sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Substituir Angra 3 por energia solar economiza R$ 12,5 bilhões

Não continuar com Angra 3, substituí-la por energia solar economiza R$ 12,5 bilhões.
Não prosseguir com Angra 3 e substituir a produção de energia nuclear por solar representaria uma economia de R$ 12,5 bilhões ao longo de 35 anos.
Em 23 de outubro, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou uma resolução que viabiliza a conclusão da Usina Termelétrica (UTE) Angra 3, paralisada desde 2015. E o futuro ministro de Minas e Energia, almirante Bento Costa Lima de Albuquerque Júnior, anunciou recentemente que a conclusão da usina nuclear será uma das prioridades da sua gestão.
Para avaliar os custos e benefícios de Angra 3 ao país, o Instituto Escolhas comparou a opção de ter a fonte nuclear no sistema elétrico com os custos de não prosseguir com a obra, concluindo que a melhor opção é não finalizá-la. Segundo a pesquisa, não prosseguir com Angra 3 e substituir a produção de energia nuclear por solar representaria uma economia de R$ 12,5 bilhões ao longo de 35 anos.
“Angra 3 é uma sangria aos cofres públicos que precisa ser estancada. Em tempos de ajuste fiscal e da presença de novas opções para o país suprir suas necessidades de energia, a conclusão da usina não se justifica”, afirma Sergio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas.
Para o cálculo, o Escolhas utilizou uma metodologia inédita lançada em outubro deste ano no relatório Quais os reais custos e benefícios das fontes de geração elétrica no Brasil?. O estudo é uma realização do Instituto, em parceria com a PSR Soluções e Consultoria em Energia.
A metodologia considera o custo total da geração de energia no Brasil por meio da avaliação e da valoração dos atributos de cinco componentes: custos de investimento e operação; serviços prestados pela fonte além da produção de energia propriamente dita; custos de infraestrutura causados ou evitados pelo gerador; subsídios e isenções; e custos ambientais, como emissão de gases de efeito estufa.
Quando a construção de Angra 3 foi paralisada em 2015, R$ 6,6 bilhões já haviam sido investidos com um progresso de 67% das obras: 88% da parte de engenharia; 78% de suprimento de equipamentos e materiais; 82% das obras civis e 19% da montagem eletromecânica. Atualmente, os sistemas de proteção para a estrutura da usina já estão prontos e há custos mensais para a preservação das componentes e materiais.
Conclusão de Angra 3 foi anunciada como prioridade pelo futuro ministro de Minas e Energia.
A opção de abandonar o projeto requer o pagamento de multas por rescisões contratuais, liquidação antecipada do financiamento, custos com desmobilização da equipe, rescisão de contratos nacionais, rescisão de contratos com a fornecedora de equipamento (Areva), compensações socioambientais e reservas de contingencias. De acordo com a Eletrobras Eletronuclear – órgão responsável por operar e construir usinas termonucleares no Brasil -, os custos totalizam RE$ 11,9 bilhões.
Segundo a resolução do MME, o investimento para completar as obras está estimado em R$ 15,5 bilhões, portanto R$ 3,6 bilhões a mais que descontinuá-la.
“Uma primeira analise fria dos números pode simular que a melhor decisão seria continuar a construção. Entretanto, como demonstra nossa metodologia, é preciso avaliar a atratividade desta usina em comparação as alternativas de expansão, e não apenas com a opção de abandoná-la”, observa Sergio Leitão.
Por isso, o estudo analisa a substituição da energia produzida pela termelétrica por energia das usinas solares do Sudeste, que têm os mesmos atributos de Angra 3: gera energia “na base”, não emite CO2, e está localizada na mesma região, próxima a grandes centros de carga. A diferença é a intermitência da fonte solar, que aumenta, por exemplo, os custos associados à necessidade de uma reserva operativa e à necessidade de potencia.
A avaliação do Escolhas mostra que retomar as obras de Angra 3 custará para o sistema 528 R$/MWh durante 35 anos, superior aos R$ 480/MWh publicados como referência pelo governo na resolução de outubro. O cálculo do Instituto avalia a soma de todos os atributos indicados na metodologia, considerando assim o grande subsídio dado à usina advindo das baixas taxas de financiamento do BNDES e da Caixa Econômica Federal, custo esse que é repassado aos consumidores e contribuintes.
“A energia nuclear é a mais cara”.
Já o custo para a sociedade da fonte solar no Sudeste é de R$ 328/MWh no mesmo período. Portanto, o estudo conclui que o abandono da obra de Angra 3, com a quitação de todos os custos e a construção de usinas solares, traria uma economia ao setor elétrico de R$ 12,5 bi até 2045, o que significa R$ 103/MWh ao longo desses 35 anos. “Cabe ressaltar que esta analise é conservadora sobre o ponto de vista tecnológico, pois não considera a possível redução nos custos de investimento da energia solar após os 20 anos de operação, uma vez que foi considerado o mesmo custo de energia solar ao longo de todo o período analisado”, completa Sergio Leitão. (ecodebate)

Renováveis são plenamente competitivas na América Latina

Renováveis são plenamente competitivas na América Latina, aponta PSR.
Fontes na região apresentam menos dependência de políticas governamentais no processo de descarbonização do setor elétrico, aponta a consultoria em sua publicação mensal Energy Report.
A terminologia para se referir às fontes renováveis vem mudando com o tempo. Passou de exótica para complementar e agora é a variável. Mas o que caracteriza essas fontes, principalmente a eólica e a solar, é que atualmente estas dominam as expansões de capacidade de muitas regiões. Estudos de planejamento apontam que em vários países da América Latina essas fontes, incluindo aí a biomassa e outras, são plenamente competitivas do ponto de vista econômico o que significa uma menor dependência de políticas governamentais do que em outras regiões do mundo para a descarbonização do setor elétrico.
A afirmação é da consultoria PSR na edição mais recente de sua publicação mensal Energy Report. Na avaliação dos resultados, relata a empresa, o armazenamento nos reservatórios, a complementariedade sazonal e a infraestrutura de transmissão dos países da região são fatores que alavancam esta competitividade das renováveis. E aponta ainda que as novas metodologias de planejamento requerem ferramentas analíticas, entre elas o inventário de recursos, geração de cenários integrados, expansão de geração-reserva-transmissão cootimizada, simulação de produção estocástica com resolução horária e o planejamento de rede de transmissão probabilística (potência ativa e VAr).
Essa inserção de renováveis, afirmou a PSR, levou a uma convergência entre todos os países, que agora se preocupam tanto com energia como potência, variabilidade, armazenamento entre outros aspectos. Mais especificamente sobre a América Latina, acrescentou, os países trocam rotineiramente experiências com a Costa Oeste dos Estados Unidos, Alemanha, França, Nova Zelândia, Vietnam, Turquia e muitos outros em diversos estágios de desenvolvimento econômico. “Este aprendizado mútuo resultou em avanços significativos das metodologias de planejamento da expansão”, definiu.
Um exemplo desta cooperação internacional, lembrou a consultoria fluminense, foi o seminário “CEM Days – Integração de Renováveis no Setor Elétrico: Caminhos e Desafios para o Planejamento Energético”, promovido recentemente pela EPE. O evento foi apoiado pelo Clean Energy Ministerial (CEM), fórum global de governos que visa promover a adoção de tecnologias de energias limpas e compartilhar lições aprendidas e melhores práticas, e por várias instituições internacionais: Agência Internacional de Energia (IEA), Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e Laboratório Nacional de Energia Renovável dos EUA (NREL).
A análise da empresa sobre o planejamento e os avanços que fazem parte da publicação da PSR já foram usados na Argentina, Chile, Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru. E ainda provém de apresentações da consultoria no Harvard Roundtable on Energy and Climate Change Policy, realizado entre 29 e 30/12/2018 no Rio, e ainda no CEM Days.
No caso do Brasil, indicou a consultoria, os resultados preliminares de um estudo sobre novas metodologias de planejamento que o consórcio PSR-Tractebel-Lahmeyer está realizando para a EPE e ONS com o patrocínio da GIZ indicam que que a capacidade eólica passará para 62 GW e a solar para 28 GW (além de 30 GW de solar em geração distribuída). “Observa-se que esta expansão foi 100% econômica, isto é, não considerou qualquer meta governamental de inserção de renováveis”, ressaltou.
E ainda, que outro resultado foi a mudança no padrão de operação dos reservatórios da região Nordeste, onde há uma atenuação significativa do processo de esvaziamento ou enchimento da UHE Sobradinho. Um segundo resultado surge da observação do padrão dos intercâmbios entre as regiões Norte e Nordeste. A inserção maciça de geração eólica na região Nordeste, afirmou, permite utilizar plenamente os recursos de transmissão de Belo Monte, que até então ficavam ociosos no período seco da usina.
No final, o objetivo do modelo de expansão é minimizar o valor presente da soma do custo de investimento e valor esperado do custo operativo. Um dos avanços metodológicos recentes dos estudos de planejamento foi representar uma terceira parcela nesta soma, que é a construção de capacidade de reserva para gerenciar a variabilidade das fontes renováveis construídas. Esta otimização simultânea dos investimentos de energia e reserva é conhecida na literatura como cootimização. Na análise há o avanço nas metodologias para a expansão da transmissão e das fontes reativas.
Assim, ressaltou a PSR, afirmações como ‘não é possível ter mais do que 20% de renováveis no sistema devido à variabilidade’ ou ‘vai ser necessário construir 1 MW de térmica de reserva para cada 3 MW de eólica devido à ocorrência de vários dias sem vento’, e ainda, ‘vamos ter problemas de estabilidade porque as renováveis não proveem inércia’ e ‘as renováveis requerem uma complementação de energia de base’ – dentre outras – estão ficando defasadas da realidade.
A região tem a matriz energética mais limpa do mundo, mas deverá melhorar sua eficiência para competir globalmente e para atender à crescente demanda local.
“A combinação de evolução tecnológica, efeito portfólio e aperfeiçoamentos regulatórios mitigou ou até eliminou várias preocupações. Por exemplo, os novos controles digitais das eólicas permitem que elas contribuam com inércia, suporte reativo e até mesmo reserva para compensar variabilidade, a diversificação geográfica das fontes permite uma geração “firme” comparável à de uma usina térmica na base, o “despacho vinculante” na oferta de preços para o chamado day ahead levou a uma melhora extraordinária na capacidade de previsão da produção eólica na Europa, reduzindo muito a necessidade de reserva, e ainda, a inserção de grandes quantidades de eólica no Nordeste cria um armazenamento virtual que ameniza a redução dos reservatórios hidrelétricos”. (canalenergia)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A energia nuclear pode ajudar a reduzir nossas emissões?

A Eletronuclear divulgou hoje bons números para mostrar o papel das usinas atômicas para garantir energia com menos mudanças climáticas. O grande argumento da empresa estatal é a capacidade de as nucleares fornecerem energia complementar às hidrelétricas. As nucleares ajudariam a atender à demanda nos períodos de estiagem, quando a produção das barragens precisa ser reduzida.
O estudo da Eletronuclear compara a eletricidade das usinas nucleares com a das termelétricas (a gás, carvão e óleo combustível), usadas regularmente para complementar a produção hidrelétrica no Brasil. Segundo o levantamento, as emissões de gases de efeito estufa do setor elétrico seriam, em 2006, 3% maiores se, ao invés da energia nuclear, a mesma participação de fontes fósseis estivesse gerando eletricidade.
O estudo foi feito pela Ecen Consultoria, para a Eletronuclear. A Ecen também estimou o quanto a energia nuclear reduziria em emissões poluentes se for colocado em prática o plano nacional de energia do governo federal, que prevê mais usinas em operação. Se a participação das nucleares na capacidade instalada do Brasil subir dos atuais 1.950 megawatts para 7.300 até 2030, como prevê o plano, as usinas atômicas evitariam o lançamento de 437 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. Seria o equivalente a 19% das emissões.
Usinas nucleares ainda são maior fonte de energia “limpa” na Europa e nos Estados Unidos.
O estudo analisou o ciclo atual de produção da energia nuclear. Contou todas as fases do processo: da mineração do urânio, passando pela construção do reator, incluindo a fase de geração e até o desmonte do reator. Só não considerou o depósito final dos resíduos nucleares, porque isso ainda não existe no Brasil.
As nucleares são vistas hoje como um caminho para garantir o fornecimento de eletricidade com fontes que não contribuem para o aquecimento global. Países com planos ambiciosos de redução nas emissões apostam em novas nucleares para abastecer a população. Mas não está claro se essa é a melhor opção para o Brasil.
Energia Nuclear é uma Alternativa?
Ainda falta entender melhor os custos da energia nuclear, considerada a opção mais cara entre as disponíveis para o Brasil. Para complicar, o gasto com energia nuclear no Brasil, além de dominado por estatais, é disfarçado em vários subsídios ocultos.  Mas os números recentes sobre as emissões podem ajudar nesse debate. (globo)

As usinas nucleares de Angra são seguras?

A usina nuclear Angra 2.
A situação da usina nuclear de Fukushima, no Japão, continua piorando. Dois anos e meio depois do terremoto e tsunami que danificaram a usina, as autoridades japonesas detectaram um grande vazamento de água radiativa, contaminando o oceano.
O acidente colocou a indústria nuclear, em todo o mundo, em estado de alerta. No Brasil, não foi diferente. O país tem 2 usinas nucleares em Angra, que geram cerca de 2% da energia consumida no Brasil. As 2 passaram por uma revisão de seus procedimentos de segurança após Fukushima, e estão colocando em ação um plano de R$ 300 milhões para reduzir os riscos de acidentes.
O Blog do Planeta conversou com Paulo Carneiro, Assessor da Diretoria Técnica da Eletronuclear e um dos responsáveis pelo Plano de Resposta Pós-Fukushima. Carneiro explica como funciona o plano e quais ações estão previstas para evitar acidentes em Angra.
Blog do Planeta - As usinas nucleares de Angra são seguras?
Paulo CarneiroHoje podemos dizer que as usinas de Angra são robustas - esse é o termo que usamos na indústria nuclear. Elas têm uma grande capacidade de enfrentamento de desastres naturais, considerando as medidas de proteção existentes e os sistemas já instalados. O que nós estamos fazendo, após Fukushima, é aumentar ainda mais essa capacidade, aumentar as margens de segurança da central.
Blog do Planeta - Depois do acidente de Fukushima, Angra passou por um estudo sobre a segurança das usinas?
Paulo Carneiro - Sim, tão logo ocorreu o acidente, em março de 2011. Nós fizemos o Plano de Resposta pós-Fukushima, que reunia 58 iniciativas, entre estudos e projetos. Havia situações que precisavam ser reavaliadas. Fizemos alguns estudos, principalmente na área de reavaliar desastres naturais na região, e projetos onde já tínhamos definição de algumas intervenções nas duas unidades para aumentar a robustez da planta.
Blog do Planeta - Esses estudos reavaliaram que tipos de desastres naturais?
Paulo Carneiro - São basicamente três grandes linhas de avaliação. Os maiores riscos são os deslizamentos causados pela chuva e os movimentos do mar. Além desses dois, incluímos os abalos sísmicos como uma terceira linha de estudo.
Angra está em uma região com chuvas torrenciais, e cercada de montanhas, com uma característica que leva a deslizamentos. Uma das partes do plano é reavaliar as obras de contenção das encostas e, numa hipótese de deslizamento, quais seriam as implicações. Essa parte do estudo já está concluída e já fizemos obras de reforço. Quanto aos movimentos do mar, a central tem um posicionamento mais favorável, porque ela está em uma baía, com proteção natural. Além disso, a usina foi projetada com proteção para ondas de até 4 metros de altura. Estatisticamente, aquela região não dá maré acima de 1,20m, mas ainda assim estamos reavaliando essa proteção, dentro do espírito pós-Fukushima, para ver que margens de seguranças nós temos. Esse estudo de movimento do mar será concluído no fim do ano.
A terceira área são os terremotos. A central está em uma região de baixa sismicidade, mas a indústria nuclear em todo o mundo está reavaliando essa questão após Fukushima, e nós estamos trabalhando com consultorias internacionais para ver a segurança em caso de terremoto. O estudo ainda está em andamento, mas as conclusões iniciais mostram que temos capacidade de enfrentar terremotos maiores do que os considerados inicialmente no projeto.
Blog do Planeta - O que as falhas na resposta ao acidente de Fukushima ensinam para as usinas brasileiras?
Paulo CarneiroO que foi determinante em Fukushima foi o fato da usina ter perdido todo o suprimento de energia elétrica que abastecia o sistema de segurança. Sem energia, eles não tinham como remover calor do reator. Fukushima tinha 2 geradores diesel de emergência para cada reator. Esses geradores ficavam no subterrâneo, o que é uma vulnerabilidade muito grande - a água inundou o compartimento e dois operadores morreram eletrocutados. Já Angra tem uma capacidade muito maior de suprir energia em caso de emergência. Temos 12 geradores diesel, seis para cada reator. E os geradores estão acima da cota de construção, espalhados em quatro prédios, todos protegidos de inundação.
Apesar disso, identificamos algumas áreas para melhorar. Uma delas é a possibilidade dos geradores de emergência de uma usina alimentar o sistema de segurança de outra. Porque hoje os geradores de Angra 1 só alimentam o sistema de segurança de Angra 1, e o mesmo com Angra 2. Isso gera uma restrição. Então temos que prever meios para que, em uma emergência, os geradores de uma usina possam alimentar o sistema de segurança de outra. Adicionalmente, seguindo o que está sendo feito nas usinas do mundo todo, nós estamos comprando geradores diesel móveis, tanto para Angra 1 quanto para Angra 2.
Blog do Planeta - Dois anos e meio depois do acidente, Fukushima continua com problemas. Agora, está vazando água radiativa da usina. As usinas de Angra estão preparadas para um caso como esse?
Paulo CarneiroA água é uma questão importante, porque é usada para fazer o resfriamento dos reatores. Nós estamos trabalhando para ter acesso a fontes alternativas de água. Atualmente, temos um reservatório, mas ele não está protegido em caso de terremotos. Por isso, vamos construir um segundo reservatório com a capacidade de suportar terremotos. Esse é um projeto que será implementado em 2015.
Quanto aos vazamentos, nós estamos trabalhando com prevenção. Os nossos esforços, no momento, estão concentrados em evitar vazamentos, e assegurar o confinamento de qualquer radiação dentro do prédio do reator. Nossos esforços são no sentido de evitar, a qualquer custo, qualquer possibilidade de ter liberações de radiação para o meio exterior. Esse é o foco.
Blog do Planeta - Essas ações foram avaliadas por algum órgão independente?
Paulo CarneiroO plano foi desenvolvido e submetido à Comissão Nacional de Energia Nuclear. A comissão também integra o Foro Ibero-americano de Reguladores, que é um organismo internacional que congrega Brasil, Argentina, México e Espanha. Esse foro decidiu implantar o mesmo processo de segurança que a União Europeia determinou para os países na Europa. Com esse processo, os planos de cada país são cruzados. O relatório brasileiro foi avaliado pelo órgão regulador do México. O relatório nacional argentino foi avaliado pelo Brasil. No final desse processo, o Foro destacou nossas ações e disse que nossas iniciativas atendem às expectativas de segurança.
O Brasil possui 2 usinas nucleares sendo Angra I e Angra II.
Existem pros e contra no uso desse tipo de energia, sabemos que em caso de acidentes uma usina nuclear pode causar danos irreparáveis, tal como aconteceu em em Chernobyl e mais recentemente em Fukushima,   e enquanto não existir um modelo 100% seguro capaz de resistir a ataques terroristas, terremotos, inundações e outros apesar das vantagens dessa tecnologia eu serei sempre contra. Não sou a favor pois hoje existe tecnologias de energia sustentável e em consequência muito mais limpa.. (globo)

domingo, 30 de dezembro de 2018

Brasil após Fukushima

Anos depois do desastre no Japão, o jogo da energia atômica ficou mais difícil. O Brasil terá de rever planos e gastar mais para continuar nele.
Operação de resfriamento dos reatores da central atômica de Fukushima.
Depois de um passeio de três anos pelo Oceano Pacífico, chega à Costa Oeste dos Estados Unidos, até abril, a primeira leva de detritos radioativos arrastados da usina de Fukushima, no Japão. Os detritos, conduzidos pela correnteza, foram para o mar em 2011, depois de a usina ser danificada por um terremoto seguido de uma onda gigante. O nível de radiação que chega ao litoral americano não oferece perigo, mas serve de lembrete incômodo – as consequências de acidentes nucleares duram muito e chegam longe. O problema original nem ao menos foi contido. Em Fukushima, vazamentos de água radioativa da usina para o mar ocorrem até hoje. O pior dos últimos seis meses aconteceu em fevereiro, quando 100 toneladas de água contaminada foram para o oceano. Tudo por causa de um desastre natural que parecia muito improvável.
Na era pós-Fukushima, o jogo da energia nuclear passou a ter regras mais duras. “A primeira fase de resposta a Fukushima foi pensar nas questões óbvias, com base no que aconteceu lá – temos de garantir que salas de controle e geradores não sejam inundados”, diz o britânico Steve Thomas, professor de política energética na Universidade de Greenwich e ex-consultor da Eletronuclear. “A segunda fase é mais lenta. Exige que você considere possibilidades que antes eram impensáveis.” O Brasil, com suas duas usinas nucleares, terá aprendido a lição?
A central nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, onde ficam as duas usinas brasileiras, pertence à estatal Eletronuclear. A companhia aplica, desde o fim de 2011, um Plano de Resposta a Fukushima. Entre as medidas estão o reforço de estruturas de contenção para o caso de deslizamentos (maior risco na região, chuvosa e de relevo acidentado) e simulações de desastres naturais mais pessimistas. Está nos planos a instalação de um reservatório de água, bombas e compressores para resfriar o reator nuclear em caso de acidente grave (o desastre de Fukushima piorou quando a onda gigante interrompeu o sistema de resfriamento). O investimento da Eletronuclear no aumento de segurança passa dos R$ 50 milhões, e o plano não tem prazo para conclusão. Até o momento, ele não tratou de algumas questões fundamentais.
Uma delas é o pequeno alcance do plano de emergência. Ele prevê remover a população num raio de 5 quilômetros da central nuclear para abrigos perigo somente próximos, a 15 quilômetros do local. Isso atende ao mínimo recomendado pela Agência Internacional de Energia Nuclear. Mas a maioria dos países com geração nuclear de energia adotou procedimentos de emergência mais abrangentes. “Uma pesquisa de 2012 com todas as usinas da Europa, o FlexRisk, concluiu que um acidente severo exige medidas numa distância de 300 quilômetros. Se ocorrer um acidente desses em Angra, o plano de emergência falha”, diz o engenheiro nuclear Jailton Ferreira, funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Ferreira lembra que a usina Angra 2 adota como referência a usina “gêmea” de Grafenrheinfeld, na Alemanha. “Não há por que não fazer logo, para Angra 2, um estudo equivalente ao que foi feito para a usina alemã. Temos no Brasil os dados, o software e o computador necessários”, afirma.
Um alerta semelhante é feito pelo engenheiro Célio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP). Ele considera a região de Angra dos Reis inadequada para abrigar usinas nucleares, por razões variadas – há poucas vias de escape, as chuvas volta e meia bloqueiam as estradas, e o trânsito de turistas é intenso. Por isso, Bermann considera má ideia construir a usina Angra 3, com previsão de conclusão em 2018. Para piorar, o projeto da usina é antigo, dos anos 1970. Isso deveria ser compensado com mais investimento e planejamento para emergências.
Por sua natureza peculiar, o setor de energia nuclear tem de trabalhar com cenários catastróficos, obras complexas e planejamento com prazos muito longos. As falhas no acidente da usina de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, um dos piores da história, só foram compreendidas cinco anos depois. Só hoje há usinas em construção que embutem o aprendizado com o desastre de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Por isso, toda lição importa muito. A usina Angra 1 também tem uma “gêmea”, a usina americana de Kewaunee, no Wisconsin. Ela foi desligada no ano passado, mas contava com procedimentos de emergência mais impressionantes que sua irmã brasileira (leia no quadro a comparação dos planos de emergência das usinas brasileiras e estrangeiras).
Nos Estados Unidos, a área de evacuação foi estendida de 5 quilômetros ao redor da usina para 16 quilômetros. Os planos de emergência também incluem medidas para um raio de 80 quilômetros, a fim de evitar que a população consuma alimentos e água contaminados. As instruções para os habitantes da área ao redor da usina de Kewaunee, disponíveis na internet, incluíam detalhes como nomes das escolas a evacuar e orientação para que os pais não tentassem buscar as crianças, a fim de evitar congestionamentos. O poder público se encarregaria de levá-las, de ônibus, a pontos de encontro predeterminados. As instruções nos EUA e na Alemanha chegam a minúcias. Explicam como seria a distribuição de pílulas de iodo, para evitar o envenenamento radioativo, e o que fazer com animais domésticos, já que eles não são aceitos em abrigos coletivos de emergência.
A população ao redor das usinas de Angra também tem material instrutivo, mas com orientações mais vagas e em tom infantilizado (em parte do material, em forma de história em quadrinhos, um personagem chamado Zé Elétrico dá explicações a crianças). Além das instruções claras e do plano de evacuação mais abrangente, os EUA avaliam a tecnologia e os procedimentos em suas 100 usinas nucleares. Destinaram US$ 2 bilhões a melhorias de segurança naquelas em que isso for necessário. A presidente da Comissão Reguladora de Energia Nuclear dos EUA, Allisson Macfarlane, resume bem a situação: “Fukushima foi um grito de alerta não somente para os EUA, para o setor e para esta Comissão Reguladora. Foi um grito de alerta para o mundo”. A França elevou as exigências de segurança, e seu cumprimento, nas 58 usinas do país, deverá custar € 10 bilhões – uma quantia nem tão exagerada, dado que a França exporta € 3 bilhões em energia elétrica todo ano. O governo alemão reagiu de forma mais extrema e decidiu desligar suas 17 usinas nucleares até 2022.
O vazamento de água radioativa de fevereiro e a chegada dos detritos contaminados ao litoral dos EUA tornam o assunto difícil no Japão. O primeiro-ministro, Shinzo Abe, mesmo neste momento ruim, apresentou o rascunho da nova política energética do país. Provocou polêmica. Ele quer religar os 58 reatores nucleares japoneses (todos foram desligados após o desastre de Fukushima) e apenas diminuir o papel da energia nuclear na matriz de energia japonesa. Segundo a proposta, as usinas nucleares mantêm um papel importante no futuro de um país pobre em opções energéticas.
No mundo todo, incluindo o Brasil, o aumento de custo com as novas medidas de segurança é inevitável. “A energia gerada em Angra chega a ser 50% mais custosa que a média no país. Com a tecnologia de segurança mais moderna, os reatores ficam mais caros, e o custo vai para o consumidor”, diz o físico José Goldemberg, especialista em energia e ex-reitor da Universidade de São Paulo.
O Brasil já sofreu duramente as consequências de se aventurar numa fronteira tecnológica sem aplicar a seriedade e o dinheiro necessários. Em 2003, uma falha num Veículo Lançador de Satélites provocou uma explosão no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Morreram 21 pessoas na tragédia. Nem por isso o Brasil deveria abandonar seu programa espacial. Da mesma forma que deveria manter seu programa nuclear pacífico, seguindo os passos de Estados Unidos, França, Japão e outras nações desenvolvidas. Essa forma de geração não chega a ser crucial para o Brasil, atualmente. Corresponde a 3% da capacidade nacional. Sabe-se que o país tem muito a produzir a partir de outras fontes, como ventos, sol, marés e resíduos orgânicos. Nada disso significa que o Brasil deva dispensar a energia nuclear. Trata-se de uma fonte com imenso potencial de expansão e comparativamente limpa. Ela gera resíduos em volume pequeno e administrável. Trata-se também de uma frente de desenvolvimento tecnológico com outras aplicações, além da energética. O país deveria continuar no jogo – mas ciente de que ele se tornou mais sério.
(globo)