sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O pico do petróleo e o crescimento das energias renováveis

Você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer’ - Confúcio (551 a.C – 479 a.C)
O pico global do petróleo pode ser atingindo na próxima década. A partir de 2030 a oferta global de combustíveis fósseis deve diminuir, como mostra Dennis Coyne, no artigo The Energy Transition, publicado no site Peak Oil Barrel.
Mas a demanda mundial de energia deve continuar crescendo, pois, a população mundial deve aumentar até cerca de 11 bilhões de habitantes em 2100 e, segundo as projeções atuais, o crescimento econômico per capita, mesmo que em menor ritmo, deve se manter positivo no restante do século.
A grande questão então será: como atender o hiato entre a demanda de energia mundial e a queda da oferta global de combustíveis fósseis? Será que este hiato poderá ser preenchido pelas energias renováveis?
Evidentemente, é difícil prever o futuro. Mas segundo dados da International Renewable Energy Agency (IRENA), a capacidade instalada de energia eólica no mundo que era de 6,1 Gigawatts (GW) em 1996, atingiu 435 GW em 2015. Houve um crescimento de quase 71 vezes em 20 anos. Porém, a base de comparação era muito pequena e dificilmente este ritmo espetacular das duas últimas décadas não se repetirá no futuro.
A capacidade de geração de energia eólica mundial era pouco maior do que uma usina de Belo Monte em 1996 e passou para o equivalente a quase 100 usinas de Belo Monte no ano passado. Somente em 2015, foram instalados aerogeradores eólicos com capacidade de 54 GW, o que equivale a 12 usinas de Belo Monte, em um único ano.
O relatório da ONU, Tendências globais em investimento em energia renovável 2016, mostra que os investimentos em energias renováveis bateram todos os recordes em 2015 e o montante investido em energia solar superou o recurso aplicado em energia eólica. De fato, o crescimento da capacidade instalada de energia fotovoltaica, no mundo, passou de 0,7 Gigawatts (GW) em 1996, para 228 GW em 2015, um crescimento de 326 vezes em 20 anos. A energia solar fotovoltaica é a fonte energética com a maior taxa de crescimento global, superando inclusive o desempenho da energia eólica, que é outra fonte muito promissora.
A China avança rapidamente na produção de energia eólica e solar e também na produção de veículos elétricos, o que vai estimular o avanço das energias renováveis. Artigo de Loveless, no USA Today, mostra que em 2015 a indústria solar estabeleceu um recorde nos EUA para novas instalações de 7,3 Gigawatts e espera-se para 2016 que esse número chegue quase o dobro, isto é, 14 Gigawatts. Porém, o mesmo autor mostra que as energias renováveis ainda têm um longo caminho pela frente para ter um peso significativo na matriz elétrica total.
Pois, apesar de todo este crescimento fantástico das energias eólica e solar, estas duas fontes respondem por menos de 1,4% do consumo global de energia. Os combustíveis fósseis continuam dominando a matriz energética mundial e não devem perder muito espaço até 2030.
Assim, o desafio está colocado. O mundo precisa superar a Era dos combustíveis fósseis para contornar o Pico do Petróleo e para descarbonizar a economia e evitar uma catástrofe ambiental decorrente do aquecimento global. A alternativa mais viável é o crescimento das energias eólica e solar. Seria necessário um grande plano nacional e internacional para promover o crescimento das energias renováveis e de baixo carbono.
Mas como mostrou Jeremy Leggett (04/08/2016), a queda dos investimentos em energias renováveis em 2016 está indicando que a transição da matriz energética não deverá ocorrer na velocidade requerida e dificilmente o Acordo de Paris (da COP-21) será alcançado em sua plenitude. Portanto, o mundo corre um sério risco em manter o metabolismo entrópico que sustenta o atual modelo marrom de desenvolvimento.
Para Jason Hickel (20/07/2016), a energia renovável não é capaz de salvar o atual sistema de produção e consumo e não é uma panaceia para todos os males contemporâneos. Somente uma mudança de sistema pode salvar o Planeta. Artigo de Jason Deign (28/09/2016) mostra que as tecnologias de baterias de Íons de Lítio e as células fotovoltaicas já estão atingindo os limites máximos de eficiência e atingindo o ponto dos retornos decrescentes.
Diante do crescimento das baterias elétricas já se fala no Pico do Lítio. O artigo de Tam Hunt, considera que mesmo com o avanço de possíveis substitutos do Lítio e a descoberta de novas reservas, não haverá Lítio para sustentar a produção mundial de carros elétricos e outros dispositivos. Ele conclui dizendo que temos de fazer o nosso melhor para ficar longe de carros elétricos individuais de passageiros e investir mais no design inteligente das cidades, nas caminhadas, no ciclismo, nos trens, nos ônibus espaciais e no compartilhamento dos veículos.
Artigo de Gail Tverberg (31/08/2016) mostra que muitas pessoas estão esperando que o vento e o sol possam transformar a matriz energética de uma forma favorável. Mas ela questiona se é realmente viável as energias renováveis intermitentes forneceram grande parte da eletricidade na rede elétrica. Ela dá uma resposta negativa e considera que Os custos são muito grandes, e o retorno sobre o investimento muito baixo. O mais difícil seria substituir os combustíveis líquidos. Ela diz ainda: Se continuarmos a adicionar grandes quantidades de eletricidade intermitente à rede elétrica sem prestar atenção aos problemas gerados, corremos o risco de trazer todo o sistema para baixo.
Acima de tudo, como alertou o ambientalista Ted Trainer (2008), as energias renováveis não são suficientes para manter a ambição das pessoas por um alto padrão de consumo conspícuo. O sol e o vento são recursos naturais abundantes e renováveis, mas não podem fazer milagres e nem evitar a continuidade do metabolismo entrópico. Trainer prega um mundo mais frugal, com decrescimento demoeconômico, onde as pessoas adotem um estilo de vida com base nos princípios da Simplicidade Voluntária. (ecodebate)

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