Andando por cidades como São Paulo e Brasília, é impossível não
notar como os carros elétricos estão ganhando espaço nas ruas. Lideradas pela
BYD e a GWM, as vendas dos elétricos acabam de atingir 50 mil unidades por mês
no país, levando os analistas do Citi a se debruçar sobre uma questão cada vez
mais premente: como isso afetará o mercado de combustíveis e as empresas do
setor?
A conclusão é que o impacto “já é real e crescente” apesar de
ainda modesto. No longo prazo, porém, o tema deveria acender “uma luz amarela”
para empresas como Vibra e Ultrapar, além de grupos de etanol como São
Martinho, Jalles e Adecoagro.
“Em 2025, estimamos que os veículos elétricos (EVs) substituíram
cerca de 0,7 bilhão de litros (em uso de etanol e gasolina), só 1% da demanda doméstica”,
escreve a equipe liderada por Gabriel Barra. “Mas a dinâmica sugere que isso
deve acelerar, e o mercado pode estar subestimando o quão rápido um ponto de
inflexão está se aproximando”.
O Citi projeta que o deslocamento de demanda poderia atingir 5
bilhões de litros em 2030, ou 8% do consumo de gasolina e etanol em seu
cenário-base, saltando para 9 bilhões de litros em 2040, ou 14% do total.
Isso poderia fazer a demanda por esses combustíveis ter seu pico
em 2026, iniciando uma ligeira retração que levaria os volumes em 2040 para 8%
abaixo do nível atual. Em um cenário mais agressivo, de penetração mais forte
dos EVs, o uso de gasolina e etanol poderia cair em 2040 para 27% abaixo do
pico.
A aceleração do movimento, principalmente após 2030, chama a
atenção mais do que os números em si, disseram os analistas do Citi, sugerindo
que o impacto sobre o setor de combustíveis será gradual, mas “se tornará
estrutural ao longo do tempo”.

As projeções levam em conta uma penetração dos carros elétricos no
país chegando a 47% das novas vendas em 2035, em linha com a média global. Um
cenário de adoção mais rápida, usando a China como referência, poderia levar
essa participação a 68% no período.
A
demanda brasileira por gasolina e etanol só seguiria crescendo em um cenário
mais conservador, em que a adoção dos elétricos estagnaria em 10% das novas
vendas a partir de 2030.
O efeito sobre o uso dos combustíveis é gradual porque as vendas
de novos EVs demoram para se refletir na frota total, um fenômeno visto em
todos os países, até na China. Lá, 55% dos carros que saem das lojas são EVs,
porém a penetração na frota é de 13% – um nível que o Brasil deve alcançar só
em 2040.
Além disso, o mix de vendas no Brasil é principalmente de híbridos
plug-in, o que significa que o deslocamento da demanda de combustíveis é menor
que em outros países em que a adoção dos 100% elétricos é maior.
O Citi ainda incluiu em suas contas o recente aumento da tarifa de
importação de elétricos para 35%, embora avaliando que a estratégia de players
como a BYD, que investiu em uma fábrica local, pode compensar a maior parte do
impacto da taxação.
A tendência, assim, é que o crescimento dos elétricos mude a
relação entre o consumo de gasolina e etanol e o PIB no país, com a demanda pelos
combustíveis passando a cair mesmo com a economia crescendo.
Isso inclusive já começa a ser visível em algumas cidades – em
Brasília, por exemplo, a segunda capital com maior participação de elétricos
nas vendas, a demanda por etanol e gasolina recuou em 2025. Em São Paulo, a
líder em EVs, e no Rio de Janeiro ela tem ficado estável e abaixo dos picos já
registrados.

“No longo prazo, uma mudança estrutural está a caminho”,
escreveram os analistas. “O cenário não é bom para a demanda”. (biodieselbr)
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