sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Mito do alto custo das energias renováveis

Segundo dados recentes da Agência Internacional de Energia, o custo da energia solar fotovoltaica caiu cerca de 90% na última década, enquanto a eólica terrestre registrou quedas superiores a 70% no mesmo período. Essa dramática redução de custos não é um fenômeno temporário ou localizado.
Veja os principais mitos e verdades sobre energia solar

Dados da Agência Internacional de Energia mostram que custos de energia solar caíram 90% na última década, desmontando narrativa de que renováveis encarecem conta de luz do consumidor.

Enquanto a indústria fóssil alega que fontes limpas encarecem a conta de luz, dados mostram exatamente o oposto

A produção de eletricidade, no fim das contas, obedece a princípios econômicos bastante simples. Para o consumidor que recebe sua conta de luz no final do mês, pouco importa se a energia que alimenta sua casa veio de uma hidrelétrica, de painéis solares ou de uma usina a carvão. O que realmente pesa no bolso é o valor da fatura.

É precisamente neste ponto que reside uma das narrativas mais persistentes — e enganosas — do debate energético contemporâneo. A indústria de combustíveis fósseis vem repetindo há anos que a transição para energias renováveis inevitavelmente resultaria em contas mais caras para o consumidor final. Trata-se de uma afirmação que não resiste aos dados, mas que, através da repetição insistente, consegue influenciar a opinião pública e enfraquecer o apoio político às políticas de descarbonização.

A realidade dos números

A verdade inconveniente, para os defensores do modelo energético do século passado, é que as energias renováveis se tornaram não apenas competitivas, mas frequentemente mais baratas que suas contrapartes fósseis. Segundo dados recentes da Agência Internacional de Energia, o custo da energia solar fotovoltaica caiu cerca de 90% na última década, enquanto a eólica terrestre registrou quedas superiores a 70% no mesmo período.

Essa dramática redução de custos não é um fenômeno temporário ou localizado. Trata-se de uma tendência global e estrutural, impulsionada por avanços tecnológicos, economias de escala e crescente eficiência na fabricação e instalação desses sistemas. Em contraste, os custos de extração e processamento de combustíveis fósseis mantêm-se relativamente estáveis ou em elevação, sujeitos ainda à volatilidade geopolítica e à crescente escassez de reservas de fácil acesso.
O Declínio do preço da eletricidade proveniente de fontes renováveis

Muito além do preço imediato

A comparação honesta entre fontes fósseis e renováveis precisa considerar não apenas o custo direto de geração, mas também as chamadas externalidades — impactos que não aparecem diretamente na conta de luz, mas que a sociedade paga de outras formas.

Poluição atmosférica, mudanças climáticas, custos com saúde pública, relacionados à qualidade do ar e degradação ambiental, são apenas alguns dos “custos ocultos” da energia fóssil que, se contabilizados, tornam as renováveis ainda mais vantajosas economicamente. Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional estimou que os subsídios globais aos combustíveis fósseis, incluindo essas externalidades não contabilizadas, ultrapassam US$ 7 trilhões anuais.

Fontes renováveis serão suficientes para resolver a crise global de energia?

A máquina da desinformação

Diante dessa realidade econômica desfavorável, setores ligados aos combustíveis fósseis investem pesadamente em campanhas de comunicação que distorcem os fatos. A estratégia é familiar: semear dúvidas, exagerar desafios técnicos solucionáveis e, principalmente, repetir a mensagem de que renováveis são caras até que ela se torne uma “verdade” aceita.

Essa repetição incessante funciona. Mesmo quando confrontadas com evidências contraditórias, narrativas repetidas com frequência suficiente tendem a ser aceitas como verdadeiras — um fenômeno psicológico bem documentado conhecido como “efeito da mera exposição” ou “ilusão da verdade”.

O resultado prático dessa desinformação sistemática é devastador para os esforços de transição energética. Políticos hesitam em apoiar políticas de descarbonização por medo de serem acusados de aumentar custos para a população. Investimentos em infraestrutura renovável são adiados. Subsídios a combustíveis fósseis permanecem intocados, sob o argumento falacioso de “proteger o consumidor”.

Desafios na área de energias renováveis

Transparência e informação como resposta

Combater essa narrativa exige mais do que simplesmente apresentar dados corretos — embora isso seja fundamental. É necessário um esforço coordenado de comunicação clara e acessível sobre a economia da energia, capaz de alcançar o cidadão comum e desmistificar a questão.

Organizações de defesa do consumidor, meios de comunicação comprometidos com a precisão factual e instituições acadêmicas têm papel crucial nesse processo. Quando a população compreende que as energias renováveis não apenas protegem o meio ambiente, mas também oferecem eletricidade mais barata e estável a longo prazo, o apoio à transição energética se fortalece naturalmente.

O caminho à frente

A transição para uma matriz energética descarbonizada é uma necessidade ambiental urgente e uma oportunidade econômica cada vez mais evidente. Países e regiões que investem decididamente em renováveis colhem os benefícios de contas de energia mais previsíveis e acessíveis, além de maior segurança energética.

Permitir que a desinformação continue a atrasar esse processo não prejudica apenas o clima global, mas também o bolso do consumidor que, ironicamente, a indústria fóssil alega defender. A verdade sobre os custos da energia precisa ser contada com clareza, repetida com insistência e defendida com dados.

Afinal, se há uma lição que o debate energético nos ensina, é que a repetição molda percepções. Está na hora de repetirmos a verdade com a mesma persistência com que a desinformação tem sido disseminada: energias renováveis são mais baratas, mais limpas e representam o futuro inevitável e desejável da produção de eletricidade. (ecodebate)

Caminho da eletrificação do transporte rodoviário de carga no Brasil

e-Delivery inicia eletrificação do transporte de carga no Brasil

O caminho da eletrificação do transporte rodoviário de carga no Brasil envolve desafios e oportunidades, como a alta dependência do diesel, a necessidade de infraestrutura, a viabilidade de tecnologias alternativas (incluindo a forte participação de biocombustíveis e energia renovável) e a busca por descarbonização. Apesar do domínio do diesel, tecnologias elétricas e híbridas devem crescer, especialmente em segmentos como entrega em última milha e ônibus urbanos.

Desafios e contexto

Alta dependência do diesel: O setor é predominantemente movido a diesel e o transporte rodoviário é o modal mais usado no Brasil, responsável por mais de 65% da movimentação de cargas.

Impactos ambientais e de saúde: O setor é um dos principais emissores de gases de efeito estufa e poluentes, como óxidos de nitrogênio e material particulado fino, que causam problemas de saúde pública.

Custo: As emissões do setor impõem custos elevados ao sistema de saúde e ao meio ambiente.

Infraestrutura: A infraestrutura de recarga e abastecimento para veículos elétricos e alternativos ainda é um gargalo para a eletrificação em larga escala.

Oportunidades e caminhos

Tecnologias alternativas: A eletrificação é uma das alternativas para a descarbonização, mas o Brasil tem potencial para explorar outras rotas, como o uso de biocombustíveis, gás natural e tecnologias híbridas.

Crescimento da eletrificação: A projeção é que a eletrificação do transporte de carga pesada ocorra de forma gradual, começando por nichos como entrega urbana, caminhões leves e ônibus.

Matriz energética: A forte participação de energias renováveis na matriz elétrica do país pode potencializar a adoção de veículos elétricos.

Incentivos e inovação: O Brasil tem buscado incentivar a transição energética no setor de transporte por meio de plataformas e iniciativas que buscam viabilizar a eletrificação da logística.

Combustíveis renováveis: A produção nacional de biocombustíveis e a forte capacidade de geração de energia hidrelétrica e eólica abrem caminhos para a descarbonização do setor.
De acordo com uma nova pesquisa da Interact Analysis, prevê-se que os caminhões elétricos a bateria (BEV) representem 17% dos registros de caminhões em todo o mundo em 2025 e cheguem a 43% em 2030.

Eletrificação da carga no Brasil: uma corrida contra o tempo para modernizar o transporte nacional

A revolução dos caminhões elétricos, já em curso globalmente, impõe ao Brasil a urgência de superar desafios históricos para não perder competitividade e sustentar seu crescimento.

Enquanto o mundo acelera a transição para um futuro de baixo carbono, o setor de transportes no Brasil se encontra em uma encruzilhada decisiva. A eletrificação do transporte rodoviário de carga, impulsionada por uma revolução tecnológica liderada pela China, deixou de ser uma projeção futurista para se tornar uma questão de urgência estratégica. Para a nação que possui uma das maiores malhas rodoviárias e cuja economia depende intrinsecamente do caminhão, adiar essa transição é comprometer a competitividade, a sustentabilidade e a resiliência logística do país para as próximas décadas.

Eletrificação e biocombustíveis: os desafios da transição no transporte rodoviário

A urgência silenciosa: o mundo não espera

A discussão no Brasil ainda frequentemente gira em torno de “se” os caminhões elétricos são viáveis. No resto do mundo, especialmente na China, a questão já foi resolvida. Dados do especialista Michael Barnard, publicados no site CleanTechnica, revelam que a China foi responsável por 95% de todas as vendas globais de caminhões pesados elétricos em 2024.

Com mais de 53 mil unidades vendidas apenas no ano passado e uma frota operacional que já representa 70% do global, fica claro que não se trata de um nicho de mercado, mas de uma mudança estrutural.

A urgência para o Brasil reside nesse novo panorama global. Caminhões elétricos chineses, com custo total de propriedade (TCO) já inferior ao do diesel, começarão a ser exportados em massa. Empresas multinacionais com operações no Brasil, pressionadas por metas globais de ESG (Environmental, Social, and Governance), demandarão transportadoras com frotas limpas.

Quem não se adaptar, perderá contratos e verá seus custos logísticos se tornarem progressivamente mais altos em comparação com concorrentes de países que adotaram a nova tecnologia.

A importância estratégica: muito além do verde

A eletrificação da carga no Brasil vai muito além do benefício ambiental, que por si só já é crucial, considerando a participação significativa do transporte na matriz de emissões nacionais. Trata-se de um imperativo econômico com impactos diretos na competitividade:

• Redução de custos logísticos: O custo da eletricidade para mover um caminhão é drasticamente menor que o do diesel. Para um setor onde o combustível pode representar até 40% dos custos operacionais, a economia é transformadora.

• Previsibilidade financeira: A eletricidade oferece uma estabilidade de preço incomparável, frente à volatilidade do diesel, atrelada às incertezas geopolíticas do petróleo. Isso permite um planejamento financeiro de longo prazo muito mais seguro para transportadoras e embarcadores.

• Modernização da frota: A eletrificação é a oportunidade para saltar de uma frota envelhecida e ineficiente para uma de ponta, com veículos conectados, mais seguros e com menor custo de manutenção.

Os desafios a serem superados

Reconhecer a urgência e a importância não basta. É essencial enfrentar os desafios concretos que impedem a aceleração dessa transição no país.

1. Infraestrutura de recarga: O calcanhar de Aquiles. O Brasil precisa, com urgência, de um plano nacional para a instalação de uma rede de eletropostos de alta potência ao longo de seus principais corredores rodoviários. Sem a garantia de que um caminhão elétrico possa recarregar de forma rápida e confiável na BR-116 ou na BR-163, a operação de longa distância – a espinha dorsal do transporte nacional – se torna inviável.

2. Políticas públicas: A falta de ‘sinal verde’. O Estado precisa sair da inércia e criar um marco regulatório incentivador. Isso inclui:

• Incentivos fiscais: Redução ou isenção de IPI, ICMS, IPVA e impostos de importação para caminhões elétricos e componentes.

• Financiamento: Criação de linhas de crédito específicas no BNDES e em bancos comerciais, com juros subsidiados, para a aquisição de frotas elétricas.

• Regulamentação: Definição clara das regras para a comercialização de energia elétrica para terceiros, permitindo que postos de combustível e empresas privadas instalem e explorem pontos de recarga pública.

3. Desenvolvimento da cadeia produtiva: Não apenas consumir, mas produzir. O maior desafio de longo prazo é evitar que o Brasil se torne um mero importador de tecnologia. É fundamental fomentar uma cadeia produtiva local, atraindo montadoras para fabricar veículos elétricos aqui e, principalmente, desenvolvendo a produção nacional de componentes críticos, como baterias, e serviços especializados em conversão e manutenção.

A janela de oportunidade para o Brasil se posicionar nessa nova economia não estará aberta para sempre. A transição para os caminhões elétricos é inevitável. A escolha do país é entre ser um líder regional, aproveitando para modernizar sua infraestrutura e indústria, ou um seguidor tardio, assistindo passivamente ao aumento do custo Brasil e à perda de competitividade no cenário global. O tempo para definir esse rumo é agora.

Eletrificação é O Futuro Para Transporte De Carga No Brasil? (ecodebate)