sábado, 10 de outubro de 2009

Saída para biocombustível está nas áreas degradadas

O Brasil se encontra numa posição privilegiada em termos de disponibilidades de terras para a produção de biocombustíveis, e a produção nacional pode ser ampliada para áreas degradadas por pastagens. É o que acredita o peruano Segundo Urquiaga, pesquisador da Embrapa e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que esteve em Fortaleza, em agosto/09, participando do XXXIII Congresso Brasileiro de Ciência do Solo.
O que falta ao Brasil para que a produção de biocombustíveis seja realmente sustentável?
Biocombustível é um termo genérico e se refere a diversos materiais de origem biológica com possibilidade de uso como fonte de energia. Seja sólido, de cuja queima se obtém energia calorífica útil em termoelétricas para produzir energia elétrica, ou diretamente na produção de cerâmica vermelha. Entre os biocombustíveis líquidos, temos o álcool de cana-de-açúcar e o biodiesel de diferentes óleos vegetais e gorduras. É fácil obter fontes de energia renovável.
O problema esta na sustentabilidade. Em algumas situações, uma unidade de energia alternativa, ou contida no biocombustível, pode demandar mais energia fóssil para sua produção, e isso é grave. Qualquer programa de produção de energia renovável somente será sustentável se o ganho energético contido no bicombustível for significativamente maior do que toda a energia fóssil investida. No mundo, somente o Brasil possui o maior programa de produção sustentável de biocombustível (álcool de cana e biodiesel de óleo de soja). No caso do álcool, são produzidas 9,3 unidades de energia renovável por cada unidade de energia fóssil investida, e com significativo efeito favorável na mitigação do efeito estufa. Nas demais culturas, precisa-se ainda de pesquisa para aprimorar o balanço energético.
Há um tipo de oleaginosa mais promissora ou se deve investir na diversificação das culturas?
No País, existem diversas espécies vegetais com potencial energético, mas as leguminosas oleaginosas com alta eficiência de obter nitrogênio do ar para uso como nutriente oferecem as melhores perspectivas. A economia em fertilizantes nitrogenados promovida pelo processo de fixação biológica de nitrogênio do ar nas leguminosas influi favoravelmente para a economia de energia fóssil no processo de produção agrícola. Temos o exemplo da cultura de soja, que produz no Brasil cerca de 12 milhões de toneladas de óleo sem consumo de fertilizante nitrogenado. No caso de culturas não leguminosas, que demandam altos níveis de fertilizante nitrogenado, o ganho energético é geralmente baixo. As outras culturas oleaginosas anuais, como mamona e pinhão manso, cuja nutrição nitrogenada depende da adubação, ainda não têm alcançado o nível de sustentabilidade desejado.
O senhor acredita que a atual forma de produção de biocombustíveis compromete florestas nativas e a produção de alimentos?
Esta é uma boa pergunta. Qualquer programa bioenergético sustentável pode estabelecer-se sem comprometer as florestas nativas e a produção de alimentos, muito diferente de outros países com limitada disponibilidade de terras. Temos no Brasil mais de 230 milhões de hectares de terras sob pastagens, das quais aproximadamente cerca de 120 milhões de hectares estão cobertas com pastagens degradadas. Essas áreas estão disponíveis, não apenas para as culturas energéticas, senão também para pelo menos triplicar a área cultivada com grãos ou alimentos. Não podemos esquecer que, na pecuária, existem tecnologias para aumentar a produtividade e evitar a degradação.
Qual é a sua avaliação sobre o atual modelo de agronegócio brasileiro?
O agronegócio brasileiro tem estado baseado principalmente em commodities de poucos produtos agrícolas, como soja, suco de laranja e carne; sendo que a expansão destas culturas e pastagens ocorreu de forma desenfreada, comprometendo o meio ambiente pelo desmatamento. Hoje, graças à pressão da sociedade e dos países importadores, o componente ambiental está ocupando o espaço devido. Por isso acredita-se que o agronegócio brasileiro fique mais civilizado. É notória a falta de incentivo para reforçar o agronegócio interno, envolvendo a agricultura familiar, que responde por mais de 70 % da produção de alimento para o povo brasileiro.
A humanidade superou a revolução verde em busca de um modelo mais sustentável para garantir o abastecimento?
A revolução verde, baseada no melhoramento genético de plantas e no uso de fertilizantes, tem sido muitas vezes inadequadamente entendida. Salvou da morte por fome a mais de 50 milhões de pessoas no mundo, especialmente na Ásia, nos anos 60. No Brasil, deu suporte para os cientistas descobrirem o potencial produtivo dos solos do Cerrado, que hoje é um grande suporte para a produção agrícola do País. É claro que precisamos corrigir as deficiências e aprimorar. Solos extremamente pobres em nutrientes, como são a maioria dos solos tropicais, não são adequadamente produtivos pela falta de adubação. Desconhecer isso, no mínimo, é uma posição irresponsável. Precisamos racionalizar e usar de maneira eficiente todos os insumos agrícolas. É hora de otimizar tudo, sem esquecer os cuidados com o meio ambiente. Sistemas agrícolas sustentáveis dependem da pesquisa e da adequada aplicação.
Há chance de crescimento na produtividade sem aumento da dependência de agroquímicos?
Sim. Muito dos insumos agrícolas empregados atualmente na agricultura vêm sendo aplicados em excesso ou de forma irracional, o que tem dado uma falsa idéia da dependência da nossa agricultura de agroquímicos. Precisamos da disponibilidade de tecnologias que permitam otimizar o uso dos insumos agrícolas de forma eficiente e com mínimo impacto ambiental. Deve ficar claro também que, para nossas condições de solos pobres e ácidos, é praticamente impossível produzir alimentos agrícolas sem depender dos fertilizantes e de produtos sintéticos controladores de pragas e doenças. China e Coréia, países de alto consumo de agroquímicos, estão incentivando a pesquisa para desenvolver tecnologias microbiológicas que permitam otimizar a eficiência de insumos agrícolas para diminuir seu uso. No caso do Brasil, o melhor exemplo da eficiência microbiológica está na cultura da soja, onde se produz mais de 60 milhões anuais de toneladas de grãos ou alimentos sem uso de fertilizante nitrogenado. Precisamos de incentivo à pesquisa na área da microbiologia. Assim, é possível crescimento na produtividade sem aumentar a dependência por agroquímicos.
A produção orgânica é realmente promissora para o setor primário da economia?
Os princípios básicos que regem a produção orgânica de alimentos são muito bons. Quem não gostaria de ter disponíveis alimentos produzidos da forma mais natural possível? O problema está na dificuldade de conseguir insumos orgânicos, como esterco, para grandes extensões. Hoje, é possível produzir alimentos orgânicos, mas a alto custo, proibitivo para pessoas de baixos ingressos. Está cada vez mais claro que em solos pobres, como os nossos, é difícil a produção de alimentos orgânicos, mas todo esforço é válido para utilizar de forma eficiente várias das técnicas baseadas no princípio da agricultura orgânica nos sistemas de produção agrícola, como a otimização da contribuição da fixação biológica de nitrogênio, que, pela adubação verde, em rotação de cultivos, pode suprir a demanda ou diminuir a necessidade do uso de fertilizantes nitrogenados.
Qual é a estratégia adequada para lidar com a diversidade brasileira sem comprometer a fertilidade? E para combater o processo de desertificação?
É necessária a mínima ou nula perturbação do solo, como estabelece o sistema plantio direto. Este sistema permite cobrir o solo com os resíduos de colheita, diminuindo as perdas de solo por erosão. A eliminação da queima contribui muito para preservação da biodiversidade microbiológica do solo. Este sistema, com adequada rotação de culturas, incluindo leguminosas fixadoras de nitrogênio do ar, contribui para melhorar a fertilidade do solo, preservando e/ou aumentando a matéria orgânica. Quanto à desertificação, uma das técnicas de destaque é o reflorestamento com leguminosas arbóreas tolerantes ao estresse hídrico e eliminar a queima.
Em que nível a pesquisa científica tem contribuído para melhorar a produtividade no Brasil?
Somente a pesquisa agrícola tem permitido dar suporte para os recordes de produtividade que o País vem obtendo ano a ano. Graças a ela o Brasil expandiu a fronteira agrícola, dominando o Cerrado. Falta muita coisa a pesquisar, refinar algumas tecnologias e desenvolver outras, destacando a integração de sistemas de produção envolvendo agricultura e pecuária. As esperanças estão voltadas para a biotecnologia, melhoramento genético, microbiologia do solo e planta e procura por insumos mais nobres ou de menor impacto ambiental.
Qual é a melhor alternativa para combater a fome do ponto de vista produtivo?
É necessário disponibilizar alimento mais barato. Para isso é preciso aumentar os rendimentos agrícolas com menores custos, um dos desafios da pesquisa. A população mais pobre e sujeita à fome está nos pequenos agricultores. Os programas assistencialistas com ajuda econômica direta poderiam ser aperfeiçoados concedendo adubo. Com a concessão de dez quilos de nutrientes por família por ano seria possível produzir mais de 300 quilos de grãos, o suficiente para colocar diariamente na mesa de cada família pelo menos 800 gramas de grãos.
FIQUE POR DENTRO
Pesquisador na área de Agronomia e Agroenergia
Doutor em Solos e Nutrição de Plantas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Segundo Urquiaga é pesquisador A do Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), consultor / assessor técnico-científico da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), consultor ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e membro da equipe de cientistas assessores da Agencia Internacional de Energia Atômica (Órgão das Nações Unidas). Publicou 143 artigos em periódicos especializados e 250 trabalhos em anais de eventos. Possui 59 capítulos de livros e dois livros publicados. Atua na área de Agronomia, com ênfase na quantificação da contribuição da fixação biológica de nitrogênio em sistemas agrícolas e sobre a importância deste processo na agroenergia e na proteção do meio ambiente. Recebeu prêmios nacionais e internacionais, entre eles, o Prêmio IPNI-Brasil 2009, por indicação da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, concedido pelo Instituto Internacional de Nutrição de Plantas, na categoria de Pesquisador Sênior.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Oferta de energia cresce mais com a entrada de novas PCHs

A entrada de novas PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) vem predominando no aumento da matriz hidrelétrica brasileira do ano passado para cá, segundo dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Em 2008, a capacidade total das usinas de menor porte que entraram em operação foi mais do que o triplo do que das novas usinas hidrelétricas. Foram 642,8 MW (megawatts) a mais por parte da PCHs, contra 180 MW apenas oriundos de usinas de maior porte.
Este ano, o cenário se mantém, embora mais hidrelétricas tenham iniciado operação. De janeiro até o dia 15 de setembro, 329,7 MW de potência instalada em PCHs passaram a produzir. Ao mesmo tempo, mais 280,6 MW de capacidade oriunda de novas usinas hidrelétricas foram adicionados ao sistema interligado nacional.
Estão previstos ainda mais 444 MW pelas PCHs ainda este ano. Caso esse volume seja confirmado, serão 773 MW ao longo de 2009. Se for levado apenas em conta de 2008 para cá, seriam em média, 708 MW anuais. De 2000 a 2007, as PCHs foram responsáveis pelo acréscimo de 136,2 MW anuais na matriz brasileira.
Nos próximos anos, A Aneel contabiliza mais 3.293 MW por conta de novas PCHs. Desse total, 1.060 MW não apresentam qualquer restrição. Outros 1.248 MW apresentam algum tipo de restrição, e 985 MW tem graves empecilhos para iniciar operação.
Em relação às usinas hidrelétricas, a Aneel prevê 9.496 MW nos próximos anos, dos quais 7.014 MW sem qualquer tipo de restrição — a maior parte será oriunda das usinas do rio Madeira, que terão 6.400 MW de potência; outros 1.936 MW apresentam algum problema, e 546 MW tem sérios empecilhos.
A projeção é que o boom de PCHs aumente ainda mais nos próximos anos. Estudo do CERPCH (Centro Nacional de Referência em Pequenas Centrais Hidrelétricas) indica que o país tem potencial para explorar capacidade de 25 mil MW nas bacias hidrográficas, o equivalente a 25% da potência instalada nacional, pouco acima dos 100 mil MW, atualmente. Para isso, seriam necessários até R$ 125 bilhões em investimentos.
Responsável pelas áreas de regulação e de negócios do CERPCH, Jason Tibiriçá lembra que o interesse do mercado nas PCHs vem aumentando ano após ano. Ele ressalta, inclusive, que muitas empresas vêm buscando nos empreendimentos hidrelétricos de menor porte energia suficientes para suas produções, a custos mais baixos.
“As empresas podem ter a energia para consumo próprio, e se houver algum excedente, ela poderá vender no mercado livre”, afirma.
Capacidade
As PCHs têm capacidade instalada de até 30 MW. Este ano, o Congresso aprovou a MP 450, que autoriza a Aneel a conceder autorizações para empreendimentos de 30 MW a 50 MW, mediante algumas condições especiais.
Especialista da Geron Consultoria, Claudio Serra destaca que os impactos ambientais são, normalmente, menores e de solução mais simples do que nas grandes usinas. Além disso, comenta, a venda de energia pode ser feita diretamente a consumidores que possuam carga instalada igual ou superior a 500 kW (kilovolts) e façam opção por não serem cativos.
“Algumas PCHs têm que ter estudos ambientais mais detalhados, isso varia de Estado para Estado. Mas em geral, a viabilidade é mais simples, do ponto de vista ambiental, e o prazo de construção gira em torno de dois anos”, observou.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Crise estrangula setor americano de biocombustíveis

Mas a indústria já está ficando para trás das metas.
A revolução dos biocombustíveis nos Estados Unidos, que prometia libertar o país da dependência do petróleo importado, caminha para o esquecimento.
Dois terços da capacidade americana de produção de biodiesel estão ociosa, segundo o Conselho Nacional do Biodiesel, uma associação de produtores. O biodiesel foi o mais prejudicado pela recessão e a queda na cotação do petróleo.
A crise mundial de crédito, um excesso de capacidade, o barateamento do petróleo e o adiamento de regras do governo americano para a mistura de combustíveis ameaçam a viabilidade de dois dos três principais setores do biocombustível: biodiesel e a próxima geração de combustíveis, produzidos a partir de plantas que não servem para a alimentação. O álcool, o maior segmento, também enfrenta problemas financeiros, embora o histórico apoio governamental ao setor provavelmente o ajudará a sobreviver.
A GreenHunter Energy Inc., que opera a maior refinaria de biodiesel dos EUA, interrompeu recentemente a produção e informou que pode ser obrigada a vender sua usina em Houston, Texas, apenas um ano depois de políticos a terem inaugurado. Dezenas de outras refinarias novas de biodiesel, que produzem o combustível a partir de óleos vegetais e gordura animal, interromperam as operações porque a produção não faz mais sentido economicamente.
Os produtores da nova geração de biocombustível, os que usam materiais renováveis que não servem para a alimentação, como grama e palha do milho, descobriram como é difícil atrair investimentos e aumentar a produção para a escala industrial. O setor sofreu um grande revés recentemente, depois que um júri federal julgou que a Cello Energy, do Alabama, uma produtora de biodiesel de fibras de plantas, havia fraudado investidores. Financiada pelo célebre capitalista de risco Vinod Khosla, a Cello forneceria 70% dos 381,2 milhões de litros que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) planeja misturar à oferta americana de combustível ano que vem. A suposta fraude deve atrapalhar as metas da agência no ano que vem, dizem analistas do setor de energia.
A onda de quebras no setor de biodiesel e a incapacidade da Cello de produzir até mesmo uma fração do que esperava amedrontaram potenciais investidores, o que pode atrasar ainda mais avanços tecnológicos no setor e até capotar as metas de energia "verde" do governo.
"Se os seus investidores já perdem dinheiro com a primeira geração de biocombustíveis, garanto a você que vão ficar mais desconfiados na hora de investir em mais biocombustíveis, incluindo os da próxima geração", diz Tom Murray, diretor mundial de energia do banco alemão WestLB, um dos mais importantes financiadores de produtores de álcool e biodiesel.
Biocombustíveis produzidos internamente deveriam ser a solução para reduzir a dependência americana do petróleo estrangeiro. Em 2007, o Congresso criou metas que determinavam que os EUA teriam de acrescentar 136,7 bilhões de litros de biocombustíveis ao suprimento de combustíveis até 2022, ante 42 bilhões de litros em 2009. Assim, a participação dos biocombustíveis no total de combustíveis líquidos nos EUA subiria de 5% para em torno de 16%, com base em projeções de demanda da Administração de Informações sobre Energia.
O etanol de milho, que há anos tem sido sustentado por determinações do governo de mistura com outros combustíveis, além de outros subsídios, tornou-se alvo de críticas acaloradas por provocar alta no preço do milho e outros produtos alimentícios básicos. Embora vá continuar a ser produzido, o álcool de milho tinha prevista uma redução de seu papel dominante na mistura obrigatória dos combustíveis até 2022. O etanol celulósico, derivado das porções não comestíveis das plantas, e outros combustíveis avançados deveriam superar o etanol de milho e preencher perto de metade de todas as determinações de biocombustível naquela época.
Mas a indústria já está ficando para trás das metas. A EPA, que põe em prática as determinações parlamentares de mistura, não divulgou ainda nenhuma regulamentação para permitir a mistura de biodiesel, embora a previsão era de que isso começasse em janeiro. A determinação de misturar combustíveis de próxima geração, que começa no ano que vem, tem poucas chances de ser cumprida por falta de produção viável suficiente.
Os modelos de negócios para a maioria das empresas de biocombustível foram baseados num preço bem mais alto do petróleo. Um mercado garantido pelo governo também era crucial para os planos de negócios. Mas como as determinações de mistura foram adiadas, os preços do petróleo caíram e a recessão reduziu a demanda de combustível, muitas empresas de biodiesel começaram a operar no vermelho. Mesmo as produtoras de etanol, que desfrutaram de subsídios e maiores exigências do governo para mistura à gasolina, têm operado no prejuízo no último ano.

domingo, 4 de outubro de 2009

País terá folga para fabricar biodiesel mesmo com B5

Apesar da crise financeira, que afetou os negócios de equipamentos para usinas de biodiesel, a capacidade de produção do biocombustível já instalada no Brasil atenderá sem problemas a demanda adicional gerada por um aumento da mistura no diesel no ano que vem, segundo executivo do principal fornecedor da indústria de equipamentos para o setor. O Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou nesta semana que já está tudo certo para o país elevar em 2010 a mistura de biodiesel no diesel de 4% para 5% do total (B5), o que geraria uma demanda adicional de 25% do biocombustível produzido, em sua maioria, a partir de soja no Brasil.
"Hoje o Brasil poderia ter avançado em B5, B6... já possibilitaria atender um percentual de mistura maior do que B4. A capacidade instalada de produção está perto de 4 bilhões de l, considerando as plantas em operação e as contratadas", disse à Reuters o vice-presidente de Tecnologia e Desenvolvimento da Dedini Indústrias de Base, José Luiz Olivério. Para a produção do B4, a necessidade de biodiesel é de cerca de 2 bilhões de l ao ano, enquanto o B5 exigiria a fabricação de 2,5 bilhões de l em 2010, segundo o MME.
"Unidades para 3,2 bilhões de l já poderiam funcionar, e outras para 800 milhões de l estão em construção", acrescentou Olivério, durante um seminário de biodiesel que termina nesta quinta-feira em São Paulo. Assim, o executivo avalia que, até o final de 2010, o País terá capacidade para produzir ao menos 4 bilhões de l. A Dedini, líder global em equipamentos para o setor de açúcar e etanol e principal fornecedor no Brasil para usinas de biodiesel, registra lentidão nos negócios para o segmento de biocombustíveis neste ano, ainda por conta da crise. "Este ano o setor de açúcar e etanol está com pouco negócio, estamos com melhores negócios nas áreas de refinarias de petróleo e hidrelétricas", afirmou ele, sobre equipamentos produzidos para outros segmentos. "Em biodiesel, dois negócios novos. Ainda não atingiu o nível de 2007 (um ano considerado normal), de oito negócios", mostrou. A empresa, com mais de 70% da receita proveniente da área de equipamentos para biocombustíveis e bioenergia, fechou 2008 com receita líquida de R$ 1,8 bilhão.
Mais soja
"O problema da matéria-prima é o da disponibilidade, a soja é predominante, está disponível em todos os lugares e é mais competitiva, exceto em algumas regiões pequenas", disse Olivério, que acredita, entretanto, que outras matérias-primas viáveis para o biocombustível aparecerão em menos de dez anos.
Atualmente, a soja responde por 80% da matéria-prima do biodiesel no Brasil.
"Ninguém pode ficar sujeito a uma commodity que oscila de preço, porque o preço de biodiesel tem como referência o diesel. No nível que nós estamos ainda não chega a ser um problema tão grande, mas imagine um B10, por exemplo, você teria um problema maior para garantir a oferta, é preciso ter flexibilidade", explicou.
Entre os outros óleos vegetais analisados pelo setor no Brasil para a produção de biodiesel estão o de palma, de girassol, de pinhão-manso, sendo esta última matéria-prima uma das mais promissoras, mas com pouca pesquisa agronômica já concluída.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Estudo da Embrapa aponta nova fonte de biodiesel

Um estudo desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Roraima, revelou o inajá (palmeira oleaginosa nativa da região amazônica), como excelente fonte para produção de biocombustível. Com o objetivo de otimizar o aproveitamento da planta, a Petrobras assinou acordo de parceria com a prefeitura de Mucujaí, para a construção de uma usina para a produção de biodiesel a partir do inajá. O anúncio oficial do empreendimento deve ser feito pelo presidente Lula no dia 14 de setembro, durante visita ao Estado. O potencial energético do inajá é estudado por técnicos da Embrapa Roraima há anos. Pesquisas realizadas pela empresa mostram que a palmeira é capaz de gerar 3.690 litros de diesel por hectare ao ano, superando, em produtividade, outras fontes tradicionais de biodiesel. Estudo - O pesquisador da Embrapa Roraima, Otoniel Ribeiro Duarte, fez sua tese de doutorado enfocando a produtividade do inajá. "Um excelente aspecto é que ele é pouco exigente em solos e tolera até inundações por períodos curtos. Temos observado seu desenvolvimento e a produtividade expressiva em solos quimicamente pobres e, ainda, a vantagem de ser uma planta resistente ao fogo", afirma o pesquisador. Além disso, sua incidência pode ser observada durante o ano inteiro e em praticamente todo o Estado. Combustível para inclusão social - A demanda por “combustíveis verdes” está cada vez maior. No Brasil, aparece como importante alternativa não só para transporte ambientalmente sustentável, mas como forma de desenvolvimento econômico e social. Em médio prazo, o biodiesel pode se tornar uma das principais fontes de divisas do País, somando-se ao álcool como fonte de energia renovável e não poluente, que pode ser oferecida à comunidade mundial.