Dados
da Agência Internacional de Energia mostram que custos de energia solar caíram
90% na última década, desmontando narrativa de que renováveis encarecem conta
de luz do consumidor.
Enquanto
a indústria fóssil alega que fontes limpas encarecem a conta de luz, dados
mostram exatamente o oposto
A
produção de eletricidade, no fim das contas, obedece a princípios econômicos
bastante simples. Para o consumidor que recebe sua conta de luz no final do
mês, pouco importa se a energia que alimenta sua casa veio de uma hidrelétrica,
de painéis solares ou de uma usina a carvão. O que realmente pesa no bolso é o
valor da fatura.
É
precisamente neste ponto que reside uma das narrativas mais persistentes — e
enganosas — do debate energético contemporâneo. A indústria de combustíveis
fósseis vem repetindo há anos que a transição para energias renováveis
inevitavelmente resultaria em contas mais caras para o consumidor final.
Trata-se de uma afirmação que não resiste aos dados, mas que, através da
repetição insistente, consegue influenciar a opinião pública e enfraquecer o apoio
político às políticas de descarbonização.
A
realidade dos números
A
verdade inconveniente, para os defensores do modelo energético do século
passado, é que as energias renováveis se tornaram não apenas competitivas, mas
frequentemente mais baratas que suas contrapartes fósseis. Segundo dados
recentes da Agência Internacional de Energia, o custo da energia solar
fotovoltaica caiu cerca de 90% na última década, enquanto a eólica terrestre
registrou quedas superiores a 70% no mesmo período.
Muito
além do preço imediato
A
comparação honesta entre fontes fósseis e renováveis precisa considerar não
apenas o custo direto de geração, mas também as chamadas externalidades —
impactos que não aparecem diretamente na conta de luz, mas que a sociedade paga
de outras formas.
Poluição atmosférica, mudanças climáticas, custos com saúde pública, relacionados à qualidade do ar e degradação ambiental, são apenas alguns dos “custos ocultos” da energia fóssil que, se contabilizados, tornam as renováveis ainda mais vantajosas economicamente. Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional estimou que os subsídios globais aos combustíveis fósseis, incluindo essas externalidades não contabilizadas, ultrapassam US$ 7 trilhões anuais.
Fontes renováveis serão suficientes para resolver a crise global de energia?
A
máquina da desinformação
Diante
dessa realidade econômica desfavorável, setores ligados aos combustíveis
fósseis investem pesadamente em campanhas de comunicação que distorcem os
fatos. A estratégia é familiar: semear dúvidas, exagerar desafios técnicos
solucionáveis e, principalmente, repetir a mensagem de que renováveis são caras
até que ela se torne uma “verdade” aceita.
Essa
repetição incessante funciona. Mesmo quando confrontadas com evidências
contraditórias, narrativas repetidas com frequência suficiente tendem a ser
aceitas como verdadeiras — um fenômeno psicológico bem documentado conhecido
como “efeito da mera exposição” ou “ilusão da verdade”.
O resultado prático dessa desinformação sistemática é devastador para os esforços de transição energética. Políticos hesitam em apoiar políticas de descarbonização por medo de serem acusados de aumentar custos para a população. Investimentos em infraestrutura renovável são adiados. Subsídios a combustíveis fósseis permanecem intocados, sob o argumento falacioso de “proteger o consumidor”.
Desafios na área de energias renováveis
Transparência
e informação como resposta
Combater
essa narrativa exige mais do que simplesmente apresentar dados corretos —
embora isso seja fundamental. É necessário um esforço coordenado de comunicação
clara e acessível sobre a economia da energia, capaz de alcançar o cidadão
comum e desmistificar a questão.
Organizações
de defesa do consumidor, meios de comunicação comprometidos com a precisão
factual e instituições acadêmicas têm papel crucial nesse processo. Quando a
população compreende que as energias renováveis não apenas protegem o meio
ambiente, mas também oferecem eletricidade mais barata e estável a longo prazo,
o apoio à transição energética se fortalece naturalmente.
O
caminho à frente
A
transição para uma matriz energética descarbonizada é uma necessidade ambiental
urgente e uma oportunidade econômica cada vez mais evidente. Países e regiões
que investem decididamente em renováveis colhem os benefícios de contas de
energia mais previsíveis e acessíveis, além de maior segurança energética.
Permitir que a desinformação continue a atrasar esse processo não prejudica apenas o clima global, mas também o bolso do consumidor que, ironicamente, a indústria fóssil alega defender. A verdade sobre os custos da energia precisa ser contada com clareza, repetida com insistência e defendida com dados.
Afinal, se há uma lição que o debate energético nos ensina, é que a repetição molda percepções. Está na hora de repetirmos a verdade com a mesma persistência com que a desinformação tem sido disseminada: energias renováveis são mais baratas, mais limpas e representam o futuro inevitável e desejável da produção de eletricidade. (ecodebate)





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