quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Nucleares em segundo plano após Fukushima

Nucleares ficam em segundo plano após Fukushima
Quatro usinas seriam construídas até 2030, mas acidente no Japão provocou onda de pressões e fez governo adiar projetos
Com o acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão, em março do ano passado, o programa nuclear brasileiro pode sofrer uma reviravolta. A previsão de construir mais quatro usinas no País até 2030 está sendo revista. Cresce a pressão dentro do governo para que o Brasil opte por fontes de energia mais seguras e que ganharam escala nos últimos anos, como a eólica e a biomassa.
O problema, segundo especialistas, é que essas fontes energéticas são sazonais, assim como a hidráulica. Se o País não quiser se tornar refém da natureza, terá de ampliar sua base de geração térmica. E aí terá de fazer uma opção entre ampliar a participação de uma fonte de energia considerada perigosa, porém limpa (a nuclear), ou de fontes seguras, porém sujas - como as usinas a gás, óleo ou carvão, cuja geração não depende de condições climáticas, mas emitem gases do efeito estufa.
O Plano Nacional de Energia (PNE) 2030 previa a construção de quatro centrais nucleares no Brasil: duas no Nordeste e duas no Sudeste, com capacidade instalada de mil megawatts (MW) cada. As pesquisas para a identificação dos lugares possíveis para abrigar as usinas não foram interrompidas e os investimentos para ampliação da produção de urânio - matéria-prima da geração nuclear - estão em andamento, mas a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão do governo que dá suporte ao planejamento energético, admite que a expansão da energia nuclear está sob revisão. O que é certo é que Angra 3 (1.404 MW) será mantida, com a previsão de entrar em operação em 2016.
Os defensores da "aposentadoria" das centrais nucleares argumentam que o panorama energético no Brasil mudou desde 2007, quando o PNE 2030 foi desenhado. Naquele ano, a fatia das hidrelétricas na geração de eletricidade era de 85,6%. Outras energias renováveis, como eólica e biomassa, respondiam por 0,1% e 4,1%, respectivamente. E a nuclear detinha participação de 2,5% na matriz. No ano passado, a parcela das hidrelétricas encolheu para 81,9%, enquanto a das outras três avançou para 2,7% (nuclear), 0,5% (eólica) e 6,6% (biomassa).
"Outras fontes de energia estão se popularizando. O acidente de Fukushima mudou o cenário. Ele nos mostrou problemas na gestão de risco. E quando o risco é grande, o investimento não se justifica", afirma o ambientalista e consultor Fabio Feldman.
Urânio. Caso o Brasil opte por abandonar seu programa nuclear, seguirá os passos de países como Alemanha, Itália e Suíça, que decidiram interromper a construção de novas usinas ou desativar as existentes. O Japão vai na mesma direção, e até nações fortemente baseadas na energia nuclear querem diminuir essa dependência. Caso da França, que vai reduzir a matriz nuclear de 75% para 50%.
Para Leonam Guimarães, assessor da presidência da Eletronuclear, responsável pela operação das centrais no Brasil, a resposta dos países europeus ao acidente deve ser entendida dentro de um contexto histórico de Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a ex-União Soviética disputavam uma corrida por armas nucleares. "Esses países não querem reviver esses temores. A França não vai abrir mão de suas usinas e vai acabar exportando para os países que a descartarem, como já está acontecendo com a Alemanha", afirma.
Guimarães lembra que, apesar de o Plano Decenal 2021 não contemplar a fonte nuclear, também não a descarta. E frisa que a energia nuclear não compete com a eólica, a biomassa ou a hidráulica. Segundo ele, são complementares.
"A energia nuclear tem a vantagem de ser uma energia limpa. Se o Brasil não avançar nela, terá de expandir os combustíveis fósseis, seja carvão, óleo ou gás", explica Aquilino Senra, professor de Energia Nuclear da Coppe/UFRJ.
Segundo ele, o Brasil tem a vantagem de estar num seleto grupo de nações que reúne três características importantes para a continuidade do programa nuclear. Tem reservas de urânio, domina a tecnologia e já faz uso dessa fonte. Enquanto isso, as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) mantêm o projeto de duplicação da única mina de urânio em produção no País, em Caetité (BA). Hoje, ela produz 400 toneladas do minério por ano. Também fechou parceria com empresas para desenvolver uma jazida de fosfato em Santa Quitéria (CE). O fosfato será usado na produção de fertilizantes, e o urânio associado será recuperado pela INB.
O início da operação está previsto para 2016, com uma produção anual de 1.500 toneladas de concentrado de urânio, suficiente para atender às novas quatro usinas previstas no PNE 2030, caso elas saiam do papel. (OESP)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Grupos reduzem custos e poluição com ferrovias

Projetos que favorecem a redução de custos de exportação de açúcar, ao mesmo tempo que retiram caminhões das estradas e reduzem emissões de gases poluentes, são prioridade para grandes empresas do setor, como o Grupo Cosan e a Coopersucar. As duas empresas anunciaram investimentos que somados atingem R$ 3,4 bilhões em projetos logísticos até 2015 e estimam que propiciarão uma redução de pelo menos 62 mil viagens de caminhões por mês.
A Cosan, por meio de sua empresa logística Rumo, está investindo R$ 1,4 bilhão em terminais e reforma de linhas férreas que permitirão o escoamento de 11 milhões de toneladas anuais de açúcar por ferrovia até 2015. "Mudaremos o transporte de açúcar produzido na região centro-sul ao Porto de Santos do modal rodoviário para o ferroviário e deixarão de circular pelas estradas 30 mil caminhões por mês", disse o diretor presidente da Cosan, Marcos Lutz.
A empresa acaba de inaugurar a primeira fase de um terminal intermodal na cidade de Itirapina, no interior de São Paulo. O complexo, que já recebeu um aporte de R$ 100 milhões, abriga por ora um armazém com capacidade para 110 mil toneladas, uma tulha ferroviária, para o carregamento dos vagões, com capacidade para expedir 44 mil toneladas e um ramal ferroviário de 5,6 quilômetros, capaz de realizar o carregamento com a composição em movimento. Até 2015, o terminal deve movimentar até 12 milhões de toneladas de açúcar e grãos por ano.
A Rumo Logística também aplicou recursos na compra de 50 locomotivas e 729 vagões e está realizando, em parceria com a América Latina Logística (ALL), a recuperação da malha ferroviária no trecho de Itirapina a Santos. A empresa também está desenvolvendo projetos para a cobertura de seus terminais no Porto de Santos, com o objetivo de permitir o embarque de açúcar mesmo nos dias chuvosos. De acordo com o diretor presidente da Rumo, Julio Fontana Neto, o terminal deixa de operar por até 120 dias no ano por causa das chuvas.
O executivo informou que do volume total de açúcar processado pela Raízen, joint venture entre Cosan e Shell para a produção de açúcar e etanol e distribuição de combustíveis, cerca de 60% foram escoados pela ferrovia na última safra e a meta é chegar a 90% quando todo o plano de investimentos for concluído.
Etanolduto
A Copersucar anunciou investimentos de R$ 2 bilhões em logística, montante que inclui não apenas a expansão da capacidade de armazenar e transportar açúcar por ferrovia até o Porto de Santos, como também expansão da logística de escoamento de etanol, incluindo sua participação na implantação de um etanolduto. A empresa revela que pretende transportar por meio de ferrovias 70% de seu açúcar a granel até 2015. Atualmente, esse modal responde por cerca de 50% do transporte da commodity. A empresa já investiu R$ 30 milhões na ampliação do Terminal Multimodal de Ribeirão Preto, para permitir o aumento da capacidade de recepção, armazenagem e expedição de açúcar, além de maior velocidade nas operações, que são feitas pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).
Segundo o presidente executivo da companhia, Paulo Roberto de Souza, a Copersucar terá mais três terminais multimodais para o escoamento de açúcar até 2015, dois no Estado de São Paulo e um em Minas Gerais. (OESP)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Hidrelétricas e a inseminação artificial

Inseminação artificial e resgate de ave são trunfos para a preservação
Um dos maiores trunfos dos programas de fauna silvestre de Itaipu é o resgate da harpia, uma ave de rapina cuja presença é cada vez mais rara no oeste paranaense. Desde 2009, foram 13 filhotes criados em cativeiro pelo Refúgio Biológico Bela Vista, um dos dois centros brasileiros que garantem a manutenção de animais da região.
Ave de rapina se tornou rara no oeste paranaense
Outra iniciativa bem-sucedida envolve a inseminação artificial de gatos-do-mato-pequenos e da jaguatirica. Nos próximos anos, alguns desses animais podem ser reintroduzidos na natureza.
"O trabalho com fauna foi recomeçado em 1987. Até então havia animais, mas não existia a proposta de reproduzir espécies ameaçadas", diz o veterinário Wanderlei de Moraes. Na faixa de proteção do reservatório, nas reservas e nos refúgios da margem brasileira do lago há 44 espécies de mamíferos, 305 de aves e 37 de répteis.
Além disso, para se integrar à proposta da criação de um corredor de biodiversidade nas fronteiras do País com o Paraguai e a Argentina, foi reconstituída a ligação verde entre a faixa de proteção do reservatório e o Parque Nacional do Iguaçu. (OESP)


Hidrelétricas e a proteção de ex-desmatador

Ex-desmatador hoje promove a proteção
Produtor Romeu Bruxel teve terras inundadas há 30 anos, mas seguiu na região e garante projeto de agricultura familiar.
No último feriado da Proclamação da República, Romeu Bruxel, de 67 anos, acordou cedo para regar as videiras, seringueiras e outras 18 variedades de culturas do Centro Avançado de Pesquisas (CAP) de Santa Helena, a 120 quilômetros de Foz do Iguaçu. "A planta não aguenta quatro dias sem água", explica. A dedicação do agricultor, que há 30 anos teve suas terras inundadas por Itaipu, é o que mantém o local em funcionamento há 11 anos - as outras duas unidades financiadas pela usina, em cidades vizinhas, já fecharam as portas.

A seringueira faz parte das culturas que são testadas no CAP.
Os CAPs surgiram como centrais para experimentação de alternativas de plantio para a agricultura familiar da região, que tentava em vão competir com grandes produtores pela soja. De quebra, fornecem orientação sobre as melhores práticas de recomposição de áreas desmatadas e regularização de faixas de proteção, o que garante a qualidade da água do reservatório.
"Mais da metade dos 20 mil moradores de Santa Helena vive no campo. Era preciso achar outras culturas que se adaptassem ao nosso clima", diz Bruxel, responsável pelo cultivo nos 7,5 hectares de terreno cedidos pela prefeitura, em área próxima às margens do lago. O projeto ganhou projeção e já foi visitado por 100 mil pessoas, de 69 países.
"Nos primeiros anos, a usina simplesmente pagava os royalties para as cidades. Mas não adiantava dar a terra e não dar condições", afirma. Segundo ele, as ações do CAP provaram que é possível respeitar as áreas protegidas sem diminuir os rendimentos. "Em pequena escala, pode-se ganhar até dez vezes mais com palmito de pupunha que com soja", garante Bruxel.
As culturas escolhidas para serem implantadas no terreno obedecem a dois critérios: têm de ser facilmente adaptadas pelos produtores e garantir rentabilidade. A análise técnica é feita por pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Experiências com uvas bordô, por exemplo, não deram certo, enquanto testes com seringueiras para a produção de látex tiveram resultados promissores. A liberação para plantio, porém, depende de um processo de avaliação que pode levar até dez anos.
Mas novas culturas em breve deverão ser integradas às locais, como o abacaxi, que rende 15 toneladas em 3 quilômetros quadrados. Outro cítrico bem-sucedido é uma tangerina que registrou produtividade de 8 mil frutos em apenas três pés de muda.
Indenizado. A história de Bruxel acompanha o desenvolvimento de Santa Helena. Na década de 1960, ele saiu do Rio Grande do Sul para se juntar aos milhares de agricultores que colonizaram o oeste paranaense à custa da derrubada de árvores em uma área extensa. "Naquela época, dizia-se: 'Plante, que o governo garante'", lembra o descendente de alemães. O financiamento do governo, afirma, só saía para quem tivesse preparado os terrenos para o plantio. "Pequenos produtores conseguiam comprar ceifadeiras, que hoje custam até R$ 600 mil."
No início dos anos 1980, ele foi um dos 40 mil agricultores indenizados por Itaipu para a construção do lago, cuja margem brasileira ficou exposta pelo desmate - no lado paraguaio, o problema não ocorreu. Diferentemente dos muitos que usaram o dinheiro para comprar terras maiores em Mato Grosso do Sul, Bruxel ficou em Santa Helena. / BRUNO DEIRO
Classificadas como fontes de energia limpa, as hidrelétricas não estão livres da emissão de gás carbônico e metano, que se dá pela decomposição da matéria orgânica acumulada no fundo do lago. Um levantamento com dados do reservatório de 12 usinas do País, porém, aponta que Itaipu está entre as que menos liberam gases do efeito estufa.
O estudo, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ, mostrou que a hidrelétrica emite, por metro quadrado, 10,7 miligramas (mg) de metano e 170 mg de gás carbônico a cada dia.
Segundo os pesquisadores, a explicação é a profundidade do lago e a grande potência energética. A usina de Tucuruí (TO) é a recordista em gás carbônico (8,4 mil mg), enquanto Três Marias (MG) lidera a emissão de metano, com 196 mg - o que a torna mais poluente do que algumas termoelétricas movidas a carvão mineral ou a gás natural. (OESP)

'Falar em preservação era poesia’

Arnaldo Carlos Müller, engenheiro florestal que chefiou ações de meio ambiente na parte brasileira de Itaipu, fala das obras e suas consequências.
O engenheiro florestal Arnaldo Carlos Müller tinha pouco mais de quatro anos de formado quando recebeu, em 1975, o convite para chefiar as ações de meio ambiente na parte brasileira de Itaipu. Em um mês e com equipe reduzida, elaborou um plano básico para compensar os impactos do enchimento do reservatório e nos 15 anos seguintes teve de lidar com a instabilidade política e econômica da empresa para pôr em prática os projetos de atenuação dos impactos - a questão ambiental, considerada supérflua na visão progressista do governo militar da época, foi uma das menos privilegiadas no período de construção da usina.
Müller trabalhou de 1975 e 1995 em Itaipu.
Que espaço havia para a questão ambiental nos primeiros anos de Itaipu?
Eu trabalhava com meio ambiente no governo em Brasília, em 1975, quando fui chamado para ser assistente de diretoria em Itaipu. Tinha menos de cinco anos de formado e, em alguns aspectos, era um trabalho para inglês ver, como se diz, em função da pressão externa provocada pela Conferência de Estocolmo (1972) e a participação dos financiadores internacionais. Naquele tempo nem se falava em meio ambiente no Brasil, não havia preocupação. Falar em proteger o verde era uma espécie de poesia para os militares. Nosso presidente da época (general Ernesto Geisel) não era simpático à questão, então a preocupação maior era com o reservatório em si e com o processo de desapropriação.
Como foi elaborado o planejamento contra os impactos das obras?
No primeiro mês de trabalho vimos a necessidade de se fazer um plano básico de conservação para o reservatório, com estudos e inventários da área de inundação. Foi elaborado em cerca de um mês por mim e outros três colegas e serviu para dar um norte aos trabalhos, sendo usado em toda a fase de preparação pela diretoria.
Há 30 anos, quais eram as exigências em relação a grandes hidrelétricas?
Não havia nenhuma exigência legal de contrapartida na área de meio ambiente. A única lei que havia naquela época era o Código Florestal, vigente desde1965, que exigia uma área de proteção permanente (APP) de 100 metros em volta do reservatório. Havia uma oposição muito forte do setor elétrico no caso de Itaipu, pois muitos achavam que não havia necessidade de replantar aquela área toda, mas o diretor jurídico da época, Paulo José Nogueira da Cunha, comprou a briga para fazer valer a lei.
Como foram tomadas as decisões mais drásticas e polêmicas, como a inundação de Sete Quedas?
Itaipu tinha quatro projetos prévios de viabilidade: econômico, ambiental, hidrológico e geológico. O de meio ambiente foi feito por Robert Goodland (conselheiro ambiental do Banco Mundial por 23 anos) e concluiu que Sete Quedas não tinha grande relevância turística. A prova apresentada é de que havia apenas dois hotéis pequenos em Guaíra, com dez leitos cada um. Quando entrei, as decisões principais já tinham sido tomadas.
Qual impacto sobre o ecossistema foi o mais difícil de ser evitado?
Naturalmente aflora a questão de Sete Quedas. Sobre esse impacto, porém, havia muito pouco a fazer. Fizemos coletas de plantas da área rupestre das rochas de Sete Quedas, mas foi mais para registro. O salvamento foi tentado, mas com resultados pífios. Ao se formar o reservatório, descobriu-se que nas fendas das rochas havia centenas de morcegos muito pequenos, que escaparam da inundação e invadiram as casas de Guaíra, causando um pânico que durou três dias entre os moradores. Esse foi um impacto que não havíamos previsto.
Como foi realizado o trabalho na área que seria usada como reservatório?
Nossa equipe tinha cinco ou seis pessoas. Procuramos analisar a área que seria desmatada e toda a parte histórica que seria inundada. O diretor dizia que não tinha dinheiro para grandes ações, então desenvolvemos um sistema de resgate de fauna chamado mymba-kuera ("pega-bicho", em guarani), além dos refúgios biológicos.
De que forma foi feito este resgate?
Na medida em que o reservatório foi enchendo, fomos resgatando o máximo que conseguimos entre Sete Quedas de Guaíra e Itaipu. Tínhamos cinco bases, com cinco a sete barcos cada uma, e recolhíamos o que estava ao alcance (oficialmente, foram mais de 36 mil animais resgatados). Apenas de cobras venenosas eram cerca de 2,4 mil. Boa parte foi enviada de caminhão ao Instituto Butantã.
Quando foi demarcada a área de proteção nas margens do lago?
Previamente, a APP foi demarcada fotograficamente. Fizemos então uma demarcação viva, plantando cinco árvores a cada cinco metros, em uma cortina de 1 milhão de mudas entre Foz e Guaíra que passava por plantações de trigo e soja de sujeitos que seriam desapropriados dali a dois ou três anos. Seis meses antes da inundação, pintamos as árvores que demarcariam a recomposição. Alguns equívocos, no entanto, foram cometidos.
Que tipos de equívocos?
Usamos uma árvore chamada leucena, que cresce rapidamente, não pega fogo e tem capacidade de disseminação muito grande, mas que virou uma praga na região nos anos seguintes, pois interfere no crescimento de outras espécies e acaba dominando o ecossistema. Ainda hoje, ela é combatida no oeste paranaense. Por outro lado, se não tivéssemos plantado uma árvore tão resistente, talvez a faixa de proteção não tivesse sido preservada por tanto tempo.
Quais trabalhos foram feitos após o enchimento do reservatório?
Com o lago formado, alguns diretores disseram que Itaipu sairia da mídia e haveria menos investimentos na área ambiental. Mas ainda havia muito a ser feito. Chamamos três jovens pesquisadores da Universidade de Maringá para fazer o estudo de ictiofauna do novo lago. Usando um recurso que seria impossível hoje, aproveitamos a verba de um outro contrato durante três meses para pagá-los. O trabalho deu origem ao Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (Nupelia), que acompanhou a evolução da fauna aquática local nas décadas seguintes.
E como foi feito o reflorestamento?
Com baixo orçamento, tínhamos de reflorestar toda a margem (2,9 mil quilômetros). Um agricultor nos perguntou se poderia plantar árvores frutíferas. Fomos a campo pra ver se outros também queriam e fizemos um acordo para fornecer áreas com espaçamento de 2x8 metros, bem maior que os 2x2 a que eles estavam acostumados. Foram autorizados a cultivar frutas como amora, goiaba e manga por três anos à beira do lago, enquanto não houvesse sombra das árvores, desde que ajudassem a reflorestar. Com isso, foram arranjando mudas e assim plantamos 12 milhões de árvores entre 1982 e 1985, gastando basicamente apenas com transporte. Nesse meio tempo, entrou o governo civil e os projetos passaram a crescer.
Por que você deixou a empresa?
No início dos anos 1990, com dificuldades financeiras, voltou a mentalidade de que Itaipu tinha apenas de gerar energia e chegou a ordem de demitir boa parte do pessoal da área ambiental. Pouco depois, eu saí. Naquela época, pensou-se em repassar o refúgio biológico para as universidades locais, o que acabou não ocorrendo.
Como avalia todo o trabalho hoje?
Nas condições que nós tínhamos, acho que fizemos o possível. Se for analisado hoje, temos mais pesquisas e ações, mas o que estão fazendo são reajustes em relação ao que fizemos. O refúgio, por exemplo, tinha instalações precárias, hoje vale a pena visitar. Levo meus alunos lá todo ano, é gostoso de ver. Mas a ideia conceitual foi bem fincada há três décadas.
Que ações foram fundamentais?
Além dos refúgios biológicos, creio que o reflorestamento. Um dos efeitos paralelos é que quem plantou se sente até hoje responsável, não permite que as matas ciliares sejam desmatadas. Tínhamos só quatro pessoas na equipe, mas conseguimos mais de mil fiscais "voluntários" e hoje são mais de 25 milhões de árvores plantadas no lado brasileiro. / BRUNO DEIRO
Trabalhou de 1975 a 1995 em Itaipu e esteve à frente da equipe ambiental da margem brasileira da usina por 16 anos. É autor do livro Hidrelétricas, Meio Ambiente e Desenvolvimento. Atualmente, presta consultoria na área de meio ambiente e dá aulas de Engenharia Ambiental na PUC-PR. (OESP)