro."
Além de Jank, Clinton foi recebido também por crianças atendidas pelo projeto de Educação para a Paz, da cidade de Frutal, que lhe entregaram alguns presentes típicos do setor sucroalcooleiro. Em seguida, ele iniciou seu discurso e evitou falar muito sobre as tarifas que seu país impõe sobre o etanol brasileiro. Por outro lado, bateu bastante na tecla de que o Brasil precisa diminuir o desmatamento da Amazônia.
Segundo Clinton, o País tem de demonstrar que é possível reduzir as emissões de gás carbônico do mundo sem provocar danos à sua própria natureza. "O Brasil terá de resolver esse problema interno, local, para depois tentar resolver o problema global", disse o ex-presidente.
Ele destacou que 75% da emissão de gases poluentes causadores do efeito estufa no Brasil decorre da agricultura e do desmatamento - número que coloca o País em oitavo lugar no ranking de emissões, ao lado de China e Índia. "Se a importação de etanol aumentar, o País terá de elevar o plantio da cana em áreas de pastagem, o que vai empurrar a soja e o gado para a Amazônia."
Apesar da crítica, Clinton afirmou que o mundo já conhece o potencial do etanol feito da cana-de-açúcar, muito mais eficiente que os combustíveis feitos de outras fontes primárias, como o milho, nos Estados Unidos. Por isso, ele acredita que o Brasil precisa tomar algumas medidas que assegurem a sustentabilidade do combustível. "A partir daí vocês terão uma aceitação muito melhor no mundo."
O ex-presidente disse ainda que o Brasil pode ser líder mundial na questão da eficiência energética, assim como fez na produção de energia. "Vocês podem liderar nosso caminho para um futuro melhor", disse Clinton, que minutos antes havia brincado com a frase do presidente Lula de que "a crise mundial foi criada por homens de olhos azuis", arrancando risos da plateia.
Clinton cobrou trabalho conjunto entre Brasil e Estados Unidos para o desenvolvimento de um modelo de agricultura sustentável, que valorize a redução de emissões e o crédito de carbono.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Nos próximos 10 anos, País se manterá líder em etanol

No Ethanol Summit, físico diz que álcool brasileiro vai dominar mercado enquanto 2.ª geração não nascer.
O Brasil continuará líder do setor de etanol de cana-de-açúcar nos próximos 10 anos. A projeção é do físico José Goldemberg que, durante encerramento do Ethanol Summit 2009, disse acreditar que a produtividade no País tende a crescer com novas variedades geneticamente modificadas. Além disso, a área plantada deve aumentar sobre pastagens degradadas no Brasil e também em outros países na região tropical.
Goldemberg ainda vê uma grande janela de oportunidade para o País antes que o etanol de segunda geração chegue à maturidade tecnológica e comercial. Segundo ele, atualmente, os 22,5 bilhões de litros produzidos pelo Brasil já substituem 1% do consumo mundial de gasolina. ´É possível substituir 10% do consumo de gasolina em 10 anos´, afirma. Desde o início do Proálcool, em 1975, a produtividade do etanol tem crescido a uma taxa média de 4% ao ano.
A tese ganhou força no mesmo evento, após o conselheiro da delegação da Comissão Europeia no Brasil, Fabian Delcros, ter afirmado que a União Europeia está convencida de que não conseguirá produzir biocombustíveis suficientes para cumprir sua meta de redução de emissão de gás carbônico e terá de importar.
Aprovada no ano passado, meta europeia prevê adição de 10% de combustíveis renováveis em sua matriz até 2020. Mas, de acordo com o conselheiro, esse combustível, principalmente o etanol, terá de ser certificado e dentro dos padrões da União Europeia. Quem quiser exportar para a Europa precisa ter sustentabilidade e o Brasil até tem um programa nesse sentido.
A questão é se há a compatibilidade desses programas e, para isso, o Brasil precisa apresentar o realizado aqui para um debate com a União Europeia.
Delcros afirmou que a decisão da UE de importar biocombustíveis ocorre menos pelo impacto no aumento dos preços dos alimentos, que é mínimo e varia entre 3% e 10%, e mais pela falta de disponibilidade de área para o cultivo agrícola necessária para a produção.
COOPERAÇÃO
Diplomatas defenderam durante o evento, o aprofundamento da cooperação entre Brasil e Estados Unidos na pesquisa da tecnologia do etanol. Sem ter uma forte parceria na pesquisa tecnológica não conseguiremos avançar no desenvolvimento de novas gerações do etanol, afirmou o subsecretário de Energia e Alta Tecnologia do Itamaraty, André Amado.
O Brasil lidera a produção de etanol de primeira geração, mas os Estados Unidos contam com muito mais investimentos para produzir a segunda e a terceira gerações. Para o Brasil, é estratégico que a parceria com os Estados Unidos avance.
Um memorando de entendimento sobre cooperação entre Brasil e EUA foi assinado em março de 2007. Enquanto no Brasil cerca de 85% dos pesquisadores estão ligados ao governo, nos Estados Unidos, mais de 50% das pesquisas são amparadas pela iniciativa privada, o que garante maior aporte de recursos.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Brasil precisa provar etanol sustentável

O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton afirmou hoje que o Brasil precisa provar para o mundo que pode produzir combustível renovável sem afetar seu próprio meio ambiente. Segundo ele, o Brasil vai ter de provar que pode reduzir as emissões de gás carbônico do mundo sem afetar sua própria sustentabilidade. "O Brasil terá de resolver este problema interno, local, para depois tentar resolver o problema global", disse ele, durante plenária do Ethanol Summit 2009.
Clinton disse que o mundo tem certeza de que o etanol de cana-de-açúcar é o biocombustível mais eficiente para combater os problemas de aquecimento global. Porém, ele ponderou que, se o etanol de cana começar a ser utilizado em larga escala, a produção de cana poderá se expandir de forma expressiva para as áreas de pastagem de gado, empurrando o gado e os grãos para a Amazônia. "O Brasil precisa provar para o mundo que isto não vai acontecer", disse.
O ex-presidente disse ainda que o Brasil pode ser líder mundial na questão da eficiência energética, assim como fez na produção de energia, e cobrou um trabalho conjunto entre o País e os Estados Unidos na criação de um modelo de sustentabilidade que valorize reduções de emissões e os créditos de carbono.
Durante a plenária, Clinton também cobrou do Brasil uma redução nas emissões vindas de agricultura e desmatamento, que correspondem a 75% das emissões totais do País, segundo ele. "Vocês têm uma eficiência grande na redução de emissões dos transportes e na produção de energia a partir de hidrelétricas", lembrou. "Mas vocês são o oitavo maior país em emissões e estão próximos de Índia e China", completou.
Para o ex-presidente norte-americano, a sustentabilidade é única forma de se reduzir a instabilidade e a desigualdade mundiais. Em relação à desigualdade social, Clinton lembrou que apenas países europeus que cumprem as metas do Protocolo de Kyoto, assinado em 1990, conseguiram reduzi-la.
Segundo Clinton, Dinamarca, Suécia, Alemanha conseguiram, ao mesmo tempo, reduzir a desigualdade e serem os únicos entre as mais de 140 nações signatárias do Protocolo de Kyoto a conseguir cumprir as metas previstas. "O Reino Unido também conseguiu cumprir as metas e só não conseguiu reduzir a desigualdade devido ao crescimento dos níveis salariais", concluiu.