domingo, 28 de fevereiro de 2010

Etanol ganha passaporte para o mundo

Para o executivo, a partir de agora, a maior briga será para derrubar a tarifa de importação dos EUA sobre o combustível.
Quando foi escalado para presidir a maior associação da indústria canavieira do País (a Unica), em junho de 2007, Marcos Jank recebeu a missão de convencer o mundo das vantagens do etanol brasileiro e transformar o produto - que começava ser bombardeado no exterior por ambientalistas - em uma commodity, negociada no mercado internacional. Para cumprir o desafio, ele instalou equipes nos potenciais países consumidores do biocombustível.
A principal delas ficou em Washington para contrata-atacar o lobby dos produtores do etanol de milho, que sempre tentaram desqualificar o produto brasileiro.
Depois de muitos estudos, palestras, discussões e lobby junto ao Congresso americano, eles conseguiram a maior vitória da indústria canavieira nos últimos anos. Na quarta-feira, a Agência Americana de Proteção Ambiental (EPA) classificou o etanol feito de cana como um biocombustível avançado, que reduz a emissão de dióxido de carbono em 61% comparado a gasolina. "Essa decisão nos dá o passaporte para colocar o etanol de cana no mundo", comemora Jank. A seguir trechos da entrevista:
Como o Sr. avalia a decisão?
Foi a principal conquista nesses quase três anos que estou aqui. Isso reflete um trabalho de equipe que foi montado desde o começo da minha gestão, que foi colocar escritórios no exterior. Essas pessoas estão fazendo um trabalho cotidiano. Entre Estados Unidos e Europa, são seis pessoas trabalhando full time nesses assuntos. Sabíamos que o debate seria o combustível de baixo carbono - o que quer dizer uma gasolina ou diesel que ao se adicionar ao etanol ou biodiesel reduz o seu teor das emissões - e que na medida em que passasse nesse teste a gente poderia entrar numa briga mais séria sobre tarifa.
O que vem pela frente agora?
Entramos na terceira fase do etanol, que é o reconhecimento do nosso produto no mundo. Passamos dois anos sendo muito criticados e agora o principal órgão regulador americano - equivalente ao nosso IBAMA, mas com uma estrutura muito maior - nos dá o passaporte para colocar o etanol de cana no mundo. Basicamente o que eles dizem é que o nosso álcool reduz as emissões em 61% comparado à gasolina enquanto o etanol de milho, 21%. O número é três vezes maior que o do milho. Isso incluindo o famigerado uso da terra. Eles não só medem as emissões desde o plantio da cana até o escapamento do carro como também acrescentam o uso direto e indireto da terra. O uso direto é a expansão da cana sobre a floresta, que não existe mais no Brasil. Hoje 99% da expansão da cana no País ocorre em área de pastagem ou áreas agrícolas. Mas eles alegavam que havia um efeito indireto, que quando há o aumento de uma área plantada em Piracicaba, por exemplo, eu empurro o boi para o cerrado ou para a Amazônia.
A decisão finalmente vai transformar o etanol em commodity?
Acho que estamos entrando na fase que será a consolidação do etanol como commodity global. Ganhamos o passaporte para isso. Daqui para frente o nosso futuro não é só substituir petróleo ou abastecer os carros flex brasileiros. Temos a terceira oportunidade que é o reconhecimento do etanol como elemento fundamental de mitigação de gases de efeito estufa no mundo.
Como pôr a decisão americana em pratica?
Primeira coisa importante, e não é por acaso, é que um acordo como esse que foi assinado esta semana entre Shell e Cosan já é reflexo do que ocorreu ontem. São duas notícias interligadas. Já estávamos verificando o interesse das petroleiras pelo etanol. Todas as grandes vieram conversar com a gente. Elas sabem que o etanol que sai da cana é o mais eficiente, que mais reduz emissões e o único comercialmente viável, como afirmou o próprio vice-presidente da Shell. Apesar das outras opções futuras, como etanol de celulose e carro elétrico, hoje concretamente a melhor alternativa é o etanol de cana. Esse passaporte nos abre a porta para o resto do mundo. O que falta agora? Falta derrubar a tarifa americana. Mas, na medida que empresas como BP e a Shell estão investindo nisso, elas ajudam a defender a causa lá fora, com grande poder de persuasão.
Mas quando vamos exportar mais etanol para os EUA?
Com a restrição das tarifas, por enquanto podemos elevar a exportação via Caribe até o limite de 7% do consumo americano. Mas isso tem custo alto. Além disso, não vamos conseguir fornecer uma quantia muito grande de etanol em um ou dois anos. Acho difícil ocorrer muita coisa este ano, até porque tivemos uma quebra de safra de 4 bilhões de litros de etanol. Por isso é importante derrubar a tarifa, porque teríamos previsibilidade de demanda e poderíamos investir no aumento da capacidade. E como se dará o debate da tarifa? A tarifa tem sido renovada pelo lobby do milho desde 1980, quando foi criada como temporária. A próxima renovação teria de ocorrer ao longo deste ano para não expirar em 31 de dezembro. E vão tentar renovar. Existe um discurso nacionalista nos EUA que diz: "Precisamos de segurança energética e não podemos depender do álcool brasileiro".
A decisão da EPA fortalece a consolidação do setor?
A consolidação começou a ocorrer desde a crise financeira e vai continuar intensa. O setor é muito segmentado. Temos 438 usinas nas mãos de 200 grupos econômicos. A tendência é um número menor de empresas com tamanhos cada vez maiores.

Uso de etanol evita emissão de CO2

O uso de etanol em carros flex já evitou emissão de mais de 83 milhões de toneladas de CO2.
O consumo de etanol em carros flex brasileiros, entre março de 2003 e janeiro de 2010, evitou a emissão de 83.548.948 de toneladas de gás carbônico (CO2) na atmosfera.
O consumo de etanol em carros flex brasileiros, entre março de 2003 e janeiro de 2010, evitou a emissão de 83.548.948 de toneladas de gás carbônico (CO2) na atmosfera. Os dados foram registrados pelo "Carbonômetro", ferramenta criada pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) para medir a redução nas emissões de CO2 por carros equipados com motor flex e que utilizam o etanol como combustível.
De acordo com informações divulgadas na primeira semana de fevereiro pela Associação Nacional Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que foram compiladas pela UNICA, em janeiro de 2010 as vendas de carros bicombustíveis representaram 90% das vendas totais de automóveis, que chegaram a mais de 190 mil unidades.
Devido a alterações significativas no mercado de etanol desde outubro de 2009, os cálculos do Carbonômetro a partir de janeiro de 2010 utilizam nova base de consumo de etanol para veículos flex, definida temporariamente como 80% de consumo de gasolina tipo C e 20% de etanol. "Oportunamente essa relação será revista de modo a representar a dinâmica do mercado", explica Alfred Szwarc, consultor de emissões e tecnologia da UNICA.
1ª REVISÃO
Em outubro de 2009, a UNICA fez a primeira revisão na metodologia de cálculo do "Carbonômetro", revelando que o resultado final estava sub-dimensionado, o que vinha gerando resultados mais baixos que os benefícios reais na redução de CO2 em carros flex. Foi feito um ajuste na curva de sucateamento da frota em circulação, que projetava uma retirada exagerada de veículos em uso, afetando os resultados.
COMPENSAÇÃO
Para atingir o mesmo total de CO2 que deixou de ser emitido por carros flex em sete anos, de acordo com os dados do "Carbonômetro", seria preciso plantar e manter ao longo de 20 anos mais de 267 milhões de árvores nativas. A metodologia de cálculo da equivalência em árvores foi desenvolvida pela Organização Não-Governamental SOS Mata Atlântica, e está detalhada no site Etanol Verde, mantido pela UNICA. O site permite ainda acionar o "Carbonômetro", que integra a campanha "Etanol: uma atitude inteligente," lançada em agosto de 2008 para detalhar os benefícios do biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar para o meio ambiente e a sociedade como um todo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Agência ambiental americana reconhece etanol brasileiro

Agência ambiental do governo dos Estados Unidos reconhece eficiência do etanol brasileiro.
A Agência Norte-Americana de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) anunciou que o etanol brasileiro de cana-de-açúcar reduz as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 61% em relação à gasolina, o que o caracteriza como um “biocombustível avançado”.
O reconhecimento da EPA – que abre o mercado norte-americano e mundial para o etanol brasileiro e deverá contribuir para a redução das tarifas de importação impostas ao produto pelo governo dos Estados Unidos – aumenta ainda mais a necessidade de investimentos em pesquisas relacionadas ao biocombustível no Brasil, segundo pesquisadores.
“O governo dos Estados Unidos reconheceu algo que já estava bem claro para a comunidade científica. Trata-se de uma excelente notícia para o etanol brasileiro, pois a disponibilidade de um biocombustível avançado comercialmente viável é um elemento importante para a estratégia norte-americana de redução de emissões de GEE [gases de efeito estufa]. No entanto, a provável abertura do mercado criará uma demanda que só poderá ser suprida se tivermos um grande avanço tecnológico”, disse Luís Augusto Barbosa Cortez, professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Agência FAPESP
Segundo Cortez, a necessidade de aumento da produção poderá ter tal magnitude que somente seria possível de ser realizada com investimentos em pesquisa para o aprimoramento do etanol de primeira geração e para o desenvolvimento da produção de etanol celulósico – que deverá aumentar a produtividade sem expansão da área plantada de cana-de-açúcar.
“Essa boa notícia precisa ser acompanhada de investimentos para que o etanol tenha melhores indicadores, como custo de produção, redução de consumo de fertilizantes, produtividade agroindustrial, condições de trabalho no campo e redução de queimadas. A sustentabilidade do etanol tem que ser considerada em suas dimensões ambientais, sociais e econômicas”, disse.
Cortez, que é coordenador adjunto de Programas Especiais da FAPESP, coordena o Projeto de Pesquisa em Políticas Públicas da Cadeia Cana-Etanol (Diretrizes de Políticas Públicas para a Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo), apoiado pela Fundação e voltado para as rotas tecnológicas para a produção do etanol.
De acordo com avaliação feita pela União da Indústria de Cana-deAçúcar (Unica), a decisão da EPA abre o mercado para a entrada de 15 bilhões a 40 bilhões de litros de etanol brasileiro nos Estados Unidos até 2022. A nova legislação norte-americana estabelece que o consumo mínimo de biocombustíveis deve ser de mais de 45 bilhões de litros anuais e, até 2022, esse volume deverá ser elevado para até 136 bilhões de litros.
“A decisão não abre o mercado apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, porque a EPA é reconhecida em todos os países e o etanol brasileiro provavelmente ganhará importância nas estratégias de redução de emissões de todos eles”, disse Cortez.
O pesquisador também coordena estudos sobre expansão da produção de etanol no Brasil visando à substituição de 10% da gasolina no mundo em 2025 por etanol de cana-de-açúcar, feitos pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp.
Para ser considerado um biocombustível avançado, o produto deve reduzir as emissões de GEE em pelo menos 40% em relação à gasolina. Artigos científicos indicaram que a redução do etanol brasileiro variava entre 60% e 90%, dependendo da metodologia de estudo. O etanol de milho norte-americano, em comparação, produz redução de cerca de 15%.
“Que eu saiba, por esse critério, não há nenhum outro biocombustível avançado comercialmente viável. O biodiesel europeu, que tem melhor desempenho, proporciona reduções na faixa de 20% a 30%. Os norte-americanos têm esperanças de conseguir essa classificação para o etanol de segunda geração, mas ele ainda não é comercial e quando estiver sendo produzido ainda será muito caro”, afirmou Cortez.
Aumento da produção
O professor da Feagri-Unicamp explica que o reconhecimento da EPA certamente ajudará a derrubar a tarifa de importação do etanol brasileiro nos Estados Unidos, que está estabelecida até o fim de 2010 em US$ 0,54 por galão.
A tarifa, estabelecida para proteger os produtores de etanol de milho nos Estados Unidos, é considerada um grande obstáculo para o produto brasileiro. Mas, segundo o cientista, o ideal é que elas sejam diminuídas gradativamente, com a criação de tarifas diferenciadas.
“Com essas tarifas eles protegem os fazendeiros, mas não reduzem as emissões o suficiente. Esse protecionismo é incoerente com as estratégias ambientais e deverá ser revisto. Mas é preciso que essa redução aconteça paulatinamente para que a indústria brasileira tenha tempo para se preparar para a imensa demanda que será gerada. Se a redução for repentina, isso poderá levar ao desabastecimento”, disse.
O reconhecimento da EPA do etanol brasileiro como biocombustível avançado não basta para que ele seja integrado à estratégia norte-americana, segundo Cortez.
“Para optar de fato pelo nosso etanol, eles precisarão analisar se o Brasil é um fornecedor seguro. O único jeito de garantir isso é aumentar a produção. Hoje, sabemos que uma simples alta na exportação do açúcar já é capaz de afetar o fornecimento de etanol no Brasil”, afirmou.
Cortez ressalta que hoje os Estados Unidos consomem cerca de 560 bilhões de litros de etanol por ano, enquanto o Brasil consome aproximadamente 40 bilhões de litros.
“Se o mercado norte-americano começar a demandar uma quantidade importante como 5 ou 10 bilhões de litros por ano, isso vai afetar significativamente o mercado brasileiro. Esse mercado é muito sensível ao preço do açúcar em nível internacional e ao consumo de álcool em nível interno”, destacou.

Produção de etanol de pode afetar ecossistemas

Produção de etanol de cana-de-açúcar pode afetar ecossistemas regionais.
Emissão de poluentes à base de nitrogênio causa 'chuva seca', lado maléfico do etanol de cana-de-açúcar
Todo produto “sustentável” que se preze tem estampada na embalagem sua “pegada de carbono” – uma medida dos gases de efeito estufa emitidos durante sua produção. Quanto menor a pegada, menos o produto contribui para aumentar o aquecimento global e suas consequentes mudanças climáticas.
O etanol vem sendo visto com bons olhos justamente porque, ao contrário do petróleo, cuja queima lança no ar carbono que estava “fora de circulação” há centenas de milhões de anos, suas emissões são compensadas durante o crescimento das plantações de cana-de-açúcar, que absorvem CO2 no processo de fotossíntese. Isso praticamente zera o balanço de carbono.
Pegaria muito mal, porém, se fosse estampada na embalagem do etanol sua “pegada de nitrogênio”. Como quase todo tipo de agricultura intensiva, a cultura da cana-de-açúcar exige a aplicação de fertilizantes à base de compostos com nitrogênio, como o nitrato de amônio. Acontece que essa aplicação é extremamente ineficiente. Apenas 30% do nitrogênio dele é absorvido pela cana. O restante acaba se perdendo no solo, na água e no ar.
O nitrogênio é essencial à vida, faz parte do DNA, RNA e das proteínas; daí ser um dos ingredientes essenciais dos fertilizantes. Mas quando ele fica à disposição em excesso, espécies de plantas e micro-organismos que o absorvem mais rápido podem se proliferar e tomar o lugar das outras, destruindo o equilíbrio do ecossistema e sua biodiversidade. Nos ambientes aquáticos, o efeito é imediato: uma explosão de crescimento de algas libera toxinas e consome quase todo o oxigênio na água.
Vários estudos feitos no Estado de São Paulo – local da maior produção de cana-de-açúcar do mundo – já observaram como as águas arrastam nitrogênio fertilizante dos canaviais até córregos, rios e represas, onde ele degrada o ambiente aquático e as matas ciliares. Mas ao avaliar a concentração nas represas, os cientistas perceberam que somente o transporte pela água não explica toda a quantidade de nitrogênio encontrada.
O químico ambiental Arnaldo Cardoso, do Instituto de Química da Unesp, campus de Araraquara, suspeita que esse nitrogênio em excesso venha da atmosfera, na forma de uma poeira microscópica de nitrato de amônio. É como se fosse uma “chuva seca” de fertilizantes que se forma no ar a partir de gases emitidos pela queima da folhagem da cana feita antes da colheita. “Mas esse é um conceito que ainda não cristalizou na cabeça dos biólogos”, afirma Cardoso.
Em uma série de projetos com apoio da Fapesp e do CNPq, Cardoso, Cristine Dias e Andrew Allen, todos do IQ, monitoram desde 2003 as substâncias químicas no ar dos arredores de Araraquara, que fica no centro da maior região produtora de cana de São Paulo. Uma das análises da equipe, publicada em janeiro no “Journal of the Brazilian Chemical Society”, concluiu que essa chuva de fertilizante sobre rios, campos e florestas distantes até mais de 300 quilômetros dos canaviais é 12 vezes mais intensa do que a que aconteceria naturalmente. É como se alguém salpicasse fertilizante pela região.
Queima de palha da cana de todo o Estado de SP emite na atmosfera por ano o equivalente a 2,5 vezes as emissões de nitrogênio da Grande Campinas ou 50% daquelas da Grande São Paulo
Os dados levantados pelos químicos da Unesp mostram que as concentrações da maioria das substâncias, principalmente aquelas com nitrogênio, fósforo e potássio, aumenta durante a queima da palha da cana, entre maio e novembro. As concentrações dos óxidos de nitrogênio, por exemplo, dobram no período, e os picos nas suas concentrações coincidem com a frequência das queimadas.
Em estudo publicado em 2008 na revista “Environmental Science & Technology”, a equipe calculou que a queima de palha da cana de todo o Estado de São Paulo emite na atmosfera 57 mil toneladas de nitrogênio por ano. Isso equivale às emissões de nitrogênio de uma metrópole – cerca de duas vezes e meia as emissões anuais da Grande Campinas ou metade daquelas da Grande São Paulo.
Nas cidades, a principal fonte de nitrogênio no ar é a queima de combustíveis. Os óxidos de nitrogênio gerados participam de reações químicas na atmosfera produzindo nitrato de amônio, ácido nítrico – que contribui com a chuva ácida -, e ozônio, que na baixa atmosfera faz mal à saúde animal e vegetal.
A imensa maioria do nitrogênio no ar (99%) está na forma do inofensivo gás nitrogênio. Bactérias que vivem no solo e na água transformam naturalmente esse gás em óxidos de nitrogênio, amônia e amônio, todos compostos que reagem com seres vivos, também conhecidos como nitrogênio ativo.
Ao mesmo tempo, outro tipo de bactéria, também no solo e na água, vive de fazer a transformação oposta, devolvendo gás nitrogênio para a atmosfera. Os dois comportamentos fechavam um ciclo que permaneceu em equilíbrio até o começo do século 20. Desde então os fertilizantes e os motores a combustão mais que dobraram a produção global anual de nitrogênio ativo.
É um dos três problemas ambientais mais graves do mundo, junto com a acelerada perda da biodiversidade e a alta concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Para chamar atenção do público, o químico ambiental James Galloway, da Universidade de Virgínia, EUA, coordenou a criação de uma calculadora de “pegada de nitrogênio”, nos moldes da pegada de carbono, por enquanto apenas para os EUA e a Holanda. “Planejamos adicionar outros países em 2010″, diz Galloway.

Etanol pode elevar emissão de CO2

De acordo com a pesquisa, a produção de biocombustível poderá influenciar também na devastação do Cerrado e da Amazônia.
Estudo mostra que, para atingir meta de produção de etanol até 2020, serão necessários mais 35 mil km² de plantação de cana-de-açúcar.
Se não for feita com cuidado, a expansão da área plantada para elevar a produção nacional de biocombustível até 2020 pode forçar criadores de gado a avançar sobre o Cerrado e a Amazônia. O movimento provocaria desmatamento e a consequente emissão de gases do efeito estufa que o País levaria mais de 200 anos para compensar. É o que diz um estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.
O estudo simula cenários em que, para elevar a produção de biocombustíveis em 35 bilhões de litros até 2020, a área plantada com soja aumentaria de 191 mil km², em 2003, para até 285 mil km², em 2020. A de cana iria de 55 mil km² para 90 mil km². Se esse padrão de substituição se mantiver e a produção de carne continuar aumentando, serão necessários 3 milhões de km² de pastagens no Brasil em 2020.
O valor significaria 44% a mais do que em 2003, e parte dessa área possivelmente seria subtraída do Cerrado e da Amazônia. A devastação provocaria emissões de CO2 que só seriam compensadas por séculos de uso de biocombustível.
Para evitar que isso aconteça, uma possibilidade seria diminuir as exportações de carne. Outra é aumentar a produtividade da pecuária. Segundo o professor da Universidade de São Paulo José Goldemberg, isso já TAM ocorrido. A secretária nacional de Mudanças Climáticas, Suzana Khan, teme que a publicação do estudo provoque um desserviço.
O trabalho, de pesquisadores de instituições da Alemanha e da Organização das Nações Unidas (ONU), foi encabeçado pelo brasileiro David Lapola.