domingo, 18 de outubro de 2026

A corrida pela energia solar espacial

A energia solar espacial é a captação da luz do Sol no espaço por grandes painéis e o envio dessa energia sem fios para a Terra.

Como funciona

• Órbita alta: As usinas ficam a 36 mil quilômetros da Terra, em órbita geoestacionária.

• Luz constante: Fora da atmosfera, não há nuvens ou ciclos de dia e noite, o que torna a luz dez vezes mais intensa.

• Transmissão: A energia captada vira ondas de rádio ou micro-ondas e é enviada para antenas na superfície terrestre.

A corrida atual

• Projetos da China: O país planeja construir uma matriz solar de 1 quilômetro de largura no espaço para gerar energia em grande escala.

• Iniciativas nos EUA: Institutos como a Caltech desenvolvem projetos próprios para testar a viabilidade da transmissão por micro-ondas.

• Economia espacial: O mercado espacial movimenta bilhões e especialistas afirmam que a nova corrida espacial será definida pela capacidade de gerar energia.

Desafios

• Montagem complexa: É impossível lançar uma estrutura pronta; robôs precisariam montar os módulos no espaço.

• Custos e perdas: O transporte de carga pesada e a eficiência na conversão e transmissão da energia ainda enfrentam barreiras técnicas.

Este vídeo explica os planos da NASA e os métodos robóticos para erguer usinas solares gigantescas no espaço:

Há uma intensa movimentação acima de nossas cabeças, e ela será alimentada, como ocorre há mais de 70 anos, pela energia solar. Para quem trabalha no segmento de alta tecnologia solar, é difícil ignorar o aumento dos investimentos e a expansão das atividades dos setores público e privado nas emergentes indústrias espaciais.

O volume de recursos destinados ao setor parece representar uma nova oportunidade para a indústria solar avançar em direção a um mercado de alto valor, embora sua escala e importância finais ainda estejam começando a ser compreendidas.

Enquanto grande parte da atenção da mídia e das discussões tem se concentrado em ofertas públicas iniciais (IPOs) e em ambições de grande escala, uma dinâmica interessante está surgindo entre os fornecedores de tecnologias solares que buscam alimentar a crescente frota de satélites e outras operações espaciais.

Impulsionados pelo forte interesse dos investidores, desenvolvedores de satélites, empresas espaciais e fabricantes especializados de equipamentos solares estão desenvolvendo novas tecnologias e capacidades que podem permitir que atividades econômicas em órbita ganhem escala e prosperem.

Expansão dos eventos

Esse aumento da atividade ficou evidente em três eventos realizados nos Estados Unidos em 2026 dos quais a Eternal Sun participou: o Space Power Workshop, realizado em abril em Torrance, Los Angeles; a Space Photovoltaics Research and Technology Conference (SPRAT), em Cleveland; e a Small Satellite Conference, em Salt Lake City, ambas realizadas no último mês.

Os 3 eventos acontecem há décadas, o que demonstra tanto a importância histórica dos sistemas de energia para as operações espaciais quanto a profundidade do conhecimento acumulado nessa área.

Quando participei do Space Power Workshop, ficou evidente a familiaridade entre representantes do setor de tecnologia espacial e das empresas solares com longa trajetória no fornecimento de equipamentos para esse mercado. E isso não chega a ser surpreendente, já que o evento comemorou sua 40ª edição neste ano.

Ao lado dos profissionais experientes e das empresas já estabelecidas, porém, havia também um grupo de novos participantes interessados em levar abordagens inovadoras para as operações espaciais e os sistemas de energia.

Muitas das organizações espaciais representadas no Workshop são conhecidas, como a National Aeronautics and Space Administration (NASA), a European Space Agency (ESA) e a organização sem fins lucrativos Aerospace Corporation, que atua desde 1960.

Em relação às necessidades de energia em órbita, essas organizações frequentemente mantêm relações de longa data com fornecedores especializados de sistemas solares para aplicações espaciais. Muitos deles baseiam suas tecnologias fotovoltaicas em semicondutores III-V, incluindo células solares de arseneto de gálio (GaAs).

Abordagens tradicionais

Como usinas solares no espaço podem transmitir energia para a Terra.

Já foram projetados satélites para coletar energia solar no espaço.

Não é necessário ter um doutorado em energia fotovoltaica para compreender as vantagens dos semicondutores III-V. Com eficiências de conversão superiores a 30% e alta resistência aos prótons e elétrons de alta energia predominantes em órbitas elevadas, eles há muito tempo são uma escolha natural para aplicações espaciais.

No entanto, a capacidade de produção de dispositivos solares III-V continua bastante limitada. Durante o Space Power Workshop, foi mencionado que a capacidade anual de produção permanece abaixo de 5 MW, enquanto os prazos de entrega podem ser longos, representando uma restrição significativa à expansão das aplicações.

Ainda há poucos dados confiáveis sobre a cadeia de suprimentos de sistemas solares para aplicações espaciais. Como me disse um analista experiente do setor solar, “a energia solar espacial é muito interessante, mas atualmente está na fronteira de nossa pesquisa”.

Apesar dessa visibilidade limitada, está claro que a atividade em toda a cadeia de suprimentos de sistemas solares espaciais está se acelerando.

Nova geração de fotovoltaicos espaciais

Vale a pena observar alguns dos desenvolvimentos recentes no mercado de energia solar espacial. Em 20 de maio, a York Space Systems, com sede em Denver, anunciou a aquisição da desenvolvedora de sistemas solares espaciais Solestial por US$ 67 milhões, em dinheiro e ações.

Em vez de utilizar semicondutores III-V, a Solestial produz células e módulos de silício cristalino (c-Si) para aplicações espaciais. A empresa utiliza substratos de c-Si ultrafinos, de 60 micrômetros, para produzir células e módulos de heterojunção por meio de processos de fabricação em baixa temperatura.

A aquisição ocorreu após a oferta pública inicial da York Space Systems, que levantou US$ 4,75 bilhões na Bolsa de Valores de Nova York em janeiro.

Olhando para além da energia solar, fica claro que os recursos estão fluindo para todo o setor espacial emergente. A organização sem fins lucrativos Space Foundation informa que apenas em abril de 2026 foram direcionados US$ 28,7 bilhões em investimentos privados para empresas espaciais.

Segundo a organização, além dos investidores tradicionais de capital de risco, empresas como Airbus, Lockheed Martin e Google estão destinando recursos ao setor, assim como fundos soberanos, fundos de pensão e family offices. As constelações de satélites estão entre os segmentos particularmente atraentes para os investidores.

Evolução tecnológica

A crescente demanda por satélites em órbita terrestre baixa (LEO), incluindo aplicações como a Starlink, parece estar levando a uma reavaliação dos semicondutores utilizados em sistemas solares espaciais.

A LEO geralmente se estende de aproximadamente 160 km a 2.000 km acima da superfície terrestre. Como essas órbitas apresentam menor exposição à radiação que provoca degradação do que as órbitas mais elevadas, além de uma vida útil geralmente mais curta dos satélites, células mais convencionais de silício cristalino podem ser mais adequadas para essa próxima fase da industrialização espacial.

A queda dos custos de lançamento também está tornando mais viáveis os sistemas solares espaciais de c-Si de menor custo.

Um relatório da PwC sobre a indústria espacial, publicado em abril de 2025, observa que, embora “lançar materiais pesados em órbita continue sendo um obstáculo logístico”, o aumento da frequência dos lançamentos e inovações como foguetes reutilizáveis podem reduzir a importância da relação entre potência e peso nos sistemas solares espaciais.

Segundo o relatório, os custos de lançamento para a LEO caíram acentuadamente nos últimos 15 anos, chegando a aproximadamente US$ 2.000/kg ou menos.

Em reconhecimento à importância da inovação contínua em laboratórios e na fabricação de sistemas solares espaciais, o Departamento de Energia dos Estados Unidos lançou uma oportunidade de financiamento de US$ 12 milhões.

Não são apenas satélites que estão sendo lançados. As informações sobre o Space Photovoltaic Research and Development Program foram divulgadas em 31/08/2026 e indicam que o programa pretende acelerar a inovação tecnológica e ampliar a capacidade doméstica de fabricação de sistemas solares para aplicações espaciais. O processo de concessão é administrado pela TechWerx e ficou aberto até 08/10/26.

Oportunidade para as perovskitas

Assim como ocorre na Terra, a tecnologia fotovoltaica baseada em perovskitas apresenta grande potencial como uma solução de nova geração para aplicações espaciais.

Na SPRAT, realizada no início deste mês no Glenn Research Center, da NASA, desenvolvedores de perovskitas tiveram participação de destaque na programação.

Equipes da desenvolvedora de perovskitas Swift Solar e pesquisadores da University of Rochester, em Nova York, e da University of North Texas fizeram apresentações no evento. A equipe da Eternal Sun também conversou com representantes das empresas de perovskitas Oxford PV e Beyond Silicon durante os intervalos.

As discussões mostraram que, embora as aplicações espaciais talvez não tenham sido uma prioridade para a pesquisa e a comercialização de células de perovskita no passado, hoje elas são vistas como uma oportunidade de negócios relevante pelos desenvolvedores.

Para as empresas espaciais, eficiências superiores a 30% a custos muito inferiores aos dos semicondutores III-V representam uma perspectiva particularmente atraente.

Para concretizar esse potencial, porém, as células de perovskita precisam demonstrar durabilidade e confiabilidade no longo prazo. As empresas espaciais não podem arcar com degradação inesperada ou falhas dos dispositivos depois de assumir os altos custos de lançamento dos equipamentos para a órbita.

O desafio é semelhante ao enfrentado pela implantação das perovskitas em aplicações terrestres, mas com consequências muito maiores.

Diante da necessidade de testar e caracterizar com precisão células e módulos de perovskita e c-Si destinados a aplicações espaciais, incluindo dispositivos tandem, é positivo observar uma forte demanda por simuladores solares avançados nesse nicho em expansão.

Em dezembro de 2025, a Eternal Sun informou que estava fornecendo equipamentos com placas de diodos emissores de luz (LED) pré-calibradas para testes em condições de massa de ar zero (AM0), permitindo a caracterização precisa de tecnologias solares projetadas para uso no espaço.

A Space Foundation estima que a economia espacial global tenha alcançado US$ 686 bilhões em 2025, com crescimento anual de 12%.

O relatório classifica a energia solar espacial como uma “tecnologia fundamental” para a expansão contínua das operações em órbita. À medida que a economia espacial cresce e novas tecnologias fotovoltaicas surgem, testes rigorosos, caracterização e validação dos produtos serão fundamentais para garantir que a energia solar consiga atender às necessidades dessa indústria no futuro.

E acredito que posso falar em nome de toda a equipe da Eternal Sun ao dizer que temos orgulho de contribuir para o desenvolvimento dessa nova área da economia.

Pepijn Veling é diretor de vendas da Eternal Sun | WAVELABS desde 2019. É responsável pelas vendas na Europa, Índia, Oriente Médio e América Latina, além de atuar como engenheiro de vendas, gerenciando contas na América Latina e na Europa. Anteriormente, trabalhou como desenvolvedor de novos negócios na Kimberly-Clark e na Innovice, onde teve entre seus principais clientes a Apple Benelux e o Rabobank Utrecht.

Veling é bacharel em Gestão da Inovação e mestre em Ciência e Gestão da Inovação pela Utrecht University, além de possuir qualificações adicionais em negócios sustentáveis. (pv-magazine-brasil)

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