sábado, 20 de setembro de 2014

O crescimento da energia renovável e o Pico do Petróleo

O consumo total de energia no mundo passou de cerca de 4 bilhões de toneladas de óleo equivalente, em 1965, para pouco mais de 12 bilhões em 2013, um crescimento de 3 vezes, enquanto a população mundial dobrou de tamanho no mesmo período. A energia fóssil (petróleo, carvão e gás) responde por mais de 80% do consumo mundial. Cresceu a disponibilidade de energia extrassomática per capita, o que possibilitou o aumento da renda per capita e uma elevação do padrão médio de vida humana.
Segundo o Conselho Global de Energia Eólica (Global Wind Energy Council – GWEC), a capacidade instalada de energia eólica era de 6,1 Gigawatts (GW) em 1996 e atingiu pouco mais de 318 GW em 2013 (isto equivale a mais de 22 usinas de Itaipu). Um crescimento de quase 52 vezes em 15 anos. De 1995 a 2013 a capacidade global de produção de energia solar fotovoltaica aumentou mais de 200 vezes, passando de 0,6 gigawatts (GW) para mais de 120 GW. Foi um crescimento exponencial impressionante.
Porém, a energia renovável, a despeito de todo o crescimento recente, representa somente 2% das fontes energéticas utilizadas no mundo. A soma das fontes renováveis, hidrelétricas e nuclear fica em torno de 20% do total global.
Portanto, os combustíveis fósseis vão continuar responsáveis pelo atendimento da maior parte das necessidades energéticas mundiais, nas próximas décadas. Daí surge dois problemas graves:
1) a continuidade da queima de combustíveis fósseis vai manter elevada a emissão de CO2, aumentando os efeitos deletérios do efeito estufa que provoca o aquecimento global, com todas as suas consequências negativas;
2) o alto consumo de combustíveis fósseis, em um quadro de depleção dos antigos poços, deve gerar um desequilíbrio entre oferta e demanda, provocando a elevação dos preços.
Atualmente, o preço do petróleo, em termos constantes, está em seus mais altos patamares históricos. O preço do petróleo era muito alto no começo da exploração entre os anos de 1861 e 1869. Mas com as novas descobertas e o avanço tecnológico, os preços foram caindo até o início da década de 1970. A instabilidade do Oriente Médio e as guerras do Yom Kipur e do Irã Iraque jogaram os preços na “estratosfera”. O fim da Guerra Fria e a maior estabilidade política possibilitaram que os preços voltassem aos seus níveis mais baixos da história na virada do milênio. Contudo, mesmo sem grande conflitos sangrentos, os preços voltaram a subir na primeira década do século XXI e, após uma redução na recessão de 2009, voltaram a subir para os maiores patamares da série.
Quais são as perspectivas para os próximos anos?
Tudo depende do Pico do Petróleo. Diversos estudiosos argumentam que o pico da produção vai ser atingido entre 2015 e 2020. O petróleo e demais combustíveis fósseis não vão acabar totalmente e de repente, mas a exploração de novas reservas está ficando economicamente muito cara, tornando-as inviáveis comercialmente. Os custos crescentes no transporte, no armazenamento, no refino, etc, devem agravar a situação. Por exemplo, os custos de exploração do pré-sal no Brasil são muito altos e a Petrobras se endividou de maneira perigosa para tentar viabilizar a ideologia dos governos Lula e Dilma de que o pré-sal é “o passaporte para o futuro” do Brasil. Porém, o pré-sal pode ser um poço sem fundo no endividamento brasileiro devido às dificuldades econômicas e ambientais de extração do óleo.
Na primeira metade do século XX, a EROEI (energia retornada sobre energia investida) era alta, possibilitando preços baixos. Atualmente existe uma redução da EROEI e um aumento dos custos de produção. Assim, atingindo o limite viável para o aumento da produção, deve ocorrer um aumento do preço dos combustíveis fósseis. Há também a instabilidade política no Oriente Médio, na África e em outras partes do mundo, como no caso da Ucrânia. A guerra civil da Síria e do Iraque (que envolve outros países da região), as ações terroristas na Nigéria, os problemas na Argélia, Líbia e Egito e outros conflitos armados tende a reduzir a produção de petróleo e aumentar os custos de produção e segurança.
O pico de Hubbert (ou Pico do Petróleo) é uma realidade que deve reconfigurar toda a dinâmica econômica das próximas décadas. Se fosse possível o aumento da produção de energias renováveis no mesmo ritmo de queda da produção de combustíveis fósseis, não haveria escassez de energia. Até seria muito bom para o meio ambiente.
Mas com um aumento muito grande dos preços do petróleo e derivados nos próximos anos, a própria produção de energia renovável pode ficar comprometida. Os agentes políticos e econômicos deveriam ter investido na mudança da matriz energética no momento em que havia ventos favoráveis. Contudo, o que foi feito foi aumento do consumo conspícuo (casas enormes, carros, produtos de luxo, etc), via elevação do crédito, o que gerou um enorme endividamento. Segundo Tyler Durden (2014) a dívida total – do governo, das empresas, das famílias e dos consumidores – dos Estados Unidos é de US$ 60 trilhões (4 vezes o tamanho do PIB). O endividamento do mundo é de US$ 223 trilhões (3 vezes o PIB mundial).
Desde a Revolução Industrial, o rápido crescimento econômico dependeu de uma oferta ampla e barata de energia, como mostraram Ayres e Voudouris (2014):
“We argue that the empirical results presented in Section 4.2 confirm the economic intuition that growth since the industrial revolution has been driven largely by the increased stock of capital and the adequate supply of useful energy due to the discovery and exploitation of relatively inexpensive fossil fuels. Thus energy policies need to continuously explore the existence of plausible signs of collision between increasing consumption of useful energy and the finite energy resources of the planet” (p.27).
Assim, o mundo tem que se preparar para a nova realidade energética, em um quadro de endividamento e de redução da energia extrassomática per capita, o que significa redução do crescimento econômico e da renda, aumento do desemprego e do preço dos alimentos. Os problemas da Líbia, Egito, Síria, Iraque, Ucrânia, etc, já refletem, de alguma forma, a crise energética mundial.
Não vai ser fácil reordenar o modelo de desenvolvimento extremamente dependente dos hidrocarbonetos em um quadro que os problemas sociais tendem a se agravar, assim como os conflitos étnicos, religiosos e nacionais. (ecodebate)

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