A China está buscando vencer
as guerras tarifária e climática e redefinindo sua inserção e sua contribuição
na economia internacional. Com o fim do longo ciclo de produção de mercadorias
baratas, da expansão da construção civil e das altas emissões de CO2,
a China viu nas transições energética e tecnológica grande oportunidade de uma
nova inserção global, junto à descarbonização da economia.
Enquanto o presidente Donald
Trump adota políticas protecionistas e negacionistas (retirou os EUA do Acordo
de Paris e apoia a ilimitada extração de petróleo – “Drill, baby, drill”), a
China investe na transição energética tanto em nível doméstico como tem
exportado seu modelo de transição, criando uma cadeia integrada que tem
reconfigurado a dinâmica comercial e produtiva.
Nas últimas duas décadas, as
políticas industriais e o dinamismo empresarial da China transformaram o país
de um fabricante de baixo custo em um polo de inovação profundamente integrado
às cadeias de suprimentos globais, gerando crescimento para as economias em
desenvolvimento e benefícios deflacionários para as avançadas. A integração da
China agora é irreversível e os países que investem em adaptação,
competitividade e resiliência social podem encarar a ascensão chinesa como uma
oportunidade, e não necessariamente como uma ameaça.
A transição energética deixou
de ser um conceito abstrato para se tornar um pilar central da economia global
do século XXI. Com um valor de mercado de cerca de US$ 1,5 trilhão, atualmente,
deve saltar para mais de US$ 3 trilhões até 2030 e mais de US$ 5 trilhões até
2035. Somente o mercado de energia solar deve quadruplicar em 10 anos passando
de US$ 0,4 trilhão em 2024 para US$ 1,6 trilhão em 2034.
O crescimento será
particularmente forte nas áreas de energias solar e eólica, baterias,
hidrogênio verde, robôs, drones, veículos elétricos e Inteligência Artificial.
Estes setores são cruciais para combater as alterações climáticas, mas também
representam uma das maiores oportunidades de investimento e crescimento
industrial das próximas décadas.
A ascensão econômica da China na última década (desde o plano Made in China 2025) tem sido tanto um motor de prosperidade global quanto uma fonte de disrupção. Outrora a “fábrica do mundo” de bens de consumo baratos, a China se transformou em um polo de inovação, impulsionando o crescimento das commodities na América Latina e na África e ancorando a estabilidade de preços nas economias avançadas.
Turbinas eólicas e painéis solares simbolizam a transição energética da China rumo ao eletroestado, com foco em renováveis.
A transformação da China não
aconteceu por acaso. Foi impulsionada por ambiciosas políticas industriais
lideradas pelo Estado que investiu recursos em setores como robótica,
aeroespacial, tecnologia verde e biotecnologia. Aquisições estratégicas no
exterior e transferências de tecnologia ajudaram a construir uma estrutura de
produção de espectro completo, conferindo à China uma vantagem comparativa em
indústrias intensivas em mão de obra, capital e conhecimento. Em grande parte,
isto reflete o espírito milenar e empreendedor povo chinês.
No entanto, as percepções
sobre a ascensão da China foram moldadas não apenas pela economia, mas também
pela geopolítica. A crescente sensação de ameaça no Ocidente reflete tanto
pressões competitivas quanto tensões ideológicas e estratégicas mais profundas.
Entre as críticas mais contundentes à ascensão da China está o chamado “choque
chinês” — a onda de concorrência das importações que dizimou muitas indústrias
manufatureiras e devastou comunidades industriais nos Estados Unidos. No início
dos anos 2000, as regiões mais expostas às importações chinesas
A integração da China na
economia global é irreversível, pois está profundamente enraizada nas cadeias
de suprimentos, nos fluxos de capital e nas redes de inovação, sendo quase
impossível contê-la. A verdadeira questão para os formuladores de políticas não
é se devem se engajar com a China, mas como se adaptar ao seu impacto
econômico.
A China continuará sendo uma
força central na definição da prosperidade do século XXI. O desafio para o
resto do mundo é lidar com os desafios e as oportunidades da integração e
adaptação e não simplesmente como um choque a ser temido e combatido. Um ponto
de atrito que tem gerado muito receio no resto do mundo, são os crescentes
superávits comerciais da China.
Como mostrei no artigo “Saldo
comercial da China ultrapassa US$ 1 trilhão em 2025”, publicado aqui no Portal
Ecodebate (Alves, 10/11/2025) a China tinha déficit comercial com o resto do
mundo na segunda metade da década de 1980. Na virada do milênio o superávit
comercial chinês ficou em torno de US$ 20 bilhões. Com a entrada da China na
Organização Mundial do Comércio, o superávit comercial atingiu US$ 100 bilhões
em 2005, subiu para US$ 500 bilhões em 2015 e quase atingiu a cifra de US$ 1
trilhão em 2024.
O gráfico abaixo mostra o superávit comercial da China nos primeiros 11 meses de 2024 e 2025. De janeiro a novembro/2024 o superávit comercial chinês foi de quase US$ 900 bilhões (média mensal de US$ 82 bilhões). Nos primeiros 11 meses de 2025 o superávit comercial da China foi de US$ 1,08 trilhão (média mensal de US$ 98 bilhões). Em apenas 11 meses de 2025 o superávit já é maior do que em todo 2024. Para efeito de comparação, o superávit comercial chinês é mais de 20 vezes maior do que o brasileiro.
Sem dúvida, a China investiu na produtividade interna, na competitividade internacional e nos crescentes superávits comerciais, que não possuem limitações no horizonte. Como mostrou Jeffrey Wu, a exportação mais importante da China hoje não é apenas um produto, mas um processo. E isto redefinirá a natureza da competição global e a geopolítica internacional.
Como mostrei no artigo “A
China continua imbatível nas exportações” (Alves, 23/07/2025), o gigante
asiático não está apenas movimentando mais mercadorias, está exportando um novo
modelo de produção impulsionado pela automação, IA, 6G, transição energética e otimização
industrial orientada pelo Estado. A China também investe em carros autônomos,
robôs humanoides e novos medicamentos. Toda essa mudança é disruptiva,
deflacionária e ainda amplamente mal compreendida. O projeto da China é
ambicioso: avançar na criação de uma cadeia produtiva global, reconstruir o
sistema energético global e se tornar o primeiro “eletroestado” do mundo,
deixando para trás os fósseis petroestados.
Como a China tem altas taxas de poupança e investimento, ela recicla os grandes superávits comerciais financiando os déficits em transações correntes do Ocidente e dos países em desenvolvimento. Empresas estatais chinesas forneceram US$ 2,2 trilhões em empréstimos e doações ao redor do mundo desde 2000. Como os mais prolíficos credores do mundo, a China já desembolsou mais de US$ 1 trilhão em empréstimos para países em desenvolvimento, financiando estradas, portos, ferrovias e infraestrutura energética na Ásia Central, na África e na América Latina. Nos EUA, além da compra de títulos americanos, houve investimentos na Tesla, Amazon, Disney, Boeing, etc.
China se torna o primeiro eletroestado, liderando em renováveis e eletrificação, enquanto pressiona petroestados e redefine a geopolítica global.
Sem dúvida, a transição energética
e tecnológica da China abre uma janela de oportunidade para o Sul Global, ao
garantir o fornecimento de equipamentos com baixos custos, possibilitando
enfrentar a “pobreza energética”. Para tanto, cabe aos países em
desenvolvimento definir uma visão industrial e de energia de longo prazo que
combine metas de eletrificação renovável, hidrogênio verde e veículos elétricos
com metas de conteúdo local (percentual de componentes produzidos localmente).
Fazer acordos de co-investimento com fornecedores chineses, condicionados à
transferência tecnológica, centros de treinamento e joint ventures locais.
Evidentemente, existem
riscos. Cabe evitar a dependência tecnológica e mercantil ao comprar tudo
pronto sem desenvolver indústria local pode prender um país a importações e
vulnerabilidade a choques de preços. Dívida e contratos pouco favoráveis podem
criar encargos fiscais impagáveis, assim como déficits excessivos em transações
correntes. Projetos mal integrados (sem planejamento de rede) podem gerar subutilização
e problemas de qualidade.
Sem dúvida, a transição
energética e tecnológica traz benefícios sociais e ambientais, mas a sua
difusão e implementação no Sul Global precisa ser bem administrada. Assim, os
enormes superávits comerciais da China são um ponto de atrito com os demais
países. Se as nações em desenvolvimento mantiverem déficits comerciais e forem
apenas receptores passivos dos investimentos chineses podem aprofundar a
dependência econômica e política da China. Um mundo mais fraturado trará mais
prejuízos do que ganhos.
O eixo escolhido foi a
eletrificação em larga escala, com expansão coordenada de eólica, solar,
baterias e veículos elétricos, apoiada por metas industriais e crédito público.
A prioridade foi segurança
energética e tecnológica, não metas morais de carbono.
O que os dados mostram:
geração limpa e emissões
Os números recentes ajudam a
dimensionar a virada.
Em
abril/2025, a participação combinada de eólica e solar chegou a 26% da
eletricidade gerada no país, um recorde mensal. (ecodebate)





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