sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Pense, reflita e diga não a energia nuclear

As decisões tomadas pelos governos da França, Alemanha, Japão, Bélgica, Itália, entre outros, de reverem seus programas de instalação de novas usinas nucleares, e desativarem as existentes, são mais do que um indicativo que esta fonte de energia perdeu espaço considerável no século XXI. Por trás (e a frente) das decisões governamentais, está a pressão popular. A conscientização sobre os reais riscos desta tecnologia tem levado milhares de pessoas a se manifestarem publicamente contrárias ao uso da energia nuclear. Dificilmente por vontade de novos governos haverá mudanças na política não nuclear destes países. Nem mesmo no Japão, onde o atual primeiro ministro tem insinuado que não só reativará as 50 usinas fechadas pós Fukushima, mas construirá novas centrais núcleo-elétricas. A razão é simples a população não quer conviver com o perigo constante de uma catástrofe nuclear.
A China, utilizada como exemplo na rota pró-nuclear, não deve ser imitada. Suas situação política, social e ambiental, não serve como exemplo. O país que é o mais populoso do mundo (mais de 1,3 bilhões de habitantes), tolhe a liberdade de expressão e impede pela força, a participação popular. Por outro lado, os Estados Unidos da América, citado como exemplo de modelo nuclear, vive um grande dilema com relação a sua economia, a seu modo de vida, e as suas posições nos fóruns internacionais referentes às mudanças climáticas. As contradições são enormes, em um país que já foi à locomotiva do mundo ocidental capitalista. Hoje, ao mesmo tempo, propõe a produção e a utilização do gás do xisto betuminoso (verdadeiro crime ambiental), acena para o fortalecimento de políticas na área de energias renováveis.
O Brasil é que deveria servir de exemplo e modelo para outros paises na área energética. Com recursos naturais abundantes como o Sol, o vento, as águas, a biomassa, deveríamos estar à frente e propor novos caminhos para sociedade mundial, na utilização destes recursos, de maneira eficiente, sem desperdício, e sem impacto ambiental e agressão social, levando em conta para que e para quem os recursos energéticos são destinados. Complementando a rede elétrica nacional com geração de energia descentralizada, substituindo os chuveiros elétricos, a iluminação e motores ineficientes, por novas tecnologias disponíveis. Enfim priorizando o uso das novas fontes renováveis e políticas de conservação.
Mas infelizmente, estamos andando para trás, no que concerne a matriz elétrica. Cada vez mais se instalam termelétricas a combustíveis fósseis, menosprezando os recursos naturais disponíveis. O planejamento tecnocrático indica o aumento das termelétricas nos próximos anos, desenhando para o futuro uma matriz hidro-térmica. Verdadeiro crime lesa-pátria que está sendo cometido com as gerações futuras, e com o planeta, ao desprezar as novas fontes renováveis.
Ainda, o que chama a atenção, são as posições dos eternos lobistas da energia nuclear, uns mais belicistas que outros. Aquele mesmo, ex-ministro de Ciência e Tecnologia, que defendeu e defende que o país se insira no “clube da bomba”, volta nestes tempos de crise elétrica, a propor que a energia nuclear seja “tratada com mais carinho” pelo governo federal. Empregados ilustres da Eletronuclear utilizam velhos argumentos, os mesmos que respaldaram a assinatura do acordo Brasil-Alemanha em plena ditadura militar. Defendem que o Brasil necessita da energia nuclear para atender as necessidades elétricas de agora e futura, daí não pode abrir mão, nem de suas reservas de urânio (para os negócios), e nem da construção de novos reatores nucleares. Propõem não só Angra III em construção, e mais 4 outras usinas até 2030, sendo dois destes complexos nucleares no Nordeste brasileiro, ao lado do Rio São Francisco. Verdadeiro descalabro ao povo sertanejo.
No próximo mês, no dia 11 de março, lembraremos 2 anos da catástrofe de Fukushima. Não se pode esquecer a gravidade, e as repercussões para a vida de tal acidente, que esta sendo abafado pelas agências de notícia. A população brasileira não se deixará enganar, e mais uma vez continuará afirmando “Não queremos energia nuclear, nem em Pernambuco, nem no Nordeste, e nem no Brasil”. (EcoDebate)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Matriz elétrica: Velhas desculpas recicladas

A crise do apagão de energia em 2001 foi atribuída à predominância da fonte hídrica na matriz elétrica. Onze anos depois, nos vemos novamente às voltas com a ameaça de racionamento. A justificativa se recicla, colocando-se a culpa na ausência de grandes reservatórios. Pelo menos desta vez, o secretário de Planejamento Energético do Ministério das Minas e Energia, Altino Ventura, admite que a tendência recente de construir hidrelétricas sem reservatórios veio menos por pressões de grupos ambientalistas do que pela dificuldade técnica de alagar enormes áreas para compensar a baixa queda d”água dos rios da região Norte.
É por isso que, antes da discussão sobre o resgate dos grandes reservatórios, cabe discutir os problemas de transmissão e distribuição. Há usinas eólicas aptas a suprir a demanda de Salvador que não estão conectadas ao sistema, devido a atrasos na entrega das linhas de distribuição. As falhas do sistema se refletem em um acúmulo considerável de horas no escuro. No ano passado, somando todos os “apaguinhos”, o país perdeu um dia inteiro de energia.
A vergonha maior é que os problemas do sistema de distribuição ameaçam o fornecimento de luz para a Copa do Mundo de 2014. Relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica afirma que, em dez das 12 cidades que sediarão os jogos da Copa, as obras das linhas de transmissão e modernização de subestações de energia estão atrasadas.
O governo não encara a decisão de descentralizar a matriz elétrica, proporcionando mais espaço às fontes renováveis, como biomassa e solar, que poderiam ser utilizadas para aplacar o déficit energético. É incompreensível negligenciar uma fonte como a solar, que seria capaz de atender a toda a demanda do Rio de Janeiro utilizando apenas 5% da área urbanizada do estado. Para efeito de comparação, a Alemanha, que não é exatamente conhecida pelos dias ensolarados, acaba de atingir a marca de 8 milhões de residências com sistemas fotovoltaicos instalados.
O Plano Decenal de Energia menospreza a energia solar e fixa metas irrisórias de eficiência energética – a opção mais imediata para minimizar os efeitos de períodos de menor oferta de energia. Estudo da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia afirma que 10% dos 430 TWh consumidos no país a cada ano são desperdiçados, volume superior ao consumo de energia de toda a população do Estado do Rio, que alcança 36 TWh. Isso representa aproximadamente R$ 15 bilhões jogados fora anualmente.
Em suma, a complexidade do debate exige mais sofisticação e argumentos técnicos que não levem novamente a análises incorretas dos reais desafios energéticos do Brasil, reciclando desculpas velhas que servem apenas para culpar os mesmos suspeitos de sempre. (EcoDebate)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Itaipu é menos poluente

Usina é uma das que menos emitem gases poluentes.
Classificadas como fontes de energia limpa, as hidrelétricas não estão livres da emissão de gás carbônico e metano, que se dá pela decomposição de matéria orgânica acumulada no fundo do lago. Um levantamento com dados do reservatório de 12 usinas do País, porém, aponta que Itaipu está entre as que menos liberam gases do efeito estufa.
O estudo, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ, mostrou que a hidrelétrica emite, por metro quadrado (m2), 10,7 miligramas (mg) de metano e 170 mg de gás carbônico a cada dia.
Segundo os pesquisadores, a explicação é a profundidade do lago e a grande potência energética. A usina de Tucuruí (TO) é a recordista de gás carbônico (8,4 mil mg), enquanto Três Marias (MG) lidera a emissão de metano, com 196 mg – o que a torna mais poluiente do que algumas termoelétricas movidas a carvão mineral ou a gás natural. (OESP)

Influência do lago de Itaipu chega a 400 km

Em Itaipu, o enchimento do reservatório nos anos 1980 afetou biodiversidade de locais distantes dali, como a bacia do Tietê.
Em duas semanas de outubro de 1982, Itaipu iniciou uma transformação que perdura há três décadas na fauna aquática da região. O enchimento do reservatório, que deslocou a barreira natural de Sete Quedas, em Guaíra, mudou a proporção de peixes migradores no lago da usina e, a longo prazo, teve impacto na biodiversidade de locais distantes como a Bacia do Tietê, a 400 quilômetros dali.
Itaipu tem hoje 189 espécies conhecidas de peixes: eram 113 antes da usina
Com a inundação, 23 tipos de peixes subiram a antiga catarata, enquanto 3 desceram. Estudos recentes da Universidade Estadual de Maringá (UEM) mostraram que o número atual de espécies na região de Itaipu é de 189, ante 113 em levantamentos anteriores à construção da usina. "Não é que hoje existam tantas mais, mas temos um conhecimento melhor", diz o veterinário Domingo Rodriguez Fernandez, da área de ecossistemas aquáticos da usina.
As águas paradas do reservatório afugentaram grandes espécies migradoras, como o jaú, o dourado e o piapara. Peixes menores como a corvina e o mapará, que se alimentam de micro-organismos, se tornaram abundantes. Mas, segundo dados da usina, após a formação do reservatório a produção aumentou 250% entre os 850 pescadores que atuam no lago.
Pioneiro no estudo de ictiofauna de Itaipu, o biólogo Angelo Antonio Agostinho, da UEM, diz que um dos casos de peixes beneficiados pelo deslocamento da barragem foi uma espécie de piranha que quase extinguiu a variação nativa do Alto Paraná - forma hoje 95% da população local de piranhas.
"As duas espécies são muito parecidas e têm dietas semelhantes, mas a que vivia na parte baixa é menor, mais competitiva e tem tendência a formar cardumes. Pelo que analisamos, ela já chegou a locais distantes como a usina de Ilha Solteira (SP), passando pelas eclusas", diz Agostinho, cujos estudos na usina deram origem ao Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (Nupelia) da UEM.
Arraia. Outro animal que se proliferou rio acima após a construção de Itaipu é a arraia. Um estudo da Universidade Estadual Paulista (UNESP) documentou a invasão de três espécies no Alto Paraná, onde não têm predadores naturais.
"Silenciosamente, as arraias foram subindo o rio desde 1993 e avançaram pelas eclusas de usinas como Jupiá, chegando à entrada da Bacia do Tietê”, diz Domingos Garrone Neto, um dos autores da pesquisa. "Como têm grande capacidade de camuflagem, esses animais com alguma frequência são pisados por pescadores e reagem, causando ferimentos", diz. O biólogo acredita que, caso a colonização siga neste ritmo, as arraias podem chegar até a região de Barra Bonita, a 300 quilômetros de São Paulo.
Para permitir a subida dos peixes para a reprodução (piracema), Itaipu construiu em 2002 um canal de 10,3 quilômetros que liga a parte anterior da usina ao lago. O desafio está em evitar que esta migração interfira de forma negativa na biodiversidade da bacia. "Mesmo com Itaipu, calculamos que até 20 espécies não subiram o rio, o que é bom para evitar invasores. Mas o canal tem permitido isso e temos nos manifestado para que ele não seja totalmente permeável", diz Angelo Agostinho. "Abaixo da usina tem espécies como a piranha preta, que come outros peixes e torna difícil a vida do pescador."
Em 2011, estudos em Itaipu comprovaram que quase 170 das 190 espécies da região já haviam passado pelo canal. "O canal favorece o intercâmbio genético, mas não é possível o controle total das espécies que sobem", diz Fernandez. "Podemos ampliar a passagem de espécies reduzindo a velocidade das águas e aumentando o grau de dificuldade. Mas a ideia, por enquanto, é manter a eficiência atual." (OESP)

Itaipu e os programas socioambientais

Usina de Itaipu expande programas socioambientais
Cidades beneficiadas passaram de 16 para 29; meta é proteger nascentes e, por tabela, a água que chega ao reservatório
O gigante de aço e concreto que por décadas buscou remediar o inevitável impacto ambiental de suas obras, encerradas há 30 anos, hoje quer reduzir a influência que sofre de seu entorno. Desde 2003, Itaipu expandiu os programas socioambientais de 16 para 29 cidades, atuando em toda a bacia do Rio Paraná 3. O motivo, porém, vai além de contrapartidas obrigatórias: é também uma questão de sobrevivência.
Vertedouro evita cheias no lago de Itaipu: qualidade da água define vida útil da hidrelétrica.
Mensurar a extensão da influência da hidrelétrica sobre o ecossistema local é quase impossível - na época da construção, a prioridade era econômica, e não ambiental, e não foi feito um inventário detalhado da fauna e flora. Sabe-se, por exemplo, que hoje há cerca de 70 novas espécies de peixe na região, mas os dados anteriores à usina são pouco abrangentes.
Há quem se apoie nesta fragilidade de informações para questionar as mudanças na região. Corre na Justiça um pedido de indenização de R$ 2 bilhões feito por 1,3 mil produtores rurais de 13 municípios que margeiam o lago de Itaipu. Eles alegam que a usina causou alterações microclimáticas em uma área de 700 km2, supostamente provocando queda de 40% na produtividade. Uma comissão técnica, com a participação do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), estuda a alegação, descartada pela empresa. A "cortina verde" formada no reservatório, alegam ainda, causa danos às lavouras e seria responsável por supostos prejuízos acumulados há 25 anos.
A reconstrução da mata ciliar ao redor do reservatório, porém, é um dos maiores orgulhos de Itaipu e está praticamente concluída. O desafio agora é fazer o mesmo nos 540 km de sub-bacias que desembocam no lago.
"Começamos elegendo uma bacia por município para recuperar com áreas de proteção, em acordo com os prefeitos. Hoje, já há cidades que estão perto de 100% de reflorestamento", diz o diretor-geral de Itaipu, Jorge Samek. "O processo só não tem sido mais ágil por conta da discussão sobre o novo Código Florestal, que causou indefinição."
Desvio do rio (1977) - Um dos momentos mais críticos do projeto foi a mudança no fluxo do poderoso Rio Paraná para a construção da barragem.
Indenizações (1981) - Mais de 40 mil receberam compensação para deixar a área onde seria feito o reservatório, levando consigo casas inteiras.
Reflorestamento (4/1982) - Para garantir a qualidade da água, foi demarcada uma área de proteção com 1 milhão de árvores ao redor do futuro lago.
Inundação (10/1982) - Área de 1.350 km2 foi alagada durante 14 dias para encher o reservatório, submergindo regiões férteis de 16 municípios.
Funcionamento (11/1982) - O vertedouro, com uma vazão equivalente a 40 Cataratas do Iguaçu, foi aberto no dia 5 e inaugurou oficialmente a usina.
O programa Cultivando Água Boa intensificou a preocupação com as nascentes, que podem prejudicar a qualidade da água e ameaçar a vida útil da usina pela aceleração do assoreamento, entre outros problemas. Após redefinir o ecossistema da região de Foz do Iguaçu, no oeste paranaense, a maior obra de engenharia já realizada no País foi atrás de comunidades que, desde 1991, eram beneficiadas apenas pelo pagamento de royalties.
"Ainda há muita desconfiança quanto aos programas. A percepção de meio ambiente é associada a multas e fechamento de fazendas", afirma o diretor de Coordenação e Meio Ambiente de Itaipu, Nelton Friedrich.
A construção da usina, porém, deixou marcas duradouras. A maior delas foi o fim das míticas cataratas de Sete Quedas de Guaíra - decisão unilateral do regime militar. Centrada só no fornecimento de energia por muitos anos, a binacional deu margem a mitos que sobrevivem até hoje: um estudo recente da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP mostrou que 75% da população de Foz acreditam que há possibilidade real de a barragem ruir.
O valor da produção de energia de Itaipu, porém, é inquestionável. Responsável por cerca de 20% do total produzido no País, a usina deve superar a própria marca - por conta das chuvas no início do ano, já produz 3% a mais que o mesmo período de 2008, quando atingiu o recorde mundial de 94,6 milhões de megawatts/hora. (OESP)