sexta-feira, 10 de junho de 2022

Biogás aumenta sua relevância na matriz energética do Brasil

Tido no passado como uma fonte de nicho, o biogás já começa a encontrar espaço relevante na matriz energética, seja na geração de energia, seja como combustível. Um passo significativo se deu neste mês, com a parceria formada entre a Abegás e a ABiogás. As duas entidades formaram um grupo de trabalho para desenvolver ações que impulsionem a injeção de biometano (biogás com altos níveis de pureza) na rede das distribuidoras, no momento em que muitas empresas buscam reduzir emissões de gases de efeito estufa. Segundo a gerente executiva da ABiogás, Tamar Roitman, 25 novas usinas já anunciadas têm investimentos da ordem de R$ 60 bilhões até 2030 para ofertar 30 milhões de m3/dia – de um potencial que superaria os 120 milhões de m3/dia. “Queremos transformar esse potencial em realidade”, disse Marcelo Mendonça, diretor de Estratégia e Mercado da Abegás.
Dados do CIBiogás, um centro de referência do biocombustível, mostram crescimento exponencial da fonte nos últimos cinco anos: em 2017 eram 271 usinas, que passaram para 755 em 2021, com oferta de 2,3 bilhões de m3 de biogás. A expectativa do centro é de um aumento de 22% na oferta, com a entrada em operação de 56 centrais que estão em operação ou reforma. “Os 4% de plantas em implantação correspondem a 15% do volume de biogás, sugerindo um maior porte nas novas unidades”, disse Karina Navarro, integrante da equipe técnica do CIBiogás, no estudo denominado Panorama do Biogás no Brasil em 2021. Mudanças na regulação têm o efeito de formar mercados e não podia ser diferente no caso do biogás ou do biometano. Um dos exemplos é o marco regulatório da micro e minigeração distribuída, em vigor desde 2012 e atualizado no ano passado, viabilizando geradoras a biogás, que recebem créditos ao injetar eletricidade na rede das distribuidoras.

Outro exemplo foi o marco legal do saneamento, que fixa prazo para o fim dos lixões a céu aberto, forçando a destinação dos resíduos sólidos para aterros, com algum tipo de tratamento, criando as bases para o biogás. Incentivos financeiros também vêm ajudando o biocombustível a abrir espaço: no fim de março passado, o governo federal lançou o programa Metano Zero, que visa incentivar a produção, com a criação de linhas de crédito para novos projetos. São 3 as principais fontes de produção do biogás: resíduos e dejetos da agropecuária, da indústria (produtora de restos orgânicos) e do saneamento – aterros sanitários e esgoto. Destes, a agropecuária responde pela maior parte do fornecimento, mas já se vê forte avanço da vinhaça resultante do processo de produção de etanol.

A Raízen, por exemplo, anunciou recentemente a construção da segunda unidade de biogás – a primeira dedicada ao biometano – a partir da vinhaça e da torta de filtro, resíduos da produção de etanol. Localizada em Piracicaba, a unidade terá capacidade de produzir 26 milhões de m3 por ano, o suficiente para atender a 200 mil residências. A produção já foi vendida, para a Yara Brasil Fertilizantes e para a Volkswagen, ambos em contratos de longo prazo. Ricardo Mussa, presidente da Raízen, conta que a nova unidade representa a materialização do plano da companhia de expandir negócios em energias renováveis.

Embora incipiente, o saneamento também atrai investimentos. O grupo Urca Energia inaugurou esta semana a operação comercial da sua terceira geradora movida a biogás, localizada em Mauá (SP). A usina tem potência de 5 megawatts (MW), correspondendo a 27% da capacidade total da empresa. Outras duas usinas que somam 9 MW estão em operação: Seropédica (RJ) e Ipiranga do Norte (MT). Uma quarta central, de 5 MW, deve entrar em operação no segundo semestre deste ano, em São Gonçalo (RJ). A empresa chegará, portanto, a 19 MW em geração distribuída, com R$ 82 milhões em investimentos. Além da Eva Energia, o grupo adquiriu no início do ano a Gás Verde, produtora de biometano, num negócio de R$ 1,2 bilhão. Entre os ativos da Gás Verde está uma usina, também em Seropédica, com capacidade de produzir 120 mil m3/dia com plano de expansão para 200 mil m3/dia. “Percebemos um grande interesse por parte das empresas em adotar o biometano em seus processos produtivos e, assim, viabilizar uma mudança efetiva em suas operações, migrando para uma matriz mais limpa”, afirmou Marcel Jorand, diretorexecutivo da Urca Energia.

Biogás aumenta sua relevância na matriz energética do Brasil (Transporte pesado)

Nesse sentido, frisam Tamar, da ABiogás, e Marcelo, da Abegás, a injeção de biometano na rede também visa atrair um outro segmento, o de transporte pesado, hoje impactado pela volatilidade do preço do óleo diesel. O volume de diesel importado atualmente corresponderia aos 30 milhões de m3/dia ofertados pelos próximos projetos, salienta o executivo da Abegás. “Com mais infraestrutura para distribuição, certamente vai ampliar o interesse, é uma expectativa crescente dos dois lados [produtor e distribuidor]”, completa Tamar. (abegas)

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