segunda-feira, 12 de abril de 2010

EUA voltam a atacar etanol brasileiro

Os produtores de etanol dos Estados Unidos, que usam o milho como matéria - prima, lançaram nova ofensiva para tentar barrar a entrada do etanol brasileiro, de cana-de-açúcar. Na semana passada, dois deputados da bancada ruralista, em Washington, apresentaram um projeto de lei para tentar prorrogar por mais cinco anos os subsídios aos plantadores de milho e as tarifas à importação de etanol.
A Associação da Indústria de Cana de Açúcar do Brasil (Unica) considera que essa é a principal batalha do ano para os produtores brasileiros de etanol.
Recentemente, os usineiros brasileiros conseguiram grande vitória nos EUA, com o reconhecimento, pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), de que o etanol produzido a partir da cana é um biocombustível avançado, que reduz em ao menos 40% a emissão de dióxido de carbono em relação à gasolina. A decisão da EPA abre as portas para o mercado americano - desde que o lobby dos produtores do etanol de milho não consiga manter ou elevar as barreiras hoje vigentes.
Subsídios. A atual legislação prevê dois tipos de benefícios aos produtores americanos. Um deles é o subsídio: para cada galão de gasolina com etanol, os produtores americanos de etanol ganham um crédito de US$ 0,45 para ser abatido em impostos. Outro benefício é a tarifa de importação, que impõe taxa de US$ 0, 54 por galão sobre o etanol brasileiro. Essa lei vigora até o fim do ano.
A ação bipartidária anunciada na semana passada pelos deputados democrata Earl Pomeroy e republicano John Shimikus visa a defender essa proteção aos produtores de milho americanos. Um projeto de lei similar e coordenado com a da Câmara deve ser apresentado no Senado nas próximas semanas.
Segundo os dois parlamentares, caso a atual legislação expire, 112 mil empregos podem ser perdidos e a produção de etanol será reduzida em 38%. "Em um momento em que a economia americana enfrenta problemas, não podemos permitir que esses incentivos fiscais expirem, minando o crescimento que temos visto na nossa indústria de etanol", disse Pomeroy. "A prorrogação dos créditos fiscais ajuda a indústria a contribuir com a segurança da nossa nação", acrescentou Shimkus.
A proposta foi imediatamente contestada por produtores do Brasil e pela indústria alimentícia dos EUA, que acaba pagando mais pelo milho que não é destinado ao etanol.
Reação. Joel Velasco, representante da Unica em Washington, divulgou comunicado afirmando que "os americanos não se beneficiarão dessa alternativa mais limpa e econômica se o Congresso continuar erguendo barreiras comerciais contra o etanol importado". "É irônico que o Congresso permita que o petróleo de nações hostis aos EUA entre no país sem pagar tarifa, enquanto pune a energia limpa do Brasil, um antigo aliado democrático."
A American Meat Institute, que representa os produtores americanos de carne, também se manifestou. "Infelizmente, essa lei continua a apoiar e a proteger de forma desonesta o etanol do milho nos últimos 30 anos à custa do contribuinte americano e do gado e das aves que dependem do milho para alimentação", disse, em comunicado, o presidente da associação, Patrick Boyle. "Chegou a hora de a indústria do etanol parar de usar o dinheiro dos impostos americanos e a passar a competir por conta própria no livre mercado."
A Unica tem agido no Congresso americano para defender a posição dos produtores brasileiros. O argumento principal é o de que os incentivos fiscais custam US$ 6 bilhões aos cofres americanos por ano.
A tarefa será difícil, já que este é um ano eleitoral e produtores de milho influenciam os votos para deputados em muitos Estados. O presidente Barack Obama também sabe que sua virada na disputa presidencial ocorreu graças à sua vitória nas primárias em Iowa, um dos principais Estados produtores de milho.
Os produtores de milho usam até o relatório da EPA para seu lobby. Como a EPA avaliou que o etanol de cana é menos poluente que o de milho, os produtores americanos dizem que esse é mais um motivo para o governo os defender.
Para entender melhor
O Brasil vende 1 bilhão de litros de etanol para EUA
Os Estados Unidos já são clientes do etanol brasileiro no exterior. As vendas devem cair este ano por causa do aumento do preço do combustível, mas, em 2009, foram embarcados 1,05 bilhões de litros para os EUA. Os usineiros brasileiros acreditam que, sem a tarifa, esse mercado seria muito maior. A produção local também teria de aumentar para dar conta da demanda interna e externa.

sábado, 10 de abril de 2010

Etanol de celulose ainda não é viável

Etanol de celulose está longe de ser comercialmente viável.
O etanol fabricado a partir da celulose, fórmula que deve substituir o biocombustível à base de milho, ainda está longe de ser comercialmente viável por conta do custo e da dificuldade de se conseguir grandes quantidades de insumo, informou nesta terça-feira Joseph Glauber, principal economista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). "Ainda levará alguns anos antes de poder se tornar competitivo", disse ele durante uma conferência.
"Os desafios são a distribuição e o armazenamento das matérias-primas."
Legisladores norte-americanos estabeleceram metas ambiciosas para produção de etanol à base de celulose: refinarias dos Estados Unidos deverão misturar 16 milhões de galões do biocombustível na oferta de gasolina até o final de 2022, contra apenas 6,5 milhões de galões em 2010.
O etanol celulósico depende de matérias-primas não alimentares, como capim e resíduos de papel, eliminando o conflito que levou muitos economistas a culpar uma produção maior de etanol à base de milho nos Estados Unidos por um aumento acentuado nos preços dos alimentos em 2008.
Os insumos para fabricação desta modalidade são muito baratos e, até mesmo, gratuitos, mas o sistema de distribuição para transportar amplas quantidades de celulose para unidades de produção em escala comercial ainda não está em vigor, acrescentou Glauber. Isso pode tornar a comercialização uma meta mais distante, embora companhias, como a Genencor e a Novozymes, tenham feito progresso no desenvolvimento de enzimas que transformam celulose em etanol em escala comercial.

Brasil pode suprir 10% do etanol mundial até 2025

O etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil pode substituir, até 2025, entre 5% e 10% da gasolina consumida em todo o mundo. A afirmação foi sustentada por Luís Cortez, professor titular da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp.
Segundo Cortez, as fontes renováveis já respondem por 46% da demanda brasileira de energia (um percentual 3,5 vezes maior do que o registrado no mundo, de 13%) e a cana-de-açúcar por 15%. A produção do etanol, que cresceu motivada pela "necessidade", após a crise do petróleo da década de 1970, encontra-se agora diante da perspectiva de um novo ciclo de expansão, regido pela "oportunidade".
O interessante é que as plantações de cana para a produção de etanol ocupam, atualmente, apenas 0,4% do campo brasileiro: 3,4 milhões de hectares, contra 22 milhões de hectares destinados à soja e 200 milhões de hectares de pastagens.

China resiste à proposta brasileira sobre etanol

Brasil apresentou oficialmente, em Pequim, sugestão para a realização conjunta de projetos para a produção de etanol em países africanos ou asiáticos.
O Brasil propôs oficialmente à China a realização de projetos conjuntos para a produção de etanol em países africanos ou asiáticos, mas é pouco provável que Pequim aceite a cooperação nessa área.
Com uma população de 1,3 bilhões de pessoas, a China tem a segurança alimentar no topo de suas preocupações e teme que a plantação de cana de açúcar reduza a área agricultável disponível para outras culturas.
A fabricação de etanol em terceiros países faz parte do esforço brasileiro para ampliar o uso internacional do produto e transformá-lo em uma commodity.
O tema foi apresentado às autoridades chinesas pelo vice-ministro para Energia e Alta Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, embaixador André Amado, que fez críticas à Petrobrás durante entrevista coletiva na última quarta-feira, em Pequim, da qual participaram jornalistas brasileiros e estrangeiros.
Projetos conjuntos. Segundo Amado, o Brasil já tem acordo com os Estados Unidos para a produção de etanol em sete países da América Central e Caribe e dois da África. Também há projetos conjuntos com a União Europeia e o Japão, afirmou.
Os empreendimentos ainda estão em fase preliminar e devem demandar pelo menos dois anos para começarem a dar frutos.
O embaixador fez visita de sete dias à China, durante a qual foi acompanhado da maior delegação brasileira dos setores de ciência e tecnologia e energia que já esteve no país.
A passagem do grupo por Pequim coincidiu com a presença na cidade de executivos da Petrobrás, que negociam parcerias com a Sinopec e um novo empréstimo do Banco de Desenvolvimento da China (BDC).
"A Petrobrás não me convidou para os encontros deles. Quando as coisas não estão bem, eles vêm até nós e reclamam. Como não reclamaram, imagino que as conversas foram boas", alfinetou Amado durante a entrevista coletiva.
O embaixador se queixou do fato de não ter sido informado do teor das discussões realizadas pela Petrobrás, embora a estatal não tenha nenhuma relação de subordinação ao Ministério das Relações Exteriores.
PARA LEMBRAR
Acordos na mesma linha já estão fechados
O Brasil já fechou acordos com os Estados Unidos, com a União Europeia e com o Japão para produzir etanol em países da América Central, do Caribe e da África.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Conversor de energia produzida por painéis solares

Pesquisador desenvolve o primeiro conversor nacional de energia produzida por painéis solares.
Aparelho nacional converte energia solar em eletricidade. Esta técnica permite que equipamentos sejam ligados à rede pública e pode significar grande economia
Em tempos de busca por alternativas energéticas renováveis e limpas, a luz do sol pode ser considerada uma das melhores opções, por ser gratuita e inesgotável. No Brasil, porém, o aproveitamento desse recurso ainda é pequeno e caro. Pensando em uma forma de ampliar a utilização da energia solar no país, cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) construíram o primeiro conversor eletrônico nacional, equipamento necessário para transformar a energia produzida por painéis solares e distribuí-la na rede elétrica.
Para os cientistas envolvidos no projeto, o desenvolvimento de uma tecnologia nacional para esse fim pode baratear e popularizar o uso da eletricidade proveniente da luz natural. “Acredito que isso deverá inaugurar uma nova etapa no aproveitamento da energia solar no Brasil”, diz Marcelo Villalva, engenheiro eletrônico e autor do estudo que resultou no aparelho.
A pesquisa começou quando a Unicamp construiu uma usina de geração solar para fazer experiências com essa tecnologia. “Fiquei me perguntando por que precisávamos comprar os conversores de outros países se nós tínhamos competência para fazê-los aqui?”, conta Villalva. A partir daí, o engenheiro trabalhou durante quatro anos até construir um protótipo de laboratório.
O conversor eletrônico de potência trifásico tem um grau de eficiência de 85%. Os primeiros testes, realizados entre dezembro e janeiro passados, tiveram êxito numa instalação de painéis solares com capacidade de 7,5kW. “Esse conversor substituiu plenamente, durante o período de testes, os três conversores eletrônicos monofásicos que, atualmente, estão ligados aos painéis solares”, atesta Ernesto Ruppert Filho, professor de engenharia elétrica da Unicamp que supervisionou o estudo.
Villalva explica que os painéis solares fotovoltaicos geram energia elétrica na forma de corrente contínua, diferente da utilizada na rede elétrica que abastece as cidades, que é de corrente alternada. Por isso, a energia elétrica gerada por esses painéis não pode ser imediatamente aproveitada para o uso convencional, sendo necessária a utilização do conversor.
De acordo com o engenheiro, o efeito fotovoltaico é a geração de corrente elétrica em materiais semicondutores expostos à luz. “Os fótons luminosos incidem nos átomos do material semicondutor e arrancam elétrons das camadas externas, originando um fluxo de elétrons”, explica. Porém, as células fotovoltaicas produzem pouca energia. Cada painel, portanto, é composto por várias delas. “Normalmente, esses painéis possuem potências entre 100w e 200w. Mas eles também podem ser associados, dando origem a usinas de geração solar fotovoltaica de várias dezenas de megawatts”, esclarece o cientista.
Uso doméstico
Enquanto, no Brasil, a tecnologia de conversores de energia elétrica solar conectados à rede elétrica ainda está sendo desenvolvida, na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália e no Japão é comum as residências e prédios comerciais possuírem painéis solares ligados à rede elétrica. “Isso evidencia uma enorme defasagem tecnológica”, afirma Villalva. Segundo o pesquisador, nesses países, qualquer pessoa pode ter em casa um sistema de geração solar conectado à rede elétrica, prática incentivada pelos governos por meio de subsídios, em alguns casos.
Ruppert Filho acrescenta que as vantagens da produção de conversores nacionais são as mesmas do domínio de qualquer tecnologia: não pagar royalties, diminuir a necessidade de importação, facilidade e rapidez de manutenção. Além disso, no caso específico do conversor, o domínio da tecnologia traz a possibilidade de troca de informação entre as concessionárias de energia elétrica, os produtores de energia e os fabricantes dos conversores. “Tudo isso pode resultar em queda do preço de cada quilowatt produzido e, portanto, numa conta menor para o consumidor, quando uma quantidade razoável de geração fotovoltaica existir no país”, aponta.
Tanto Villalva quanto Ruppert Filho vislumbram um futuro próximo no qual qualquer consumidor de energia elétrica, domiciliar, comercial ou industrial, poderá ter painéis fotovoltaicos em sua instalação, produzindo energia elétrica para o seu gasto e vendendo a sobra para a concessionária de energia elétrica. “Para isso, deverá haver uma regulamentação e alterações nos padrões de medição dos consumidores no sentido de que seja possível medir não só a energia consumida da rede elétrica, mas também a energia fornecida à rede elétrica”, diz o engenheiro.
Em nível mundial, a líder em tecnologia na área de energia solar é a Alemanha, onde são instalados 6,5 mil MW (megawatts) de geração fotovoltaica, o que significa metade da energia produzida pela hidrelétrica de Itaipu. Com nível de irradiação solar superior ao da Alemanha, o Brasil poderia se tornar uma potência na geração de energia solar. “O Brasil, um país onde o sol brilha quase o ano inteiro, ainda não aprendeu a usar essa fonte de energia”, lamenta Villalva.
1 – Mais barato
A estimativa é de que o conversor nacional possa custar até 50% menos do que um importado, considerando que o equipamento vindo de fora do país agrega impostos de importação, despesas de frete e os lucros dos distribuidores. O equipamento nacional, além de mais barato, por ser feito no país, não terá a incidência de todos os custos que o importado possui. Para se ter um ideia, um equipamento de 8kw importado custa cerca de US$ 5 mil (preço nos EUA). No Brasil, chega ao consumidor por cerca de R$ 20 mil. O equipamento nacional deverá custar entre R$ 6 mil e R$ 10 mil.
Entrevista com Marcelo Villalva
1. Quantas pessoas participaram da pesquisa?
Esta pesquisa foi realizada no Laboratório de Eletrônica de Potência (LEPO) da FEEC/UNICAMP. O laboratório possui cerca de 10 pesquisadores que são supervisionados pelo professor Dr. Ernesto Ruppert Filho. Esta pesquisa especificamente foi conduzida por mim, sob supervisão do professor Ruppert.
2. Do que se trata a pesquisa?
A pesquisa teve o objetivo de construir um “conversor de energia elétrica” que permite retirar a energia elétrica dos painéis solares fotovoltaicos e distribuí-la na rede elétrica. A energia dos painéis solares não pode ser aproveitada sem o uso de um conversor, então todos os sistemas fotovoltaicos precisam de um conversor.
3. Quando o estudo iniciou? Por quê?
Este estudo foi iniciado quatro anos atrás quando a UNICAMP construiu uma usina de geração solar para fazer experiências com esta tecnologia. Além da UNICAMP, diversas universidades no Brasil já estão realizando experimentos semelhantes, porém em todos os casos os equipamentos são importados: tanto os painéis solares como os conversores que converterm a energia dos painéis. Quando eu soube desta experiência da UNICAMP eu fiquei me perguntando: por que precisamos comprar conversores de outros países se nós temos competência para fazê-los aqui? Então eu usei esse tema para a minha pesquisa de doutorado e construí um conversor com tecnologia própria, desenvolvida por mim. Foi um trabalho de quatro anos e o que temos agora é um protótipo de laboratório, mas poderá tornar-se um produto comercial em breve. Eu espero agora continuar a pesquisa e envolver mais pessoas nisso para que possamos dominar 100% a tecnologia no Brasil e eliminar de vez nossa dependência de tecnologia estrangeira nesta área.
4. Qual a importância do conversor?
Este conversor é importante porque para fazer o aproveitamento de fontes alternativas de energia (sol, vento e outras) é preciso ter algum tipo de conversor para compatibilizar a eletricidade que essas fontes geram com a eletricidade com a qual nós já estamos acostumados. Os conversores estão presentes em todos os sistemas baseados em fontes alternativas e limpas de energia.
5. Quais são as vantagens?
Eu posso destacar primeiramente as vantagens da energia solar. Apesar de ainda não ser tão barata como as outras formas de energia (hidroeletricidade e petróleo, por exemplo), a energia solar é uma grande aposta para o futuro por tratar-se de uma energia limpa. Os países europeus, Estados Unidos, Japão, Austrália e os asiáticos estão investindo somas enormes de dinheiro para transformarem-se em países solares. A Alemanha é hoje o país que mais aproveita este recurso. O Brasil, um país onde o Sol brilha o ano inteiro, ainda não aprendeu a usar esta forma de energia.
6. O Brasil utiliza conversores importados. Qual a importância de ter um nacional? E os ganhos?
É importante ter um conversor nacional para não precisarmos comprar de outros países. Além de ser muito caro para importar, o que dificulta o aproveitamento da energia solar no país, nós precisamos aprender a fazer essas coisas em casa. Vários países possuem tecnologia nessa área, então por que teria que ser diferente no Brasil? Temos que desenvolver tecnologia própria para reduzir nossa dependência e gerar riqueza e bem-estar para nosso país. Resumindo: a existência de um conversor nacional, além de reduzir os custos para o consumidor, tem a vantagem de nos tornar menos dependentes do resto do mundo. Quanto aos ganhos, é difícil falar em números agora, pois o conversor ainda não é comercial e não está à venda no mercado. Mas pela experiência que temos na universidade com a importação de equipamentos, acredito que a versão nacional poderá sair por um terço do preço de um conversor importado.