segunda-feira, 20 de abril de 2009

O mundo se prepara para a nova era dos combustíveis renovados

A expressiva disponibilidade de água doce e grandes extensões de terras ainda não utilizadas é o que torna o Brasil um País sem competidores na nova era que se inicia para a humanidade.
O temor em relação ao fim da era dos combustíveis fósseis e de débâcle da energia nuclear acaba de ser confirmada pela realização do Fórum Mundial em Bonn, promovido pelo governo da Alemanha e mais 80 organizações sob o tema “Desafio do Século: Uma Estratégia Global para as Energias Renováveis”.
O governo alemão toma essa importante iniciativa depois de rejeitar o próprio programa de fissão nuclear, que já respondia por 30% da eletricidade que o país consome e também para favorecer a proposta de tentar aprovar no Parlamento da União Européia a retirada, a partir de 2007, dos impostos sobre fontes de energias renováveis. Ademais, a Alemanha transformou-se na principal potência industrial na geração de energia eólica, batendo o Japão e os EUA, como também consolidou sua intransigente defesa dos objetivos do Protocolo de Kyoto, que objetiva a redução da queima de combustíveis fósseis responsáveis pelas mudanças de clima no Planeta.
É surpreendente e estarrecedora a completa ausência do Brasil nesse importante encontro, considerando que foi o nosso País a única nação que realizou com sucesso o mais importante programa mundial de substituição de gasolina, graças à criação do Proálcool.
A circunstância reflete, igualmente, o profundo retrocesso do Brasil no concerto internacional lembrando que em 1980, logo após a segunda crise do petróleo ocorrida no ano anterior, na Conferência Mundial de Biomassa, realizada em Atlanta, nos EUA, o programa brasileiro de combustível renovável ocupou mais de 30% do temário, fazendo jus à mensagem inédita, altamente elogiosa, do próprio Presidente Carter.
Hoje o Brasil, conforme seminário recente promovido pelo BNDES, ainda é o maior produtor mundial de álcool combustível, embora seu uso - na versão hidratada - esteja em total decadência - menos de 1% dos carros a álcool no ano passado, em comparação com 96%, em 1986, mesmo sendo produzidos pela metade do preço do segundo produtor, os EUA. As condições brasileiras no campo tecnológico tornam o Brasil sem competidor, sendo o único país que não concede qualquer tipo de subsídio, o que ainda permite colocar o produto nas bombas por menos da metade do preço da gasolina.
Os EUA, que acabam de constatar o desastre ecológico causado pelo MTBE (Metil tercil butil éter), substância de origem petroquímica posta em uso para evitar importações de álcool no Brasil e que provocou a contaminação de 50% nos poços de água potável em 31 Estados estadunidenses, aplicam um subsídio de 100% de proteção ao álcool, produzido a partir do milho.
Concomitantemente, as ações bélicas promovidas pelo Governo Bush determinando a ocupação de regiões do mundo diretamente ligadas ao petróleo - Arábia Saudita, Afeganistão e Iraque - bem como a potencial ameaça ao Irã, estão criando em nações que também são grandes consumidoras de petróleo, um crescente interesse quanto à garantia no fornecimento de combustíveis alternativos aos derivados do petróleo tais como os oriundos da biomassa, como o etanol, o “biodiesel”, a partir de óleos vegetais e outros combustíveis renováveis e limpos.
Sendo esses produtos resultantes da captação da radiação solar pela fotossíntese nas plantas, eles são abundantes nas regiões tropicais com expressiva disponibilidade de água doce e grandes extensões de terras ainda não utilizadas. É exatamente isso que torna o Brasil um País sem competidores na nova era que se inicia para a humanidade, conforme será discutido em Bonn, no final deste mês, com vistas à criação de um novo processo civilizacional, a partir de energias renováveis. É inexplicável, por conseguinte, a atual omissão do Brasil nesse encontro em que se discutirá o futuro da humanidade. Temos uma incomparável contribuição a dar, graças às nossas extraordinárias e insuperáveis vantagens comparativas naturais, além da histórica vantagem tecnológica como executores do único programa mundial de sucesso em produção extensiva de energia renovável e limpa, embora submetido a condições financeiras e de mercado internacional de massacre, fruto da pusilanimidade do governo passado e de seu interesse em servir às forças econômicas mundiais o que, de certa forma e para a nossa tristeza, também está acontecendo no atual governo.

sábado, 18 de abril de 2009

Brasil produzirá diesel de cana-de-açúcar a partir de 2010

Tecnologia, criada por empresa americana, será usada pela primeira vez em usina paulista
O mesmo caldo de cana que serve como matéria-prima para a produção de açúcar e álcool servirá em breve, também, para a produção de diesel. A nova tecnologia, desenvolvida pela empresa Amyris, da Califórnia, vai ser colocada em prática no interior paulista em 2010, em sociedade com a Votorantim Novos Negócios e a Usina Santa Elisa, de Sertãozinho. A meta é produzir 400 milhões de litros no primeiro ano e 1 bilhão de litros, em 2012.
O processo é muito parecido com o da produção de álcool combustível, que utiliza leveduras para fermentar os açúcares presentes na cana e secretar etanol. A diferença crucial que foi a grande inovação produzida pela Amyris está no DNA da levedura, que foi geneticamente modificada para secretar diesel no lugar de álcool.
Resultado da fermentação é uma molécula chamada farneceno, com 12 átomos de carbono e as propriedades essenciais do diesel de petróleo, mas nenhuma da indesejadas, como a mistura de enxofre, poluente altamente prejudicial à saúde.
Enquanto o diesel de petróleo e mesmo o biodiesel de óleos vegetais, contém uma mistura de várias moléculas combustíveis, o diesel de cana tem apenas o farneceno, que pode ser usado diretamente no motor. É um combustível puro.
O diesel de petróleo é o mais poluente dos combustíveis fósseis. O diesel de cana-de-açúcar, além de ser livre de enxofre, o que reduz o impacto sobre a poluição urbana, é renovável em relação ao carbono que emite para a atmosfera, o que reduz o impacto sobre o aquecimento global. A exemplo do que já ocorre com o etanol, o CO2 que sai do escapamento é reabsorvido, via fotossíntese, pela nova cana que está brotando no campo. Quando a cana é colhida, o carbono é convertido novamente em combustível, reemitido, reabsorvido e assim por diante.
A cana não tem óleo, apenas fornece o açúcar necessário para alimentar as leveduras que vão produzir o combustível. É um processo completamente diferente do usado para produção de biodiesel, que é um combustível refinado de óleos vegetais, como de soja e mamona.
São necessários mais de 15 genes para transformar a levedura em uma fábrica biológica de diesel. A espécie usada no processo é a mesma da fermentação do álcool (Saccharomyces cerevisiae), a origem dos novos genes é mantida em segredo até que as patentes sejam publicadas.
A idéia, a princípio, é que o diesel de cana entre no mercado como um adicional ao diesel de petróleo, e não como um concorrente, já que a produção inicial será muito pequena. O Brasil consome cerca de 45 bilhões de litros de diesel, dos quais 5 bilhões precisam ser importados. O desenvolvimento do produto final será feito no Brasil, com a participação de cientistas brasileiros. O interesse em trazer a tecnologia para o Brasil é simples, a matéria-prima é o carbono, e o carbono mais barato do mundo é o carbono de cana do Brasil, é igual à cadeia do petróleo. A idéia é que a produção aumente e ganhe mercado gradativamente, com um custo igual ou inferior ao do diesel de petróleo. O custo inicial previsto é de US$ 60 o barril, já bastante competitivo.
As adaptações necessárias nas usinas para produzir diesel em vez de etanol são mínimas. De certo modo, basta trocar a levedura no fermentador. Em alguns anos, os usineiros poderão optar por produzir o que for mais vantajoso, álcool, diesel ou açúcar, com grande flexibilidade.
O diesel de cana surge como mais uma opção no menu de energias renováveis que o mundo procura para substituir os combustíveis fósseis (derivados de petróleo, carvão e gás), que são os principais responsáveis pelo aquecimento global. A cana já oferece duas dessas opções: o álcool combustível e o bagaço, que é queimado para produção de energia elétrica. Agora serão três (etanol, diesel e biomassa), com potencial para chegar a quatro, cinco, ou até seis. Com as mesmas técnicas de engenharia molecular, é possível "ensinar" a levedura a produzir quase qualquer tipo de molécula.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Brasil tem o maior programa de energia limpa

A tecnologia Flex Fuel, que permite usar álcool ou gasolina no mesmo motor, foi lançada no mercado automotivo brasileiro em março de 2003. Rapidamente, a tecnologia ganhou a preferência dos consumidores e da indústria, de modo que, hoje, 25% da frota circulante e 70% dos veículos que saem das montadoras no País são do tipo flex, são dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA).
A produção de álcool combustível (etanol) avançou no vácuo dos motores, pulando de 14,8 bilhões de litros na safra de cana 2004 para 22,4 bilhões de litros, na safra 2008, segundo estatísticas da União da Indústria de Cana- de- Açúcar (Única). Na próxima colheita, a expectativa é produzir 27 bilhões de litros de etanol, o que proporcionaria uma economia de 53 milhões de toneladas de CO2 em emissões evitadas, comparado ao que seria emitido com o uso de gasolina.
A conta inclui tanto o álcool anidro (puro) quanto o hidratado, que é misturado à gasolina, diferentemente da conta de 42,5 milhões de toneladas, que inclui só o combustível usado em motores flex. 'Nenhum país do mundo tem um programa de energia renovável da dimensão do Brasil. Os Estados Unidos consomem mais álcool do que o Brasil, mas isso não passa de 3% da matriz energética americana.
No Brasil, a cana-de-açúcar já supre 16% das necessidades energéticas do País. Estamos descarbonizando o nosso setor de transportes. O etanol é um combustível chamado 'renovável' porque o CO2 que ele emite é reabsorvido pelas lavouras de cana que estão crescendo no campo. Apenas uma pequena parte, cerca de 3%, fica na atmosfera. A cadeia do álcool só não é 100% renovável por causa do CO2 emitido pelo diesel que é usado para movimentar as máquinas agrícolas e os caminhões que transportam o etanol para distribuição.
Com a substituição desse diesel por biodiesel ou outras formas de transporte menos poluentes, é possível que o setor se torne até um sorvedor de carbono. Em cinco anos, esse porcentual que fica na atmosfera já deixará de existir. Vamos ter um sistema que absorve mais CO2 do que emite.
O etanol tenha outras vantagens ambientais, a fumaça produzida pela combustão do álcool é bem menos tóxica do que a dos derivados de petróleo e contém pouquíssimo enxofre e nenhum benzeno.A combustão de álcool no motor do carro emite menos CO2 do que a combustão de gasolina. Porém, o álcool rende menos, consome mais litros por km rodado. A vantagem do álcool sobre o clima não está no que sai pelo escapamento, mas no fato de que o CO2 emitido pela cadeia de produção e consumo é constantemente reciclado.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Biomassa: uma energia brasileira

Biomassa é ainda um termo pouco conhecido fora dos campos da energia e da ecologia, mas já faz parte do cotidiano brasileiro. Fonte de energia não poluente, a biomassa nada mais é do que a matéria orgânica, de origem animal ou vegetal, que pode ser utilizada na produção de energia. Para se ter uma idéia da sua participação na matriz energética brasileira, a biomassa responde por um quarto da energia consumida no País.
Esse percentual tende a crescer com a entrada em operação de novas usinas. Até 2006, devem começar a funcionar 26 novos empreendimentos de geração de energia a partir da biomassa selecionados pela Eletrobrás para o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA). Todos os organismos biológicos que podem ser aproveitados como fontes de energia são chamados de biomassa. Entre as matérias-primas mais utilizadas estão a cana-de-açúcar, a beterraba e o eucalipto (dos quais se extrai álcool), o lixo orgânico (que dá origem ao biogás), a lenha e o carvão vegetal, além de alguns óleos vegetais (amendoim, soja, dendê). Em termos mundiais, os recursos renováveis representam cerca de 20% do suprimento total de energia, sendo 14% proveniente de biomassa e 6% de fonte hídrica. No Brasil, a proporção da energia total consumida é cerca de 40% de origem hídrica e 25% de origem em biomassa, significando que os recursos renováveis suprem algo em torno de dois terços dos requisitos energéticos do País. A biomassa é uma forma indireta de aproveitamento da energia solar absorvida pelas plantas, já que resulta da conversão da luz do sol em energia química. Estima-se que existam dois trilhões de toneladas de biomassa no globo terrestre ou cerca de 400 toneladas por pessoa, o que, em termos energéticos, corresponde a 8 vezes o consumo anual mundial de energia primária (produtos energéticos providos pela natureza na sua forma direta, como o petróleo, gás natural, carvão mineral, minério de urânio, lenha e outros). Em 2004, três novas centrais geradoras a biomassa (bagaço de cana) entraram em operação comercial no País, acrescentando 59,44 MW à matriz de energia elétrica nacional. Projeções da Agência Internacional de Energia indicam que o peso relativo da biomassa na geração mundial de eletricidade deverá passar de 10 terawatts/hora (TWh), em 1995, para 27 TWh em 2020. Para se ter uma idéia de quanto isso representa, o Brasil consumiu 321,6 TWh em 2002.
Atuando no mercado há mais de 60 anos, a Companhia Energética Santa Elisa, localizada em Sertãozinho (SP), produz 30 MW/h de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes. O custo da energia produzida é de US$ 30/megawatt/hora. Sai mais barato do que a energia produzida em uma hidrelétrica, se considerarmos que para construir uma usina desse tipo é necessário gastar muito dinheiro. Há também os problemas ambientais e sociais. Destacam-se as vantagens da biomassa em termos de controle da poluição: O uso desse tipo de fonte renovável de energia está diminuindo a emissão de gases poluentes no ambiente. Aproveitando o bagaço da cana para produzir energia elétrica, estamos preservando a natureza. Na produção de energia a partir de biomassa, não há emissão de dióxido de carbono e as cinzas são menos agressivas ao meio ambiente, em comparação com as provenientes de combustíveis fósseis, como o petróleo.
É muito importante para um país como o Brasil produzir energia onde ela será consumida e poder produzi-la sem o risco de que acabe. O uso dessa energia gera empregos e renda ao envolver mão-de-obra local na produção. Mais de 1 milhão de pessoas trabalham com Biomassa no Brasil e o número tende a crescer. Dados do Balanço Energético Nacional (edição 2003) revelam que a participação da biomassa na matriz energética brasileira é de 27%, a partir da utilização de lenha de carvão vegetal (11,9%), bagaço de cana-de-açúcar (12,6%) e outros (2,5%). O potencial autorizado para empreendimentos de geração de energia elétrica, de acordo com a ANEEL, é de 1.376,5 MW, quando se consideram apenas centrais geradoras que utilizam bagaço de cana-de-açúcar (1.198,2 MW), resíduos de madeira (41,2 MW), biogás ou gás de aterro (20 MW) e licor negro (117,1 MW).
Energia a partir da casca de cupuaçu
Um projeto pioneiro na produção de energia a partir de biomassa está sendo desenvolvido no município amazonense de Manacapuru. O Centro Nacional de Referência em Biomassa, em parceira com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), está testando a casca de cupuaçu como combustível para produção de eletricidade. Para o projeto, foram escolhidas 187 famílias de agricultores do assentamento de Aquidaban. Após a definição de como será feita a distribuição da eletricidade gerada, o sistema – que já está em funcionamento – deve ser inaugurado oficialmente no início de Setembro próximo. A Eletrobrás, a Eletronorte e a Companhia Energética do Amazonas (CEAM) deverão atuar como parceiros no projeto.
Para o CENBIO, o aproveitamento energético da casca de cupuaçu é um importante meio para integrar as famílias da região e gerar eletricidade de forma limpa e renovável para uma população carente. “É o primeiro projeto fora da Índia de gaseificação de biomassa num sistema isolado (não conectado à rede nacional interligada)”, explica o coordenador do projeto, Osvaldo Martins.
O princípio de transformação da casca do cupuaçu em combustível é relativamente simples. A casca, com umidade máxima de 6%, é queimada dentro de um gaseifica dor com pouco oxigênio. A combustão incompleta produz, no lugar da fumaça, um gás que tem poder calorífico equivalente a aproximadamente 25% daquele proporcionado pelo gás natural. Esse gás é jogado na entrada de ar do motor a diesel, reduzindo em até 80% o consumo desse combustível. Neste momento ocorre a substituição do diesel pelo gás da casca de cupuaçu. “Se o motor consumia cinco litros de diesel por hora, passará a usar apenas um litro”, explica Martins.
O objetivo do programa, segundo Martins, é mostrar a viabilidade técnica e econômica da geração de energia a partir da casca do cupuaçu na região. “Precisamos ter um cenário real do potencial da adaptação desse novo sistema no Norte do País”, diz Martins. O custo total do programa é de R$ 980 mil, financiados durante dois anos pelos fundos setoriais de energia do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Antes de mandar os equipamentos – importados da Índia – para Manacapuru, os pesquisadores fizeram modificações: Trocar alguns acessórios por similares nacionais facilitará a manutenção. A geração de energia não é o único objetivo do programa: Queremos, além de implementar energia, inserir uma agroindústria à rede de processamento de cupuaçu para agregar mais valor ao produto e gerar renda para a comunidade.

domingo, 12 de abril de 2009

Marxismo e Biomassa

Se a condição para implantar a biomassa é ou não o socialismo, fica na dependência de antes esclarecer qual a relação entre energia e o sistema sócio-político, tendo em vista a era dos combustíveis fósseis que ocupou os últimos 200 anos de história. Podemos verificar que o petróleo, a fissão nuclear, as grandes hidroelétricas, o carvão mineral, o xisto betuminoso, entre outros, pelas suas dimensões de escala são incompatíveis com um sistema socialmente igualitário e, contrariamente, são harmônicos com o grande capital financeiro.
Recordemos que o socialismo foi concebido e implantado sob a égide das formas energéticas fósseis. Trata-se assim de problema até hoje insondável que provavelmente esteja na raiz do fracasso de experiências socialistas que comprometeram alguns de seus objetivos. Como essas formas energéticas predispõem a necessidade de volumes ponderáveis de capital, isso explica, pelo menos em parte, o imperativo do capitalismo de Estado na ex-União Soviética. É necessário enfatizar porém que as formas energéticas derivadas da biomassa condicionam mas não determinam o sistema político, socialista ou não, ou seja, sempre é possível a exploração da biomassa em regime social e politicamente espúrio.
Infere-se daí que historicamente, sobretudo a partir dos finais do Século XVIII, a forma energética fóssil dominante impediu de modo excludente que as potencialidades das regiões tropicais fossem avaliadas em sua função civilizatória. Nascemos como parte do Ocidente centrado na Europa ibérica no Século XVI sob os influxos da biomassa, a qual está na base da expansão mercantil de então.
Esse marco energético vai até o aparecimento do carvão mineral e o seu uso na máquina a vapor, que promoveu a hegemonia inglesa, seguida pela dos Estados Unidos da América e, na seqüência, a exploração intensiva e extensiva do petróleo.
Assim, esse período de 200 anos representou uma pausa na exploração da biomassa, deixando-a submersa e latente, com o predomínio das formas fósseis acumuladas em eras geológicas. Isso, embora tivesse representado apenas breve intervalo da história da humanidade, em suas conseqüências erigiu-se em paradigma inexorável e único como modelo energético de desenvolvimento. Ele resultou de imensa concentração temporal e espacial do combustível fóssil em cotejo com as formas energéticas vegetais tropicais.
Enquanto essas formas energéticas renováveis – hidratos de carbono – exigem plantio, irrigação e colheita, em processo de produção incomparavelmente mais árduo e trabalhoso do que a energia concentrada nos combustíveis fósseis. Estes resultam da transformação dos hidratos de carbono em hidrocarbonetos ao longo de centenas de milhões de anos em processo de fossilização. Disso resultam formas energéticas concentradoras, de reduzidíssimas localizações no planeta, o que favorece a cobiça e o domínio pelo grande capital. Sendo formas não-renováveis têm limitações de uso enquanto as reservas vão se depauperando com o tempo. O mundo hoje vive em estado de guerra devido ao vislumbre do seu término. As grandes potências econômico-militares, dependentes de modo crucial do petróleo, procuram de modo crescente, por meios militares e outros, preservar para si o que sobra dessas reservas em crescente decréscimo.
Sublinhamos anteriormente não haver determinismo sócio-político no uso da energia da biomassa, o que significa que ela pode ter utilização libertária ou liberticida, dependendo da organização política a que está subordinada e, sobretudo, do regime de propriedade. Nesse contexto é preciso esclarecer a questão brasileira do latifúndio, o qual tem se demonstrado ser incompatível com um projeto nacional libertário, esteja ancorado na biomassa ou não. Trata-se de uma apropriação concentrada da terra em mãos de um pequeno número de proprietários, em geral associados ao grande capital financeiro. É processo imanente ao domínio de corporações transnacionais, cuja influência é cada vez mais acentuada nos últimos 10 anos.
O governo FHC quase destruiu o Estado e desmontou a estrutura produtiva industrial de empresas de economia mista e as de capital privado nacionais. Com a política dos transgênicos do governo petista de Luís Inácio Lula delineia-se no horizonte a entrega da terra às grandes corporações transnacionais. Este é um processo novo do domínio colonialista que acarretará crescente desemprego pelos excludentes mecanismos tecnológicos das “plantations”, os quais afastam a absorção da mão de obra extensiva. Se o processo industrial já havia desempregado muita gente pela internacionalização da indústria e sua progressiva e desnecessária automação, agora essa tendência ao desemprego estende-se à área agrícola.
As “plantations” transnacionais da biomassa significariam o genocídio do povo brasileiro. O Clube de Roma anunciou desde o início da década dos 70 que 3/4 da humanidade é dispensável para fins produtivos. É a ideologia do extermínio que, paradoxalmente, convive carnalmente com o Fome Zero e a prosápia da cidadania do governo petista. É a apoteose da ideologia do emprego contra o trabalho.
A internacionalização da terra e sua concentração econômica culminam na política criminosa dos transgênicos resultantes da lei das patentes, que enfeixam sob o regime de monopólio mundial a propriedade das sementes. Isso redunda no adeus à agricultura em mãos de brasileiros e na impossibilidade de sermos os produtores de energia renovável e limpa diante do ocaso do petróleo. Com esse panorama a miragem de uma reforma agrária sob a bandeira petista é uma mistificação.
É desnorteante que setores que poderiam ser dos mais beneficiados com uma política energética da biomassa, como é o caso dos “sem terra”, fazem resistência a essa política.
Associando-a com o regime de latifúndio, manifestam-se reticentes ao uso da biomassa na produção de energia. São menos refratários, porém a outras produções agrícolas como feijão, arroz, trigo etc. ou ao domínio do mercado externo da soja brasileira por meia dúzia de corporações transnacionais.
Há que colocar em discussão o papel do Estado, cuja participação no desenvolvimento econômico brasileiro – em particular no processo de industrialização – foi decisivo. Nas últimas décadas as corporações transnacionais instalaram-se no Brasil com auxilio de amplo programa de subsídios e incentivos dados pelo Estado. Esse processo teve o seu sustentáculo na substituição de importações, tendo por objetivo a incorporação de pacotes tecnológicos trazidos para o país tendo como origem corporações transnacionais. Se esse modelo teve a vantagem de queimar etapas no processo dito de desenvolvimento, em contrapartida consolidou modelo de dependência tecnológica externa.
O historiador Nelson Werneck Sodré assinala em seu livro “Brasil: Radiografia de um Modelo” que desde o plano de metas o imperialismo colocou o Estado brasileiro a seu serviço, sob a aparência da modernização do aparato estatal. Disso é exemplo o setor petroquímico em que houve a junção da Petrobrás com corporações transnacionais e a participação de empresas privadas de capital nacional. É o chamado “Modelo Tripartícipe”. Com as privatizações essas empresas foram internacionalizadas, excluindo a participação das empresas de economia mista, após usufruírem inúmeras vantagens concedidas pelo Estado. Isso consolidou o domínio imperialista com o apoio do Estado. Nas últimas décadas o Estado nacional vem se enfraquecendo sendo aparentemente substituído por supostos investimentos de controle externo que ademais não têm ocorrido como previstos.
O Estado brasileiro foi fundamental na implantação de uma política energética nas áreas de petróleo, energia elétrica e no Programa Nacional do Álcool. O enfraquecimento crescente do Estado debilitou de modo substantivo o desenvolvimento de infra-estruturas energéticas do país, como foram exemplo os setores do álcool e o elétrico, culminando neste último caso com o famigerado afegão, fruto da política de estabilidade financeira do FMI. Este considera investimentos do Estado com o objetivo de aumentar a oferta de energia em resposta ao aumento da demanda, utilizando recursos próprios das empresas, como sendo de efeitos inflacionários. Simplesmente incrível!
Dir-se-ia então que hoje o projeto imperialista objetiva a destruição do Estado, o qual está sendo substituído por corporações transnacionais, ONGs e agentes externos atuando em postos chave das estruturas governamentais. Essa destruição facilita o controle externo dos recursos naturais estratégicos localizadas nas regiões intertropicais, os quais as nações hegemônicas carecem para dar solução a suas necessidades vitais no campo energético.
Assim, o imperialismo utilizou-se do Estado e, agora, o descarta com a ideologia neoliberal: não são mais necessários nem o Estado nem as gentes brasileiras. Noutras palavras, a internacionalização, o extermínio e o desemprego estão indissoluvelmente vinculados. O governo do Presidente Lula, entretanto, nada faz para reverter esse quadro antinacional. Apenas interrompeu as privatizações, porém isso de pouco adianta se não houver a recomposição do Estado. Sob o argumento falseado da governabilidade, o país é submetido às garras do imperialismo. Isso analisado do ângulo energético ganha conotação nociva ante a sobrevivência nacional. Trata-se de dupla omissão na etapa histórica em que a questão energética é essencial ante o esgotamento do petróleo: a cegueira em relação ao trópico e o descuido diante da oportunidade mundial em que o Brasil poderia afirmar-se como potência econômica.
É importante enfatizar que essa oportunidade é única em toda a história: nenhum outro país a teve nas circunstâncias atuais do Brasil. Por mais louvável que seja a atuação do chanceler Amorim, a sua política externa não encontra suporte interno, apesar das nossas excepcionais condições natural. Não existe projeto prevendo o aproveitamento dessas oportunidades e, pelo contrário, caminha-se em direção oposta: a internacionalização destrutiva, incompatível com a necessidade de fortalecimento do Estado nacional. Por suporte interno designamos uma estratégia de poder que mude a matriz energética dando prioridade às potencialidades dos trópicos, fundamento imprescindível a uma política externa independente. Nesse campo as vantagens comparativas brasileiras são incomparáveis.
No panorama contemporâneo observa-se uma situação dramática do ponto de vista energético, envolvendo países da importância da China, Índia, Japão e Alemanha. Eles necessitam soluções energéticas renováveis e limpas que somente se encontram disponíveis nas condições naturais do continente tropical brasileiro. As demais regiões tropicais (Austrália, Indonésia, África Central e Sudeste Asiático) não desfrutam de enormes áreas territoriais ainda vazias, recursos hídricos abundantes, intensa e exuberante radiação solar como ocorrem no continente brasileiro.
O relacionamento da nação brasileira com esses países deve ser equacionado de maneira equânime, e não pela via submissa e colonial que tem caracterizado a postura do Brasil diante do poder mundial.
Essa mudança interna da matriz energética e sua correspondente política externa é a maneira de o Brasil assumir um papel de independência fortalecendo-se com pactos externos com esses países e caminhando na direção que lhe cabe de sujeito da história neste crucial momento de colapso dos combustíveis fósseis. Isso implica em superar a deplorável condição colonial das últimas duas décadas de neoliberalismo deplorável.
O nosso desafio é romper com a dependência, e não a covardia de administrá-la ao erigir a impotência como signo da identidade nacional. Com a iminência do ocaso dos combustíveis fósseis estamos diante de um fato novo relacionado com os limites do capital, que vão além das contradições internas entre as forças produtivas e as relações de produção, porque agora o que está em jogo, pela primeira vez na história do homem, é a possibilidade da destruição entrópica da natureza, ao tornar-se problemática a sua capacidade de produzir trabalho. É por isso que o epicentro energético do futuro da humanidade situa-se nas regiões intertropicais, onde está banido o aumento da entropia do universo por causa do permanente fluxo eletromagnético irradiado pelo astro rei: o sol. Este fluxo permite a estabilidade de um mundo auto-sustentável, crucial no futuro do processo de desenvolvimento das civilizações.
Os essenciais condicionantes da natureza, os recursos naturais variados e abundantes, as vantagens comparativas incomparáveis, todas as oportunidades oferecidas são porém inócuos diante da falsa simbologia de valor de sistema financeiro internacional, representando todas as riquezas em processo espúrio de emissão arbitrária e monopólica exercido por gangues internacionais a serviço de potências bélicas hegemônicas que condicionam a humanidade a sua brutal capacidade de matar.
A atitude de um governo nacional deve conduzir necessariamente a sociedade brasileira para a libertação desse esquema iníquo de dominação. O Brasil não tem qualquer alternativa dentro desse sistema financeiro internacional, comandado o poder nacional de maneira absoluta por meio de seus prepostos em todas as esferas que transforma os dirigentes eleitos pelo voto universal em marionetes e a justiça em instrumentos de interesse antinacionais.
Isso se evidencia atualmente de maneira escandalosa com as violentas pressões para desvincular o Banco Central de qualquer poder interno, subordinando-o ao controle externo. A semântica é um escárnio quando menciona que esse processo visa a um Banco Central autônomo. O Partido dos Trabalhadores, hoje no poder, que deveria supostamente defender o valor do trabalho e a liberdade de seu povo, na verdade é o agente de orgia financeira a favor de opulenta e nefasta oligarquia financeira internacional.
Nesse contexto, o poder imperial atua para impedir qualquer veleidade de autonomia na estrutura produtiva com a imposição da ALCA. A isso se dá, cinicamente, o nome de “associação de livre comércio”, ou seja, mais um escárnio semântico para humilhar a inteligência e a dignidade dos brasileiros e conduzir o nosso povo à ruína.