sábado, 2 de abril de 2011

Japão diverge sobre radiação em Fukushima

Novo tremor leve na região da tragédia provoca alerta de tsunami, suspenso após duas horas.
Para governo, a contaminação em reator supera em 10 milhões de vezes o normal; empresa nega.
A Agência de Segurança Nuclear japonesa declarou ontem que os níveis de radiação na água localizada perto do reator 2 da usina nuclear de Fukushima estavam 10 milhões de vezes acima do normal. A Tokyo Electric Power Company (Tepco), empresa que controla a usina, negou a informação e em seguida admitiu: não sabe o grau exato de contaminação.
A empresa nega a contaminação da água, mas diz que os dados são imprecisos, ainda que não saiba precisar qual é exatamente o nível de contaminação. Em seu site, a Tepco informa que houve um erro “na avaliação da medida do iodo- 134”.
O relatório inicial afirma que o trabalhador responsável pela medição, conduzida em uma pista localizada no porão onde fica a turbina do reator, teria fugido antes de fazer uma segunda leitura. A descoberta do trabalhador levou a outra evacuação do local, parando o trabalho de bombeamento e armazenamento de água radioativa acumulada nos prédios de três dos seis reatores.
Depois, a Tepco disse que a piscina de água havia sido contaminada com radiação, mas que a leitura de radiação que dava conta de índices extremamente altos era um erro. De acordo com o porta-voz da empresa, Takashi Kurita, “o número não é crível”. “Sentimos muito” , disse, informando ainda que outras amostras estão sendo coletadas para apurar com mais precisão quais são os reais níveis de contaminação. Kurita disse não saber quando os resultados seriam anunciados.
As evidências de que havia perigo de contaminação no reator 2 da usina nuclear de Fukushima surgiram dias depois que três trabalhadores foram expostos a altos níveis de radiação enquanto consertavam um sistema de resfriamento no reator 3. Dois dos três homens foram queimados por raios beta depois de andarem dentro da água com níveis de radiação bem acima do normal - os trabalhadores devem receber hoje alta do hospital.
A divergência em 27/03 fez oficiais japoneses e executivos da Tepso serem ainda mais pressionados a dar informações precisas e rápidas. Governo e empresa têm sido criticados.
No fim de semana, houve pequenos progressos na remoção de água contaminada e resfriamento dos reatores com água doce, em vez da corrosiva água do mar, como vinha sendo feito. Mas Yukiya Amano, diretor geral da Agência de Segurança Nuclear japonesa, alertou que a situação de emergência deve continuar por semanas, possivelmente meses. "É um acidente muito grave. E ainda não acabou", disse Amano ao The New York Times.
Estado de alerta
Enquanto governo e empresa não chegam a um consenso sobre os níveis de radiação, os japoneses sofrem com novos e frequentes tremores, que apesar da baixa intensidade, obrigam a população a retomar as precauções contra outro desastre.
Na noite de 27/03 (horário de Brasília), um terremoto de magnitude 6,5 na escala Richter atingiu o nordeste do país, levando a Agência Meteorológica do Japão a lançar um alerta de tsunami iminente na região de Miyagi, uma das mais devastadas pelo terremoto de 11 de março. Não houve relatos de feridos ou outros danos. O comunicado foi liberado às 7h23 hs da manhã de 27/03, pelo horário japonês. Eram esperadas ondas de cerca de meio metro. Por isso, o alerta de tsunami foi cancelado às 9h05 do horário local.
O tremor ocorreu a 5,9 km de profundidade, nas proximidades da costa de Honshu, segundo informou a agência geológica americana (USGS, na sigla em inglês), que registra os terremotos ocorridos pelo mundo.
Reação do governo é reprovada por 57,9% dos japoneses
A agência de notícias Kyodo divulgou em 27/03 uma pesquisa que mostra que 58,2% dos japoneses entrevistados desaprova o jeito que o governo japonês tem respondido à crise nuclear, contra 39,3% da população favorável às medidas. A pesquisa aponta ainda que 57,9% dos entrevistados aprovam a maneira como o país tem ajudado as vítimas do terremoto e do tsunami. (OESP)

Após Fukushima, termelétricas são a nova ‘aposta’

Após o desastre nuclear de Fukushima as termelétricas a gás natural são a nova ‘aposta’
O gás natural pode estar vivendo um momento muito favorável, agora que as fontes de energia concorrentes estão em uma fase ruim.
Os graves problemas da usina nuclear acidentada no Japão fizeram com que surgissem novas dúvidas quanto à segurança da energia nuclear. Após a explosão da plataforma da BP no ano passado, não houve novas iniciativas para a exploração de petróleo no Golfo do México. E existe um sentimento negativo em relação às usinas termoelétricas movidas a carvão porque elas contribuem para o aquecimento global.
Enquanto isso, o gás natural superou dois dos seus maiores obstáculos – os preços voláteis e as incertezas quanto às reservas. Os preços do gás natural têm se mantido em patamares relativamente baixos nos últimos dois anos, em grande parte porque as novas descobertas nos Estados Unidos e no exterior provocaram um aumento significativo das reservas conhecidas.
É muito cedo para afirmar com certeza se os acontecimentos calamitosos no Japão poderão atrapalhar o renascimento em escala global da energia nuclear e provocar uma corrida ao gás natural. E é igualmente cedo para dizer se as autoridades responsáveis pela política nuclear estão apenas aparentando ter controle sobre as questões de segurança desde que teve início o atual desastre nuclear japonês.
Mesmo assim, como existe a previsão de que a demanda global por energia terá um crescimento de dois dígitos nas próximas décadas, os analistas estão antecipando uma nova explosão do consumo de gás natural. Tendo em vista as preocupações crescentes quanto à energia nuclear e a necessidade de reduzir as emissões de carbono, o banco Societe Generale afirmou que o gás natural é a “escolha restante” como combustível.
“Em última análise, quando nos debruçamos sobre a equação de risco e benefício, o gás natural emerge como o combustível vitorioso”, diz Lawrence J. Goldstein, economista da Fundação de Pesquisas de Políticas Energéticas. “É um verdadeiro nocaute técnico”.
Os mercados financeiros já começaram a registrar alterações de preços devido a este novo interesse pelo gás natural. Após o desastre no Japão, o preço do urânio sofreu uma queda de 30%, enquanto que os preços do gás na Europa e nos Estados Unidos registraram uma alta de cerca de 10%. Autoridades de diversos países, incluindo a China, a Alemanha, a Finlândia e a África do Sul, disseram que reavaliarão as suas estratégias nucleares.
As empresas de eletricidade também estão reconsiderando o papel do gás natural na produção de energia elétrica estável, uma função que historicamente é desempenhada pelo carvão e pela energia nuclear. Os executivos do setor de energia elétrica vinham se mostrando temerosos em relação às flutuações dos preços do gás natural, especialmente das duas últimas décadas.
Mas esta situação pode estar prestes a mudar, segundo John Rowe, diretor da Exelon, a maior empresa de energia nuclear dos Estados Unidos. Ele argumenta que uma usina de energia nuclear seria proibitivamente cara, enquanto que novas regras que limitam as emissões de carbono, baixadas pela agência de Proteção Ambiental, fariam com que fossem necessários altos investimentos para a redução das emissões das usinas termoelétricas movidas a carvão. Isso significa que as companhias de energia elétrica farão cada vez mais uma transição para o gás natural.
“O gás natural impera”, disse Rowe em uma palestra no Instituto Americano de Empreendimento, neste mês, em Washington, D.C.
Essa opinião é endossada por um relatório que deverá ser divulgado nesta terça-feira (22/03) pelo Centro de Políticas Bipartidárias e pela Fundação American Clean Skies, que prevê que o consumo de gás natural aumentará devido a uma abundância de novas reservas, incluindo nos Estados Unidos, algo que provavelmente manterá os preços relativamente baixos.
A produção mundial de gás natural aumentou 44% nas duas décadas decorridas entre 1990 e 2010, enquanto que as reservas de gás cresceram 67%. Após ter atingido um valor máximo de US$ 13,58 por mil pés cúbicos em 2008, o preço do gás nos Estados Unidos caiu para uma média de US$ 4,38 no ano passado. Além do mais, o gás natural emite apenas a metade do dióxido de carbono emitido pelo carvão quando este é queimado para a produção de um quilowatt hora de eletricidade.
O mercado imediato para o gás natural provavelmente será o próprio Japão, que está desesperado para aumentar as suas importações de combustível depois que um quinto da sua capacidade nuclear ficou paralisada, incluindo a problemática usina de Fukushima Daiichi.
O Japão já importa um terço do gás natural liquefeito global e os seus terminais de importação, sobremaneira os do sul, não foram danificados pelo terremoto. A energia nuclear e o carvão respondem por um quarto da geração de energia elétrica no Japão, enquanto que o gás natural responde por 30%, de acordo com analistas da companhia financeira Raymond Jones.
“É possível que o terremoto de Honshu venha a ser o catalisador que remodelará fundamentalmente a nossa abordagem em relação à energia global”, opinaram na semana passada os analistas da Bernstein Research.
Muitas companhias petrolíferas anteciparam essa mudança. Na Royal Dutch Shell, a produção de gás natural superou a de petróleo nos últimos anos. A ExxonMobil adquiriu a XTO Energy no ano passado a fim de aumentar a sua presença no mercado crescente de gás de xisto. A companhia também instalou projetos significativos de exploração de gás em Qatar, que possui as terceiras maiores reservas de gás natural do mundo, depois da Rússia e do Irã.
Novos projetos de grande dimensão dedicados ao gás natural liquefeito – nos quais o gás é congelado, comprimido no estado líquido para maior facilidade de transporte, e a seguir transformado novamente em gás nos terminais de importação – têm se multiplicado por todo o mundo nos últimos anos. Na Papua Nova Guiné, a Exxon está liderando um projeto no valor de US$ 15 bilhões (R$ 25 bilhões) para a construção e o desenvolvimento de uma unidade de gás natural liquefeito para abastecer clientes na Ásia. A Chevron recentemente deu início aos trabalhos de engenharia do projeto de gás Gorgon, no valor de US$ 40 bilhões (R$ 66,7 bilhões), na Austrália, juntamente com a Shell e a Exxon. Já a Rússia está pretendendo explorar novos e enormes campos de gás no Ártico.
Mas o gás natural também tem os seus problemas. Para extrair metano das duras rochas de xisto nos Estados Unidos, as companhias de energia utilizam o fraturamento hidráulico, um método que é criticado por poluir as fontes de água, incluindo rios e aquíferos subterrâneos.
Mas é preciso que a política energética encontre um equilíbrio entre esses perigos e as preocupações públicas quanto à energia nuclear, além de levar em conta o problema ainda não solucionado referente ao que fazer com o combustível nuclear usado que permanece radioativo durante centenas de anos.
“A energia nuclear de repente deixou de ser uma parte da solução para uma futura estrutura de energia verde e tornou-se uma perigosa relíquia da guerra fria”, declarou na semana passada, em um relatório, o Deutsche Bank.
Nos Estados Unidos, onde nenhum novo reator foi construído desde o acidente na usina de Three Mile Island, em 1979, o atitude em relação à energia nuclear tem sido ambivalente. No ano passado, o presidente Barack Obama pediu ao Departamento de Energia que fornecesse algum suporte financeiro para operações nucleares, incluindo dois reatores que deveriam ser construídos no Estado da Geórgia.
Mas, após o desastre japonês, o governo norte-americano ordenou uma ampla reavaliação da segurança das usinas nucleares.
Ao mesmo tempo, a indústria nuclear tem constatado que é quase impossível construir e financiar novas usinas. Em dezembro do ano passado, por exemplo, a Exelon cancelou a sua proposta para a construção de uma usina nuclear no Condado de Victoria, no Estado do Texas, devido à oposição da população local.
As companhias de energia elétrica também têm enfrentado dificuldades para a renovação das suas licenças de operação existentes. A Estação de Energia Nuclear Pilgrim, em Plymouth, no Estado de Massachusetts, está aguardando uma nova licença há cinco anos devido aos litígios e atrasos nos tribunais. Autoridades estaduais do Estado de Vermont têm lutado para fechar a usina Vermont Yankee, em Entergy, que começou a operar em 1972.
Existem 104 reatores nucleares nos Estados Unidos, que geram 23% da energia elétrica do país. Segundo a “Bloomberg News”, 20 reatores estão com pedidos pendentes junto aos reguladores federais para ampliarem a vida útil das usinas por até duas décadas.
“É provável que nós façamos em relação às licenças nucleares o mesmo que fizemos com as licenças para exploração de petróleo no mar”, diz Goldstein, da fundação de políticas energéticas. “Nós postergaremos e paralisaremos o processo” . (EcoDebate)

Mentiras em relatórios sobre Fukushima

Tepco teria mentido nos relatórios de controle sobre complexo nuclear de Fukushima
Administradora Tokio Eletric Power divulga foto de funcionários trabalhando para reparar prédio de reator danificado após terremoto e tsunami
Dez dias antes do acidente na central nuclear de Fukushima, a companhia Tokyo Electric Power (Tepco), operadora da usina, admitiu que havia mentido nos relatórios de controle de suas instalações.
Dez dias antes do terremoto seguido de tsunami que arrasou o nordeste do Japão e danificou gravemente a central nuclear de Fukushima 1, a Tepco entregou às autoridades um documento no qual confessava ter manipulado os dados de controle de manutenção.
A empresa afirmava que havia inspecionado cerca de 30 peças que, na verdade, não foram checadas.
A Tepco disse que, em 11 anos, não inspecionou a peça que alimenta uma válvula de controle da temperatura do reator, apesar dos técnicos, que se contentaram em fazer apenas controles rotineiros, garantirem o contrário.
Outras peças, cujo controle não é necessariamente obrigatório, tampouco foram submetidas a uma inspeção exaustiva, sobretudo as partes ligadas ao sistema de resfriamento e ao fornecimento elétrico de emergência.
As autoridades solicitaram o relatório à Tepco justamente para saber se o procedimento padrão de segurança estava sendo respeitado.
“O plano de controle das instalações e a gestão da manutenção eram inapropriados”, concluiu a Agência de Segurança Nuclear, que assegurou que “a qualidade das inspeções era insuficiente”.
Antes da catástrofe, a agência reguladora do setor havia alertado a Tepco, exigindo uma mudança de comportamento e a aplicação de um novo plano de manutenção antes de 2 de junho.
TRAGÉDIA
A tragédia de 11 de março provocou a parada dos seis reatores da central Fukushima 1, interrompeu a alimentação elétrica, bloqueou os geradores diesel de emergência e levou ao colapso o sistema de resfriamento.
Esta cadeia de erros gerou uma série de acidentes de gravidade crescente, que as equipes da Tepco ainda combatem com a ajuda do exército e dos bombeiros para evitar que a situação em quatro dos reatores se torne totalmente incontrolável.
“Não é possível dizer em que medida as falhas constatadas sobre a manutenção e o controle das instalações influenciaram ou não a cascata de problemas originados pelo terremoto”, indicou a agência.
Esta prevê abrir uma investigação exaustiva para apurar as causas da hecatombe, uma vez que a crise esteja superada. Neste momento, a prioridade é evitar o pior.
A qualidade da rede de distribuição elétrica da Tepco é, de maneira geral, de boa qualidade, já que os cortes de energia são praticamente inexistentes em Tóquio, cidade que abastece. Mas a imagem da companhia já havia sido borrada no passado por uma série de escândalos.
Em 2002, a Tepco precisou interromper temporariamente o funcionamento de seus 17 reatores nucleares de água quente (BWR), dois deles na central de Fukushima, para uma inspeção, após uma denúncia de maquiagem nos relatórios.
O caso custou o cargo do diretor geral e de seu braço direito. . (EcoDebate)

Localização de Fukushima foi o maior erro

O maior erro de Fukushima é a localização de Fukushima
Mapa mostra local de usina em Fukushima
As centenas de especialistas nucleares, que durante anos teorizaram sobre a energia atômica, minimizaram algo que era uma obviedade: que na costa japonesa, além de terremotos, poderia haver tsunamis. Só dessa maneira se explica a construção de seis reatores semi-enterrados abaixo do nível do mar. Esse foi, segundo os engenheiros nucleares consultados, o grande erro de Fukushima. Isso, sem entrar na conveniência ou não de usar a energia nuclear.
“O erro foi colocar seis centrais à beira do mar, na altitude zero. Ao ser um enorme bloco encima, piorou o impacto do tsunami”, opina Antoni Tahull, engenheiro industrial. Este explica que o reator de Vandellòs II, na costa de Tarragona, está 21 metros acima do nível do mar.
Como foi possível colocar uma planta ali? Eduardo Gallego, professor de engenharia nuclear da Universidade Politécnica de Madri, declarou que “houve um excesso de confiança ao avaliar os riscos. Possivelmente, não levaram em conta que os registros históricos eram insuficientes”.
Os engenheiros e físicos nucleares insistem em que a central suportou o terremoto de magnitude 9. Após o terremoto, os reatores 1, 2 e 3 pararam, como estava previsto. Para isso, barras de controle são introduzidas automaticamente no núcleo. Com o terremoto, a planta ficou sem energia elétrica, mas, até aí tudo bem; passou a entrar em ação a refrigeração de emergência, produzida por geradores a diesel.
Até que veio o tsunami, que inutilizou os geradores a diesel utilizados para refrigerar uma central no caso de que fique sem energia elétrica. Esses geradores mostraram ser vitais. Apesar disso, não estavam suficientemente protegidos. “Além da localização, é óbvio que o sistema de refrigeração é muito vulnerável”, afirma Francisco Castejón, físico nuclear e membro de Ecologistas em Acción. Luis Echávarri, diretor da Agência Nuclear da OCDE, admitiu esta semana que uma das lições de Fukushima devia ser a melhoria na proteção desses geradores.
Sem refrigeração no núcleo, começaram a acumular vapor radioativo. Para aliviar a pressão, a empresa começou as ventilações, manobras para liberar gases. A ideia é que se trata de um mal menor, que é melhor liberar gases radioativos de forma controlada do que deixar que a pressão no núcleo aumente de forma incontrolada, o que poderia levar a uma explosão muito mais trágica.
Contudo, a central de Fukushima revelou um problema no sistema de ventilações. Entre os gases que saem está o hidrogênio, que explode em contato com o oxigênio do ar. Mas os gases não saíam diretamente para fora da central, mas ficaram presos entre o edifício do reator e a contenção, a carcaça que rodeia o núcleo do reator. Esse hidrogênio explodiu, como era previsível. Mas aconteceu dentro do edifício do reator. Isso causou as três explosões que destroçaram as centrais e que dificultam agora a colocação em marcha dos sistemas de refrigeração. Nos reatores 5 e 6, o Japão fez buracos nos edifícios antes que explodissem.
Além disso, acima do núcleo deste tipo de usinas nucleares estão as piscinas com combustível usado, altamente radioativo. As explosões deixaram as piscinas ao ar livre – foi possível fotografá-las desde o helicóptero militar com o qual desesperadamente tentavam refrigerar a planta. A situação das piscinas acima do núcleo e fora da contenção é outro ponto, no mínimo, discutível.
Fukushima colocou em evidência também as fragilidades do sistema internacional de comunicação. No sábado, o Conselho de Segurança Nuclear espanhol, que recebe a informação do Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA), informou que Fukushima tinha uma enorme piscina de combustível usado dos seis reatores “sobre o qual não se havia dado informações até agora”. O Japão deu informações imprecisas e com atraso, o que gerou mal-estar nos países da OIEA. (Ecodebate)

Fukushima: Uma advertência ao mundo

Desastre Nuclear em Fukushima: Uma advertência ao mundo
Uma advertência ao mundo
Ao descrever a devastação em uma cidade do Japão, um jornalista escreveu: “Parece que um trator gigante passou por cima e arrasou tudo o que existia ali. Como uma advertência ao mundo”. O jornalista era Wilfred Burchett, que escrevia de Hiroshima, Japão, em 05 de setembro de 1945. Burchett foi o primeiro jornalista do Ocidente a chegar a Hiroshima depois que a bomba atômica foi lançada. Ele informou a respeito de uma doença estranha que seguia matando pessoas, inclusive um mês após esse primeiro e letal uso de armas nucleares contra seres humanos. Suas palavras poderiam perfeitamente estar descrevendo as cenas de aniquilação que acabam de acontecer no nordeste do Japão. Devido ao agravamento da catástrofe na central nuclear de Fukushima, a advertência de Burchett ao mundo segue hoje mais que vigente.
O desastre tornou-se pior com o episódio do complexo nuclear de Fukushima depois do maior terremoto na história do Japão, e do tsunami que o sucedeu, responsável por milhares de mortos. As explosões nos reatores de número 1 e 3 liberaram radiação a um nível tal que foi medida por um navio militar dos Estados Unidos a uma distância de 160 quilômetros, o que obrigou a embarcação a afastar-se da costa. Uma terceira explosão sucedeu no reator número 2, motivando muitos a especularem que o contêiner primário, onde se mantém o urânio submetido à fissão nuclear e de vital importância, tinha-se danificado. Pouco depois o reator número 4 se incendiou, apesar de não estar funcionando quando o terremoto açoitou o país. Cada reator também utiliza o combustível nuclear armazenado em seu interior, e esse combustível pode provocar grandes incêndios, liberando mais radiação no ar. Todos os sistemas de esfriamento falharam, bem como os sistemas de segurança adicionais. Uma pequena delegação de valentes trabalhadores permanece no lugar, apesar da radiação que pode ser letal, tratando de bombear água do mar nas estruturas danificadas para esfriar o combustível radiativo.
O Presidente Barack Obama assumiu a iniciativa de liderar um “renascimento nuclear” e propôs novas garantias de empréstimos federais de 36 bilhões de dólares para promover o interesse das empresas de energia na construção de novas plantas nucleares (o que se soma aos 18,5 bilhões de dólares que foram aprovados durante o governo de George W. Bush). A primeira empresa de energia que esperava receber esta dádiva pública foi a Southern Company, por dois reatores anunciados para o estado da Georgia. A última vez que se autorizou e conseguiu levar a cabo a construção de uma nova planta de energia nuclear nos Estados Unidos foi em 1973, quando Obama estava na sétima série da Escola Punahou, em Honolulu. O desastre de Three Mile Island em 1979 e o de Chernobyl em 1986 efetivamente encerraram a possibilidade de avançar em novos projetos de energia nuclear com objetivos comerciais nos Estados Unidos. No entanto, este país segue sendo o maior produtor de energia nuclear comercial no mundo. As 104 plantas nucleares habilitadas são velhas, e aproximam-se do fim de sua vida útil originalmente projetada. Os proprietários das plantas estão solicitando ao governo federal estender suas licenças para operar.
A Comissão de Regulação Nuclear (NRC, na sua sigla em inglês) é responsável por outorgar e controlar estas licenças. No dia 10 de março, a NRC emitiu um comunicado para a imprensa “sobre a renovação da licença operativa da Planta de Energia Nuclear Vermont Yankee, próximo de Brattleboro, estado de Vermont, por mais vinte anos. Está previsto que o pessoal da NRC logo expedirá a licença renovada”, dizia a nota. Harvey Wasserman, de NukeFree.org, me disse: “O reator número 1 de Fukushima é idêntico ao da planta de Vermont Yankee, que agora está à espera de renovar sua licença e que o povo de Vermont pretende fechar. É importante saber que este tipo de acidente, este tipo de desastre, poderia ocorrer em quatro reatores em Califórnia, se o terremoto de 9.0 graus da escala Richter açoitasse o Canhão do Diabo em San Luis Obispo ou San Onofre, entre Los Angeles e San Diego. Poderíamos, perfeitamente, sermos agora mesmo testemunhas da evacuação de Los Angeles ou San Diego, se este tipo de desastre tivesse ocorrido na Califórnia. E, por suposto, Vermont tem o mesmo problema. Há 23 reatores nos Estados Unidos que são idênticos ou quase idênticos ao reator número 1 de Fukushima”. A maioria dos habitantes de Vermont, entre eles o governador do estado, Peter Shumlin, apoia o fechamento do reator Vermont Yankee, desenhado e construído pela General Electric.
A crise nuclear no Japão ganhou repercussões mundiais. Houve manifestações em toda Europa. Eva Joly, membro do Parlamento europeu, disse em uma manifestação: “A ideia de que esta energia é perigosa, mas que pode ser controlada acabou-se hoje. E sabemos como eliminar as plantas nucleares: precisamos de energia renovável, precisamos de moinhos, precisamos de energia geotérmica e precisamos de energia solar”. A Suíça interrompeu seus planos de renovar as licenças de seus reatores, e 10.000 manifestantes em Stuttgart incitaram a chanceler alemã Angela Merkel a ordenar o fechamento imediato das sete plantas nucleares alemãs construídas antes da década de ‘80. Nos Estados Unidos, o deputado democrata de Massachusetts, Ed Markey, disse: “O que está acontecendo no Japão neste momento dá indícios de que também pode acontecer um grave acidente em uma planta nuclear nos Estados Unidos”.
A era nuclear começou não muito longe de Fukushima, quando os Estados Unidos se tornaram a única nação na história da humanidade a lançar bombas atômicas em outro país. Duas bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki e mataram centenas de milhares de civis. O jornalista Wilfred Burchett foi o primeiro a descobrir a “praga atômica”, como a chamou: “Nestes hospitais encontro pessoas que quando caíram as bombas não sofreram nenhuma lesão, mas que agora estão morrendo por causa das sequelas. Sua saúde começou a deteriorar-se sem motivo aparente”. Mais de 65 anos depois que o jornalista sentara-se nos escombros com sua velha máquina de escrever Hermes e relatara a advertência ao mundo, o que aprendemos?
Observação e comentário da equipe do portal E&A: É difícil para a humanidade, em qualquer forma de sociedade, não reproduzir a expectativa de um cotidiano duradouro e com níveis aceitáveis de estabilidade. Foi assim no escravagismo nas Américas, que era algo legal e “naturalizado” pelos poderes coloniais e mesmo pós-coloniais estabelecidos; tal o é nas ditadura mais longevas, como esta de Muammar El-Khadafi que está quase ressuscitando em função da pretensão imperial da moribunda OTAN e sua cruzada global em busca de petróleo e derivados; e o mesmo se repete quando temos “desastres” em escala planetária.
Agora nos estarrecemos diante de algo sabido e cujos mitos produzidos pelas indústrias dos bens simbólicos (as corporações midiáticas e as respectivas agências de comunicação integrada, publicidade e relações públicas das transnacionais) não nos deixavam ver. As plataformas de extração de petróleo em águas profundas ou em alto mar são bombas permanentes que, uma vez deteriorado o seu funcionamento, podem destruir tudo ou quase tudo ao seu redor, aniquilando todas as formas de vida em maior ou menor escala, mesmo as sociedades humanas.
E, obviamente, o “desastre” de Fukushima só reitera a máxima de que é impossível pensar seriamente em contenção de danos e redução de perdas em termos de um acidente nuclear. Estamos falando de algo que não é 100% seguro e havendo falhas de distintas ordens, pode exterminar e prejudicar toda a vida ao redor e também a atingida pelo raio de propagação da radiação nuclear. Este tipo de dado, de informação precisa, contundente e irrefutável jamais vai circular com tanto impacto na mídia empresarial, e menos ainda na sinergia das transnacionais na era do capitalismo globalizado.
Assim, como nos ensina os militantes das lutas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a opção pela fonte de energia não é única e, mais importante do que gerar recursos energéticos para as indústrias, é preservar e ampliar formas de vida em respeito a um futuro sustentável. Os efeitos societários de uma barragem gigantesca são terríveis, em especial para as populações tradicionais, originárias, quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e da agricultura camponesa. As consequências são desastrosas quando o modelo de geração de energia polui, altera e afeta as formas de vida do planeta.
No caso da energia nuclear, a lógica é simples. Não é possível desenvolver algo que não se pode controlar caso sua operação falhe. Para quem imaginou o fim do perigo nuclear após a vitória dos EUA na Guerra Fria trata-se de mais uma ilusão de “normalidade”. Ou a soberania popular decide os destinos de uma coletividade, como na escolha dos modelos de desenvolvimento energético, ou sempre seremos reféns das sandices de modelos de negócios em sinergia com a indústria militar. Infelizmente, este pesadelo não começou em Chernobyl e não acabou em Fukushima. O fantasma nuclear precisa ser derrotado. (EcoDebate)