domingo, 8 de dezembro de 2019

Todo o potencial das microalgas

Há 12 anos, a engenheira química Luisa Fernanda Rios Pinto, de 37 anos, deixou a Colômbia, seu país de origem, para cursar mestrado na Unicamp, em Campinas. O objetivo inicialmente era estudar a extração de betacarotenos (pró-vitamina A) do óleo de palma, por meio de um processo chamado destilação molecular.
Porém, em 2010, ela conheceu uma proposta da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), de pesquisa de microalgas para alimentar peixes. Foi um divisor de águas em sua carreira. Ao descobrir o potencial das microalgas para produção de biodiesel –que já começava a ser discutido em outros países – resolveu tentar doutorado no tema.
E não parou mais. Até o ano passado foi bolsista de Pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESP) e pesquisadora de pós-doutorado no ALGAE R&D Centre da Murdoch University em Perth, Austrália (2016), quando trabalhou com Navid Moheimani (um dos principais nomes mundiais no tema).
Atualmente pesquisadora da Unicamp, onde orienta alunos que também se interessam pelo cultivo de microalgas e seu uso, Luisa quer ampliar o acesso ao seu estudo e conhecimento na produção de produtos, cinética de reações, processos de separação convencionais e não convencionais e purificação a partir da biomassa de microalgas.
Porém, é possível que você, leitor(a) desta reportagem, ainda esteja se questionando qual a relevância desse estudo, uma vez que não temos biodiesel ou bioetanol a partir do cultivo de microalgas nos postos de combustíveis.
Note: ainda não temos, porém, segundo a pesquisadora, não há dúvidas de que chegaremos a essa realidade. “Hoje, tudo tem que ser pensado enquanto ciclo de vida. Ou seja, se eu fosse montar uma biorrefinaria, eu teria que questionar os impactos dela, seja para a população, seja para o meio ambiente. Quando falamos em biocombustíveis a partir do cultivo das microalgas estamos falando em um ciclo completo, uma vez que elas possuem o potencial de transformar o CO2 emitido pela própria refinaria em oxigênio de novo”, explica.
Isso porque as microalgas – que são organismos unicelulares que crescem tanto em água doce quanto em água salgada – são responsáveis pela transformação do gás carbônico em oxigênio. “Elas garantem a produção de até 50% do oxigênio do planeta, sendo extremamente importantes para a humanidade”, destaca Luisa.
De acordo com a pesquisadora, existem três frentes de estudos envolvendo as microalgas, uma delas, evidentemente, é na produção de biodiesel. A segunda é a partir de sua concentração de lipídios, voltada para o desenvolvimento de alimentos (entre os quais o óleo de microalgas, que já é fabricado nos Estados Unidos) e uso na indústria cosmética. Além de serem fonte de proteína para peixes, que naturalmente já se alimentam delas em seu habitat natural. “Dizem que as microalgas têm cheiro de peixe, quando na verdade é o contrário”, diz Luísa.
Ao verificar o potencial das microalgas para produção de biodiesel, a colombiana Luisa Fernanda Rios Pinto mudou o foco de seu trabalho.
Projeto
Atualmente, de acordo com Luisa, um dos principais bloqueadores do uso de biocombustível a partir do cultivo da microalga é o preço. Como ainda é um processo em desenvolvimento, a tecnologia encarece o produto. Segundo estudos, o valor seria até 60% a mais, quando comparado aos demais biocombustíveis.
Um exemplo que ajuda a entender está no óleo de microalgas para a culinária, que já é comercializado em países como os Estados Unidos. “Aqui no Brasil, acredito que isso deva chegar aos mercados no ano que vem. Porém, ele deverá custar até três vezes mais do que o óleo de soja”, diz. Para ela, inclusive, o produto deveria ser comparado aos azeites, tamanho sua propriedade nutritiva.
Por este motivo, ela vem estudando o cultivo de microalgas numa reação supercrítica – em altas temperaturas – avaliando a possibilidade de acelerar etapas no crescimento e, portanto, baratear o custo. Porém, ainda sem sucesso. Além disso, atualmente orienta um aluno que estuda caminho semelhante, mas com outra técnica de cultivo.
O debate sobre a relevância do tema, especialmente neste momento, onde nos preocupamos com as consequências do aquecimento global, por exemplo, é para a pesquisadora fundamental. “Todos nós podemos cultivar microalgas em casa e, num futuro não muito distante, quem sabe cada um de nós poderá produzir seu próprio biocombustível?”.
Atualmente, ela mantém um canal no Instagram para ampliar o acesso a informações sobre o tema (Woman In Science). O próximo passo é ter um blog, cujo lançamento está previsto ainda para esse ano.
Rede pública
Luisa é orientadora de pesquisas de três alunos de escolas públicas de Campinas, selecionados pela Universidade: Larissa Alves, Luana Silva, ambas de 17 anos, e Kaysa Américo, de 16 anos. Como parte da política de disseminar o conhecimento e construir uma geração que pense no futuro do Planeta, o programa permite levar a ciência aos jovens. No caso do trabalho com Luisa, o trio estuda como o cultivo de microalgas responde ao uso de nutrientes, observando sua capacidade de acumular lipídeos (o que permite, por meio da biomassa, a produção dos bicombustíveis).
“Outra curiosidade está no uso das microalgas como emulsificantes para sorvetes ou mesmo maioneses”, diz a professora, sendo esse o estudo de uma aluna sua de doutorado. Luisa lembra ainda de um estudo realizado por ela, na Austrália, que aponta o uso eficaz de microalgas na suinocultura. Explica-se: geralmente quando é feita a higienização do local onde os porcos vivem, a água utilizada é descartada na natureza, porém, contaminada. As microalgas mostraram eficiência para que a água pudesse ser reutilizada”.
Fotossíntese
As microalgas são organismos unicelulares e microscópicos que vivem em meios aquáticos e têm uma característica curiosa: embora não sejam plantas, são capazes de realizar fotossíntese e se desenvolver utilizando luz do sol e gás carbônico.
Elas se reproduzem muito rapidamente, gerando grandes quantidades de óleo e biomassa em pouco tempo. A produtividade, segundo pesquisas, pode ser de até 100 vezes maior do que os cultivos agrícolas tradicionais. E justamente por isso vem chamando a atenção de setores que necessitam de grandes quantidades de matéria-prima, como o de biocombustíveis.
Já existem pelo menos quatro empresas no Brasil produzindo microalgas: duas no Nordeste, com foco em nutrição humana e animal, e outras duas no interior de São Paulo, já atendendo indústrias de cosméticos e rações, ou projetos para tratamento de efluentes. Contudo, há ainda muito que avançar no conhecimento e desenvolvimento de tecnologias para impulsionar o setor.
Petrobras e Embrapa já demonstraram interesse pelo uso na área de biocombustível. E os estudos vêm ganhando força no País. (biodieselbr)

Enel Green Power inaugura linha produtiva de painéis bifaciais

Enel Green Power inaugura nova linha de produção para painéis solares bifaciais.
Fábrica do Grupo italiano na região da Catânia irá desenvolver placas fotovoltaicas com a tecnologia de heterojunção (HJT), gerando eficiência superior a 20,5%.
A Enel Green Power inaugurou a nova linha de produção de sua fábrica 3SUN, localizada na província de Catânia, na Itália, para produzir painéis fotovoltaicos bifaciais com base na tecnologia de heterojunção (HJT), que combina silício amorfo e cristalino. O presidente da região da Sicília, Nello Musumeci, o prefeito de Catânia, Salvo Pogliese, o Responsável da Enel Green Power, Antonio Cammisecra, e o chefe da 3SUN, Antonello Irace, estiveram presentes na inauguração da nova produção fabril.
A iniciativa representa a conclusão do projeto de conversão tecnológica da fábrica 3SUN 2.0, lançado no segundo trimestre de 2018 e dividido em três etapas, com o objetivo de tornar a La fabbrica del sole da companhia capaz de produzir em ciclo contínuo, 24 horas por dia, 365 dias por ano, entregando cerca de 1.400 painéis por dia e um total de cerca de 500 mil ao ano. Antonio Cammisecra, CEO da Enel Green Power, destacou o início da nova linha de produção como um marco significativo e que eleva a excelência industrial italiana no cenário global, especialmente em um setor competitivo como a energia solar.
“Continuaremos com nosso compromisso de pesquisar e desenvolver essa tecnologia, na medida em que nos esforçamos para melhorar ainda mais seu desempenho, sustentabilidade e competitividade, com a confiança de que somos um posto de avanço tecnológico global do setor fotovoltaico”, avalia, afirmando que o investimento para a iniciativa foi financiado em parte pelos programas europeus de pesquisa e inovação, Horizon 2020, pelo Ministério do Desenvolvimento Econômico da Itália e pela Região da Sicília, além dos incentivos ao desenvolvimento do Smart Factory 4.0.
Segundo a empresa, os painéis bifaciais possuem uma eficiência superior a 20% e uma potência nominal de 400 W, com o recurso permitindo que a radiação solar seja capturada também da superfície traseira e alcance uma produção de energia 30% maior. Além disso, enquanto os módulos anteriores tiveram um ciclo de vida de até 25 anos, os novos painéis são duráveis ​​o suficiente para durar mais de 35 anos, com um alto desempenho, mesmo em condições climáticas extremas.
Esse salto tecnológico permitirá que a usina na Catânia atinja uma capacidade de produção nominal de cerca de 200 MW por ano e se torne, de acordo com a Enel, o parque fotovoltaico mais automatizado do mundo, com mais de 300 funcionários e negócios indiretos, empregando mais de 600 pessoas. O objetivo é superar o limite teórico da eficiência do silício nos próximos cinco anos, graças à constante inovação tecnológica, e alcançar mais de 28% de eficiência.
O Chefe da fábrica 3SUN, Antonello Irace, complementou afirmando que a empresa é a primeira no mundo a produzir painéis fotovoltaicos com base na inovadora tecnologia de junção bifacial ‘HJT’ em escala industrial. “Esperamos ser uma força motriz para toda a indústria e, promovendo a inovação na tecnologia fotovoltaica, queremos transformar a energia solar em uma solução pragmática de energia limpa, onde quer que o sol brilhe”, comentou.
Como funciona um Painel Solar Fotovoltaico Bifacial
Parecidos com as placas solares convencionais, os painéis bifaciais possuem células fotovoltaicas com duas faces. De um lado, é absorvida a energia radiante, os raios que incidem diretamente sobre o material. Do outro lado, é absorvida a luz refletida do solo ou da superfície do local.
Utilizando-se do efeito de albedo, que consiste no poder de reflexão de uma superfície, o painel bifacial aumenta a área útil de exposição, sendo capaz de gerar de 30% a 50% mais energia.
Nesse tipo de placa, as células solares, feitas de silício, são revestidas por camadas de filme encapsulante (EVA) e vidro especial dos dois lados. Tendo em vista essa configuração, eles não precisam ser apontados para o Sol.
Desse modo, é possível colocá-los no plano inclinado, em vários ângulos, e na vertical. Isso maximiza sua performance por m2, aumentando a economia.
Além dos dias ensolarados, as placas solares fotovoltaicas bifaciais geram mais energia do que os painéis comuns também nos períodos nublados. (canalenergia)

Construir hidrelétricas e não em alternativas é desperdício de dinheiro

‘O interesse em construir hidrelétricas em vez de investir em alternativas é a grande quantidade de dinheiro que pode ser ganho nas obras’.
Hidrelétrica de Sinop.
O interesse do Estado brasileiro em investir na construção de hidrelétricas ao invés de incentivar fontes energéticas alternativas “se deve, principalmente, à grande quantidade de dinheiro que pode ser ganho nas obras”, diz Philip Fearnside à IHU On-Line. Os recursos envolvidos nesses empreendimentos mencionam, “cria um lobby que não existe para outras energias alternativas, especialmente aquelas que visam usar menos energia”.
A Usina Hidrelétrica de Sinop, que está sendo construída em Mato Grosso pela empresa francesa EDF, faz parte de uma cadeia de barragens que está sendo implementada no rio Teles Pires, com “o objetivo de vender energia elétrica” e “o transporte de soja de Mato Grosso até portos com acesso ao rio Amazonas”, informa o biólogo norte-americano que há anos estuda os impactos das hidrelétricas aos ecossistemas em que são instaladas. Na avaliação dele, a Sinop tem similaridades com a hidrelétrica de Belo Monte, construída no Pará. Entre elas, ele destaca “a ligação com outras obras de grandes impactos”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Fearnside também comenta as ações do governo Bolsonaro em relação ao meio ambiente. “O discurso do presidente e do seu ministro do Meio Ambiente tem sido notoriamente hostil a todas as políticas, órgãos e pessoas que defendem o meio ambiente. Este discurso, junto com ações concretas para desmantelar os órgãos ambientais, explica o grande surto de desmatamento e fogo constatado em 2019”. E assegura: “O maior desafio no momento é manter o que resta das políticas e agências ambientais”.
Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan, EUA, e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa, em Manaus, AM, onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas – IPCC, em 2007.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor poderia recuperar um pouco do histórico do projeto e da construção da Usina Hidrelétrica Sinop, no Rio Teles Pires, no estado de Mato Grosso?
Philip Fearnside – A UHE Sinop foi planejada como um elemento de uma cadeia de barragens ao longo do rio Teles Pires com o objetivo de vender energia elétrica, e também para obter uma das “eclusas prioritárias” no plano de 2010 para hidrovias, visando o transporte de soja de Mato Grosso até portos com acesso ao rio Amazonas. O projeto da barragem foi facilitado pela lei de 2011, permitindo licenciamento estadual, ao invés de federal. O licenciamento estadual quase sempre é menos exigente que o federal. A construção da barragem foi feita pela empresa francesa EDF, principal dono da Sinop Energia.
IHU On-Line – Quais os maiores impactos ambientais que a região vem enfrentando desde o início das obras da Usina Hidrelétrica Sinop? Que transformações a região, desde a população local a ecossistemas nativos, vem sofrendo?
Philip Fearnside – O barramento do rio tem impactos ambientais como o de outras barragens. Há perda da floresta na área do reservatório. O ecossistema fluvial também é perdido, sendo transformado em um lago artificial com outras condições químicas da água e outras espécies de peixes. Entre outros impactos, há a emissão de gases de efeito estufa. Um trabalho publicado em 2016 na revista Environmental Research Letters, por Farias e colaboradores, calculou que a Sinop seria a pior em termos de impacto no aquecimento global entre todas as 18 barragens planejadas que analisaram. Na verdade, o impacto é maior ainda, pois esse cálculo não considerou as emissões da água que passa pelas turbinas e vertedouros.
Em termos de transformações sociais, se destaca o deslocamento da população na área inundada pelo reservatório, com famílias sendo colocadas em projetos de assentamento. O meio de sustento a partir da pesca e outros recursos do rio foi perdido. Estes custos sociais caem sobre uma população cuja voz nas decisões sobre a obra, evidentemente, tem muito menos peso do que as vozes dos grupos que teriam benefícios financeiros com a obra.
O meio de sustento a partir da pesca e outros recursos do rio foi perdido – Philip Fearnside
IHU On-Line – A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na Bacia do Rio Xingu, é conhecida pelos inúmeros conflitos e degradações sociais e ambientais que ela acabou gerando na região de Altamira, no Pará. Que analogias podemos fazer entre o processo de Belo Monte e de Sinop?
Philip Fearnside – Belo Monte tem alguns paralelos com a usina de Sinop. Um é a ligação com outras obras com grandes impactos. No caso de Belo Monte são os planos para barragens rio acima, começando com a Babaquara/Altamira. Esses planos são pouco discutidos publicamente e são desconhecidos por grande parte da população. No caso de Sinop é a hidrovia e as outras hidrelétricas que teriam que ser construídas para completar a conexão para navegação até o rio Amazonas. Mais impactante seria a barragem de Chacorão que, assim como Babaquara/Altamira, sumiu dos planos publicamente admitidos pelo governo e que também inundaria terras indígenas já homologadas. Outro paralelo com a Belo Monte é a maneira como o projeto conseguiu passar por cima do processo de licenciamento.
IHU On-Line – A Hidrelétrica de Sinop é um projeto que tem a parceria dos governos francês e brasileiro. Gostaria que o senhor detalhasse essa parceria e analisasse os conflitos entre França e Brasil relacionados a questões ambientais gerados recentemente, tendo em perspectiva o megaempreendimento de Sinop.
Philip Fearnside – Recentemente eu tive a experiência de publicar a resenha de um livro sobre uma barragem em Laos, na bacia do rio Mekong, que foi construída pela mesma empresa francesa que construiu a UHE Sinop. Fiquei impressionado com os paralelos entre os dois casos, inclusive o uso de argumentos questionáveis para justificar a não remoção da floresta da maior parte dos dois reservatórios, apesar de exigências legais para isto nos dois países.
Os níveis baixíssimos de oxigênio na água saindo do reservatório, medidos pela Politec (o órgão oficial para tais medidas), indicam uma falta de oxigênio mais do que suficiente para matar os peixes – Philip Fearnside
IHU On-Line – No início deste ano, foi registrada a morte de pelo menos 13 toneladas de peixes de todos os portes às margens do rio Teles Pires, na área do reservatório da UHE Sinop. Quais os desdobramentos desse caso? Já se sabe a causa da mortandade? Os responsáveis foram autuados?
Philip Fearnside – Um processo contra a empresa e o órgão estadual que licenciou a obra foi movido pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso, e está na justiça federal. Os níveis baixíssimos de oxigênio na água saindo do reservatório, medidos pela Politec (o órgão oficial para tais medidas), indicam uma falta de oxigênio mais do que suficiente para matar os peixes. Os sedimentos suspensos que a empresa alega serem a causa da mortandade seriam apenas um agravante, a causa principal continua sendo a falta de oxigênio.
IHU On-Line – Como compreender o interesse na construção de hidrelétricas na região amazônica? Quais as consequências disso para o bioma da Amazônia?
Philip Fearnside – O interesse em construir hidrelétricas em vez de investir em alternativas, como a eficiência energética e a geração por fontes como eólica e solar, se devem principalmente à grande quantidade de dinheiro que pode ser ganho nas obras. Este dinheiro cria um lobby que não existe para outras energias alternativas, especialmente aquelas que visam usar menos energia.
IHU On-Line – A sanha desenvolvimentista, desde os governos militares, defende o avanço e a ocupação das áreas de floresta. Em que medida essas lógicas se atualiza nos empreendimentos das hidrelétricas da região amazônica?
Philip Fearnside – Esta lógica se aplica a algumas barragens planejadas, como a grande barragem de 2.000 MW para o rio Trombetas no plano Barão do Rio Branco, que foi anunciada pela atual administração presidencial. No entanto, esta lógica não se aplica ao caso de Sinop, que se encontra em uma região já bastante ocupada.
A construção de hidrelétricas tem causado grandes impactos sociais e ambientais no local de cada barragem – Philip Fearnside
IHU On-Line – Como a construção de usinas hidrelétricas tem transformado a Amazônia brasileira?
Philip Fearnside – A construção de hidrelétricas tem causado grandes impactos sociais e ambientais no local de cada barragem. No entanto, não tem trazido as melhorias do modo de vida das populações desses locais, como é sempre alegado pela indústria. Belo Monte é um exemplo claro.
IHU On-Line – De que forma é possível conceber alternativas a hidrelétricas na geração de energia, pensando em empreendimentos que não causem grandes interferências em ecossistemas, mas que também possam se reverter em desenvolvimento econômico?
Philip Fearnside – O Brasil é um dos países mais sortudos em termos de alternativas energéticas, sem depender de barragens, usinas nucleares ou termoelétricas queimando combustível fóssil. A prioridade é usar menos energia elétrica. Por exemplo, o Brasil usa 5% da sua eletricidade para esquentar água em chuveiros elétricos. Desde o Plano Nacional de Mudanças Climáticas de 2008, é um objetivo de o governo acabar com chuveiros elétricos, mas nada foi feito, sendo apenas construídas mais barragens. O Brasil deve parar de exportar eletricidade na forma de commodities eletrointensivas, como o alumínio, que representam 7% do uso da eletricidade. Depois, há grandes oportunidades para geração com menos impactos que barragens.
O Brasil tem um enorme litoral onde há ventos constantes, e tem uma plataforma continental onde podem ser instaladas matrizes de torres no mar para geração eólica. Também há grande potencial solar, com quase todos os telhados no país ainda não sendo aproveitados para geração fotovoltaica distribuída, e com a região nordeste com muita insolação e grandes áreas de baixa produtividade que poderiam ser aproveitadas para geração solar, desde que uma parte significativa dos recursos financeiros seja usada para melhorar a vida da população humana que vive nessas áreas.
O Brasil é um dos países mais sortudos em termos de alternativas energéticas, sem depender de barragens, usinas nucleares ou termoelétricas queimando combustível fóssil – Philip Fearnside
IHU On-Line – Que leitura o senhor faz dos discursos do governo de Jair Bolsonaro relacionados ao meio ambiente?
Philip Fearnside – O discurso do presidente e do seu ministro do Meio Ambiente tem sido notoriamente hostil a todas as políticas, órgãos e pessoas que defendem o meio ambiente. Este discurso, junto com ações concretas para desmantelar os órgãos ambientais, explica o grande surto de desmatamento e fogo constatado em 2019.
IHU On-Line – Qual é o atual cenário de órgãos de fiscalização do meio ambiente na região da Amazônia? Como a desestruturação desses órgãos pode impactar a preservação ambiental no futuro?
Philip Fearnside – A desestruturação dos órgãos de fiscalização estimula o desmatamento, a exploração ilegal de madeira e a invasão de áreas para garimpagem. A visita do ministro do Meio Ambiente e da ministra da Agricultura a uma plantação ilegal de soja em uma terra indígena em Mato Grosso passou uma mensagem clara de que leis ambientais poderiam ser violadas com impunidade. A anulação da multa por pesca ilegal do presidente, e a posterior demissão do agente que aplicou a multa, passou uma mensagem clara aos funcionários do órgão fiscalizador para não aplicar multas, o que, de fato, diminuiu muito no atual governo.
A desestruturação dos órgãos de fiscalização estimula o desmatamento, a exploração ilegal de madeira e a invasão de áreas para garimpagem – Philip Fearnside
IHU On-Line – Quais os maiores desafios do Brasil hoje no que diz respeito à preservação ambiental?
Philip Fearnside – O maior desafio no momento é manter o que resta das políticas e agências ambientais. Considerando o tamanho do retrocesso em apenas dez meses, o que pode ocorrer ao longo dos mais de três anos restantes do atual governo é assustador.
IHU On-Line – O senhor tem acompanhado as discussões em torno do Sínodo Panamazônico?
Em que medida ele pode contribuir para mobilizar o desenvolvimento de novas concepções na relação entre economia e preservação do planeta?
Philip Fearnside – Participei do evento preparatório para o Sínodo, que foi realizado em Manaus. O Sínodo é importante para fornecer informações para o Papa, que tem sido um líder importante em promover a consideração das questões ambientais e das questões que afetam os povos indígenas e outros povos tradicionais que defendem a floresta amazônica. O Sínodo também oferece mais uma oportunidade para trazer a importância ambiental da Amazônia à atenção do mundo, incluindo o Brasil.
Considerando o tamanho do retrocesso em apenas dez meses, o que pode ocorrer ao longo dos mais de três anos restantes do atual governo é assustador – Philip Fearnside.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Philip Fearnside – Seria importante fazer um esforço para apoiar cristãos evangélicos que reconhecem a importância de preocupações ambientais na Amazônia. Os mesmos argumentos destacados pelo Papa com relação à destruição da criação de Deus se aplicam aos cristãos protestantes, embora no Brasil os evangélicos têm sido mais associados ao lado oposto dessas discussões. A chamada bancada “BBB” (Boi, Bala e Bíblia) não representa todos os evangélicos, e é importante que os que se preocupam com o meio ambiente se organizem. (ecodebate)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Igreja inaugura pequena turbina eólica no meio do Rio de Janeiro

Igreja na Zona Sul do Rio usa energia renovável e tem ações para preservar o meio ambiente
A Paróquia São José, na Lagoa, conhecida como a igreja de vidro, é a primeira igreja com energia solar do Brasil e a primeira a usar um sistema híbrido com sol e vento.
A Paróquia de São José da Lagoa, localizada em frente a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, apresentou em 24/10/19 mais uma iniciativa que corrobora sua busca por uma atuação mais sustentável com o meio ambiente e com suas finanças a longo prazo. A instituição inaugurou uma pequena turbina eólica no seu telhado para produção de energia elétrica limpa, acrescentando 4,5 kW aos 14 kW solares já instalados, aproximando-a da tão almejada autonomia energética. O novo gerador eólico foi desenvolvido e doado pela empresa Zani Energias, que fez a integração com o sistema fotovoltaico já existente.
Conhecida como “Igreja de vidro da Lagoa”, a Paróquia São José foi uma das primeiras a gerar a própria eletricidade a partir dos 56 painéis solares instalados há 3 anos e que produzem o equivalente a 40% do consumo local. O case foi batizado de “Igreja Solar” e proporcionou uma economia de cerca de R$ 20 mil por ano na conta de luz. As placas fotovoltaicas, em formato de cruz, também foram implementadas no telhado da construção e podem ser vistas do Cristo Redentor, no alto do Morro do Corcovado.
Turbina eólica é do tipo eixo vertical e adicionará 4,5 kW ao sistema solar já instalado (foto: Alexandre Pinel)
Segundo Alexandre Pinhel, idealizador da iniciativa, o projeto configura o primeiro sistema híbrido urbano do Brasil. “São sistemas muito interessantes, pois com eles se consegue alguma complementaridade na produção de energia, saindo da dependência da insolação”, justifica. Já o pároco da Igreja e reitor do Santuário Cristo Redentor, Padre Omar, destaca que a nova configuração para geração da própria energia é um avanço nas atividades da Pastoral do Desenvolvimento Sustentável, criada na Paróquia em 2017, com base na encíclica verde escrita pelo Papa Francisco em 2015, a “Laudato Si”.
“Estamos adequados ao desejo do Papa Francisco e ao conceito de sustentabilidade. É um pensamento que deve se ampliar a outras igrejas e a toda a sociedade”, diz o sacerdote, referindo-se ao documento do Pontífice que aborda o uso e a produção da energia elétrica e questões socioambientais mundiais.
No texto, o Papa afirma que o desenvolvimento de formas menos poluentes de produção de energia, bem como o uso de forma eficiente, tem de ser apoiado. (canalenergia)

“Brasil, deixe a solar crescer”

Portal Solar apoia campanha “Brasil, deixe a solar crescer” e defende direito de liberdade do consumidor brasileiro.
Proposta é colaborar no processo de revisão regulatória que permite aos brasileiros gerar e consumir a própria energia a partir de fontes limpas e renováveis
O Portal Solar, maior marketplace do setor de energia solar do país, apoia a campanha “Brasil, deixe a solar crescer”, promovida pela ABSOLAR com o intuito de ampliar o debate regulatório em torno da geração distribuída no Brasil e defender o direito dos cidadãos de produzir e consumir a própria energia limpa e renovável nas residências, comércios, indústrias e pequenos terrenos.
A campanha tem como proposta colaborar com a educação e esclarecimento da sociedade brasileira durante o processo de revisão regulatória, em curso desde 2018 na Aneel, a partir do compartilhamento de informações técnicas e qualificadas, de comparações com o cenário internacional e da conscientização sobre os enormes benefícios que a energia solar fotovoltaica traz à sociedade brasileira.
Para tanto, foi criada uma plataforma multimídia educativa para funcionar como um espaço democrático de debates e esclarecimentos, no sentido de ampliar as discussões sobre o processo de atualização da Resolução Normativa nº 482/2012. Este mecanismo pioneiro e vanguardista é considerado referência internacional e que permite aos brasileiros gerar e consumir a sua própria eletricidade a partir de fontes limpas e renováveis, com mais liberdade, economia, sustentabilidade, que contribui para a geração de dezenas de milhares de novos empregos e renda à população, distribuídos ao redor de todos os Estados do Brasil.
O setor de energia solar acredita que, momento atual, seria prematura a alteração do sistema de compensação de energia elétrica. Segundo dados oficiais da Aneel, há atualmente no Brasil mais de 84,1 milhões de consumidores cativos de energia elétrica, faturados pelas distribuidoras. Anualmente, são conectados, em média, 1,9 milhão de novos consumidores cativos ao sistema, aumentando significativamente a base de clientes das distribuidoras.
Por outro lado, o Brasil possui menos de 110 mil sistemas de geração distribuída, aliviando o orçamento de cerca de 140 mil unidades consumidoras. Ou seja, apenas 0,18% dos consumidores cativos das distribuidoras possui geração distribuída e o seu crescimento é muito inferior ao crescimento da base de mercado faturada pelas distribuidoras no Brasil.
Por meio do diálogo amplo e acessível, a sociedade brasileira encontrará nos materiais da campanha propostas para um caminho construtivo e positivo para o desenvolvimento da energia solar fotovoltaica no País, em linha com os anseios da sociedade brasileira, já que 93% da nossa população quer gerar energia renovável em suas casas. (portalsolar)