O Desequilíbrio entre Oferta
e Demanda
• Horários de pico: A maior
parte da energia solar surge entre 10h e 14h, período em que o consumo costuma
ser menor.
• Fins de semana: O excesso
de oferta fica ainda mais visível aos sábados e domingos, quando fábricas e
comércios reduzem as atividades.
• Cortes de energia
(curtailment): Para evitar falhas, o Operador Nacional do Sistema (ONS) precisa
ordenar o corte de outras fontes de energia para equilibrar a rede.
Impacto nas Contas de Luz
• Subsídios: A expansão dos
painéis solares gera custos repassados para a Conta de Desenvolvimento
Energético (CDE), estimada em R$ 52,7 bilhões para 2026.
• Divisão de custos: Parte
desses encargos acaba transferida para consumidores que não possuem painéis em
casa.
Desafios Técnicos da Rede
• Fluxo invertido: O excesso
de energia gerada em bairros com muitos painéis pode voltar para os níveis mais
altos da rede de distribuição.
• Crescimento contínuo: A
capacidade instalada desse modelo pode saltar de 40 GW (gigawatts) em 2025 para
78 GW em 2035, exigindo redes inteligentes e sistemas de armazenamento.
Em 23/08/2026 o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou, pela segunda vez, um mecanismo para reduzir o descompasso entre geração e consumo de energia.
Super oferta de energia solar provoca sobrecarga no sistema elétrico brasileiro e obriga desligamento de usinas.
O Brasil tem 4,6 milhões de
consumidores que também são micro ou mini geradores de energia. Eles
representam cerca de 5% do total de consumidores e produzem energia no próprio
local de consumo ou bem próximo a ele.
Residências, estabelecimentos
comerciais e propriedades rurais estão entre os locais que geram a própria
energia por meio dos painéis solares.
A chamada geração distribuída
mudou a cara da matriz energética brasileira, com incentivos à expansão das
fontes renováveis de energia (leia detalhes abaixo).
Por outro lado, ela impôs
desafios ao sistema elétrico, que precisa manter, a cada instante, o equilíbrio
entre a quantidade de energia produzida e a quantidade de energia consumida.
As energias renováveis, que
incluem a solar e também a eólica, são fontes de eletricidade cuja geração
depende de condições naturais, que não necessariamente coincidem com a
necessidade de consumo de energia.
Por essa característica, elas
são conhecidas como intermitentes. Períodos de elevada geração de energia podem
contrastar com períodos de baixa demanda por energia, principalmente aos fins
de semana.
Em determinados horários,
pode haver mais energia sendo produzida do que o sistema consegue absorver
naquele momento. Como a energia não pode ser armazenada em larga escala para
ser consumida depois, o ONS precisa adotar medidas para equilibrar geração e
consumo e preservar a segurança da operação.
Em 23/08/26 o Operador
Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou, pela 2ª vez, um mecanismo para
reduzir esse descompasso.
O operador determinou que as distribuidoras cortassem cerca de 1 gigawatt (GW) de geração entre 11h e 13h30. Situação semelhante já havia ocorrido em junho, quando o instrumento foi acionado pela primeira vez.
Incentivo à geração distribuída
A expansão da geração
distribuída está relacionada, segundo especialistas e entidades ouvidas pelo
g1, ao incentivo dado àqueles que optam pela instalação dos painéis solares.
De forma geral, o consumidor
paga pela energia que consome, pelo custo da transmissão e pelos investimentos
que uma distribuidora faz para montar a rede de distribuição.
Mas quem gera a própria
energia não paga pela distribuição como os demais consumidores.
O Marco Legal da Geração
Distribuída, sancionado em 2022, estabeleceu que esse benefício vale até 2045
para quem solicitou o serviço até janeiro de 2023.
Para quem fez a adesão
depois, a lei fixou dois grupos de transição, dependendo da data da adesão
(veja aqui).
De forma gradual, o
consumidor passou a ter uma cobrança pelo uso da infraestrutura elétrica quando
ele injetar energia na rede.
Para Clauber Leite, diretor
de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética, os
subsídios ajudaram a viabilizar a transformação da matriz energética
brasileira, mas passaram a representar um desafio para o setor e um peso
relevante na conta de luz.
"Para se ter uma ideia,
a Aneel estimou a CDE [Conta de Desenvolvimento Energético] em R$ 52,7 bilhões
para 2026, sendo cerca de R$ 47,8 bilhões pagos diretamente via tarifa. A parte
ligada à expansão da GD [geração distribuída] e a outros subsídios é o ponto
mais sensível do debate, porque transfere custos para consumidores que, muitas
vezes, não têm condições de instalar painéis", contextualiza.
A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) financia políticas públicas do setor, entre elas, o incentivo à geração distribuída. Os recursos vêm da União e, principalmente, dos consumidores, por meio dos encargos incluídos na conta de luz.
Cortes de geração
Especialistas ouvidos pelo g1
afirmam que os cortes de geração para equilibrar oferta e demanda já são uma
ocorrência rotineira no sistema elétrico brasileiro. Eles tendem a ser mais
frequentes nas horas de maior geração solar e nos fins de semana, quando a
demanda por energia costuma ser menor, especialmente por causa da redução das
atividades comerciais e industriais.
Segundo Roberto Brandão,
diretor técnico-científico do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mesmo quando o ONS reduz a
geração de fontes que consegue controlar, como hidrelétricas e termelétricas,
ainda pode haver excesso de oferta.
“O ONS tende a reduzir a
geração hídrica ao mínimo, a térmica ao mínimo, mas, mesmo assim, tem mais
geração do que consumo e vai cortando. Corta eólica, corta solar,
centralizada”, explica Brandão.
Nesses momentos, o ONS
precisa agir para evitar problemas na operação do sistema. A atuação afeta as
chamadas usinas tipo III, que normalmente não são despachadas diretamente pelo
ONS.
“São geradores que normalmente não são despachados pelo ONS. (O operador) não tem poder de reduzir a geração desses geradores. Então, montou-se um esquema para que as distribuidoras, que são quem efetivamente recebem essa geração, organizem o corte”, acrescenta ele.
Prejuízos ao setor
A consultoria Volt Robotics
estimou que, em 2025, os prejuízos decorrentes dos cortes na geração de energia
solar e eólica somaram R$ 6,5 bilhões.
Para Joisa Dutra, do Centro
de Estudos em Regulação e Infraestrutura (Cebi) da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), o excesso de energia e a consequente necessidade de cortes na geração
comprometem o retorno dos investimentos realizados no setor. Segundo ela, o
cenário provoca perdas financeiras relevantes e, em alguns casos, pode
dificultar o cumprimento das obrigações assumidas por investidores.
“Com isso, esses investimentos têm os seus retornos comprometidos. Isso já se traduz em perdas financeiras importantes e, em alguns casos, em dificuldades para honrar investimentos que foram feitos”, diz a pesquisadora.
O ONS afirmou que avalia medidas para melhorar, no futuro, o equilíbrio entre carga e geração. Entre as ações estão a possibilidade de ampliar o uso de sistemas de armazenamento de energia, o fortalecimento contínuo da infraestrutura de transmissão e a incorporação de novas cargas eletro intensivas, como os data centers, que passam a ter participação crescente no Sistema Interligado Nacional.
A Associação Brasileira de
Energia Eólica (ABEEólica) defende a adoção de sinais econômicos horários nas
tarifas das distribuidoras e a exigência de mecanismos de supervisão e controle
para consumidores com geração distribuída. A entidade cita ainda a restrição de
novos acessos em áreas com capacidade esgotada e a instalação de sistemas de
armazenamento no SIN.
Outra frente apontada pela associação é o estímulo ao aumento da demanda por eletricidade. Entre as medidas defendidas estão a eletrificação da indústria, a expansão da mobilidade elétrica, o crescimento dos data centers e o desenvolvimento do hidrogênio verde.
Geração de energia no telhado virou um problema com subsídio alimentando uma crise que só faz aumentar a conta de energia.
Brasil incentivou a
autogeração, mas não estabeleceu regras e volume gerado já atrapalha setor de
energias renováveis e seus altos investimentos. (g1)







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