O
debate sobre essa realidade traz à tona facetas importantes:
Desigualdade
Habitacional e Térmica: As populações periféricas e moradores de favelas sofrem
desproporcionalmente. Pesquisas, como a realizada em comunidades do Rio de
Janeiro (Chapéu Mangueira e Babilônia), indicam que o calor interno dessas
residências pode ser muito maior do que as medições oficiais da cidade.
Materiais de construção precários e a falta de ventilação agravam as ondas de
calor.
Impactos
Desiguais: Pessoas em situação de pobreza frequentemente enfrentam múltiplos
riscos ambientais simultâneos. Enquanto quem possui recursos consegue adaptar
seus ambientes, quem vive em vulnerabilidade sofre diretamente com riscos à
saúde, exaustão e perdas materiais.
Um
Desdobramento da Justiça Ambiental: O conceito discute como as populações que
historicamente menos contribuíram para a emissão de gases de efeito estufa são
as que mais pagam o preço pela elevação global das temperaturas.
É possível aprofundar a discussão lendo artigos e análises detalhadas sobre o tema publicadas em plataformas como o EcoDebate ou o Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Quando o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas de desigualdade.
Mais
de 2 bilhões de pessoas vivem sem condições mínimas de se proteger do calor
extremo. Estudo publicado na Nature Sustainability revela que a crise climática
é, antes de tudo, uma crise de justiça social e que o Brasil também está no
centro dessa equação.
Hoje,
quando o termômetro sobe, nossa primeira reação costuma ser ligar o ventilador
ou o ar-condicionado. É quase um reflexo. Mas você já parou para pensar que,
para um terço da população mundial, o resfriamento não é uma escolha, mas é um
luxo inacessível?
Essa
pergunta não é retórica. Ela está no centro de um estudo recente publicado na
Nature Sustainability, intitulado “A multidimensional assessment of systemic
cooling poverty in the global south”, que revelou uma realidade chocante, em
que mais de 2 bilhões de pessoas vivem no que os pesquisadores chamam de
“pobreza de resfriamento sistêmica”, uma condição que vai muito além de não ter
um aparelho de ar-condicionado em casa.
Mais
do que calor, é uma crise de dignidade
A
primeira vez que me deparei com o termo “pobreza de resfriamento” achei que era
apenas um jeito acadêmico de dizer que muita gente não tem ar-condicionado. Mas
não é isso, nem de perto.
Segundo
Giacomo Falchetta, principal autor do estudo, o risco do calor extremo se
multiplica quando as pessoas carecem de uma combinação cruel de ausências:
moradia adequada, acesso a serviços de saúde e até informação básica sobre como
se proteger.
O
problema, portanto, não é um aparelho. É um sistema inteiro que falhou.
É sobre viver em uma casa que vira forno. É sobre trabalhar sob o sol sem ter direito a uma pausa. É sobre não ter água potável para se hidratar quando o corpo grita por socorro. É sobre dignidade que deveria ser universal, mas que o aquecimento global está tornando cada vez mais rara para quem já tem menos.
O que é, de fato, a “pobreza de resfriamento sistêmica”
O
estudo mede a pobreza de resfriamento a partir de cinco dimensões simultâneas:
exposição climática, infraestrutura e ativos, desigualdades sociais e térmicas,
saúde, e condições de trabalho e educação. Esse olhar multidimensional é o que
o diferencia de tudo o que veio antes.
A
conclusão é que quase 600 milhões de pessoas estão em risco imediato de danos
relacionados ao calor e que os padrões de privação variam enormemente dentro de
um mesmo país, às vezes de bairro para bairro. Mas quando se ampliam os
critérios para incluir vulnerabilidades estruturais, esse número salta para
mais de 2 bilhões.
Isso
é mais do que a população inteira da América Latina e da África combinadas. São
pessoas reais, com nomes, histórias, famílias e um calor que não para de
aumentar.
Onde
o termômetro vira sentença de morte
As
regiões mais vulneráveis são o Sul da Ásia e a África Subsaariana. Em países
como Índia, Paquistão e Bangladesh, a combinação letal de calor e umidade
atinge o que os climatologistas chamam de “temperatura de bulbo úmido”, um ponto
em que o corpo humano simplesmente não consegue mais se resfriar pelo suor,
independentemente de qualquer esforço. Isso não é desconforto. É risco de
morte.
Na
Etiópia e na República Democrática do Congo, o cenário é outro, mas igualmente
devastador: a ausência quase total de infraestrutura de proteção, como parques,
áreas verdes, unidades de saúde preparadas para tratar doenças causadas pelo
calor, transforma qualquer onda de calor em um evento catastrófico. O perigo
não vem só do sol. Vem da interação cruel entre temperatura e pobreza.
A
armadilha invisível da moradia precária
Imagine
acordar dentro de uma casa cujo telhado é feito de zinco ou amianto. No verão,
esse material não apenas não protege do calor como ele amplifica. O interior
pode ser até 5 graus mais quente do que a temperatura do lado de fora. Para
milhões de trabalhadores nessas regiões, isso não é uma metáfora. É a realidade
diária
Essa armadilha é invisível nos debates sobre clima porque não aparece nos dados de renda nem nos índices de desenvolvimento humano convencionais. Uma família pode não ser classificada como “extremamente pobre” e ainda assim viver em uma moradia que, nos meses de calor, coloca a vida em risco todos os dias.
Porque mais ar-condicionado não resolve o problema
Aqui
vem uma virada que parece contra intuitiva, mas que os especialistas são
categóricos em defender: não podemos sair dessa crise simplesmente instalando
mais aparelhos de ar-condicionado.
Os
motivos são vários. Primeiro, o consumo de energia necessário para refrigerar
bilhões de lares sobrecarregaria as redes elétricas de países que já operam no
limite. Segundo e mais grave, o uso massivo de ar-condicionado alimenta um
ciclo vicioso: mais refrigeração, mais emissões, mais aquecimento global, mais
necessidade de refrigeração.
O
relatório Global Cooling Watch 2025, lançado pelo Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente na COP30, em Belém, estima que a demanda global por
resfriamento pode triplicar até 2050 caso nenhuma mudança estrutural seja feita
e que isso quase dobraria as emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao
setor de refrigeração.
É
uma bomba climática alimentada pela própria tentativa de sobreviver ao clima.
Soluções
que custam pouco e mudam muito
A
boa notícia é que as alternativas mais eficazes são, em muitos casos,
surpreendentemente acessíveis. Os pesquisadores e especialistas apontam para um
conjunto de políticas de baixo custo e alto impacto:
Design
inteligente para moradias vulneráveis: pintar telhados com tinta branca
reflexiva pode reduzir a temperatura interna em até 5 graus. É uma solução que
cabe no orçamento de prefeituras e que pode ser implementada em mutirões
comunitários.
Natureza
como infraestrutura urbana: expandir a cobertura de árvores, criar parques e
preservar corpos d’água em áreas urbanas densas cria o que os urbanistas chamam
de “ilhas de frescor”. Não são soluções estéticas — são questão de saúde
pública.
Direitos
trabalhistas como proteção climática: estabelecer por lei pausas obrigatórias,
acesso a água gratuita e áreas de sombra para trabalhadores que atuam ao ar
livre é uma das medidas mais diretas para salvar vidas durante ondas de calor.
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O limite do corpo humano
Chandni
Singh, pesquisadora do Instituto Indiano para Assentamentos Humanos, articulou
com precisão algo que os números às vezes não conseguem: existe um limite para
o quanto o ser humano consegue se adaptar ao calor extremo.
Roupas
mais leves, mudança de horário de trabalho, ventiladores — tudo isso tem um
teto fisiológico. Quando a temperatura e a umidade combinadas ultrapassam
certos limiares, não há comportamento individual que compense. A única saída é
estrutural: infraestrutura, política pública, investimento coletivo.
A “pobreza de resfriamento”
nos lembra, de forma irrefutável, que a luta contra as mudanças climáticas é,
no fundo, uma luta por justiça social. O clima não aquece de forma igualitária.
Ele aquece os que já têm menos proteção, já vivem nas margens, já carregam o
peso de um sistema que historicamente ignorou suas necessidades.
O
Brasil também está nessa história
Não
podemos ler esses dados como se fossem uma realidade distante, confinada ao Sul
da Ásia ou à África. O Brasil está profundamente inserido nessa equação.
Um levantamento recente realizado em parceria com a presidência brasileira da COP30 e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostrou que 66% das cidades brasileiras ainda não iniciaram ou estão apenas começando a elaborar planos de ação contra o calor extremo, mesmo que 93% dos gestores municipais classifiquem o tema como relevante.
Conhecer o problema e agir são coisas muito diferentes.
Com
a possibilidade de formação de um Super El Niño na segunda metade de 2026, o
Brasil enfrenta uma janela crítica. As previsões estimam um aumento da
temperatura média de +2,8°C a +4,3°C, o que seria desastroso.
As
comunidades mais vulneráveis estão na linha de frente de um calor que não
discrimina, mas que mata de forma muito seletiva.
Olhar
para esses números, 2 bilhões de pessoas, é entender que o resfriamento não deveria
ser um privilégio de quem pode pagar a conta de luz no fim do mês. Deveria ser
um direito básico de sobrevivência em um planeta que não para de esquentar.
E
se essa leitura te gerou algum desconforto, ótimo. A ideia era essa.
Desconforto é o começo de toda mudança.
Precisamos
exigir infraestruturas mais humanas, políticas mais corajosas e um futuro onde
a dignidade térmica não dependa do CEP de ninguém. (ecodebate)






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